A “loucura” de D. Juana I de Castela – Parte III

Parte III – Diagnóstico de Loucura

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Até hoje, não está totalmente claro em que ponto a suposta loucura de D. Juana I de Castela chegou, fazendo com que a mesma fosse declarada inapta para governar. Os relatos dos historiadores são extremamente confusos nesse aspecto: enquanto uns dizem que era uma mulher nervosa e ciumenta, outros afirmam que sofria da mesma enfermidade mental que acometera sua avó, Isabel de Portugal. Todavia, é possível que Juana se encontrasse no meio termo entre um extremo e outro. De certo, ela fugia dos padrões de subserviência feminina do século XVI. Não fora uma esposa submetida, nem tampouco pacificadora do lar. Contudo, sentia um sentimento avassalador por seu esposo Felipe, a ponto de punir as amantes deste e comparecer a festas com o único propósito de vigiá-lo. Conta-se que foi em um baile da corte borgonhesa, que Juana, já em estado avançado de sua segunda gravidez, sentiu as dores do parto dentro de um banheiro e lá mesmo deu à luz ao futuro Imperador Carlos V. Tendo a mãe como exemplo feminino, a herdeira das coroas de Castela e Aragão não queria parecer menos que a grade Isabel, embora não tivesse a compostura desta última.

Os dados de que dispomos não são suficientes para esboçar um quadro clínico preciso da condição mental de Juana. Poderia ela sofrer de alguma psicose, ou simplesmente ser dotada de um comportamento histérico. Porém, na Europa de fins do século XV e início do XVI, com o declínio da epidemia da peste negra, o tema da loucura passa a ganhar maior atenção por parte das autoridades públicas. Com efeito, acusar alguém de louco era sem dúvida também estar fazendo uma crítica a essa pessoa e aos seus costumes e ideias. Por não se comportar como se esperava de uma mulher cristã, Juana então se tornara um alvo para a língua de homens ambiciosos, como Felipe “o Belo”. Diz Michel Foucault que,

“No século XVI, mais que em qualquer outra época, a Epístola de Coríntios assume um prestígio incomparável: ‘Falo na condição de louco, e o sou mais que ninguém’. Loucura é esta renúncia ao mundo; loucura, o abandono total à vontade obscura de Deus; loucura, esta procura cujo fim não se conhece – esses são outros temas caros aos místicos” (FOUCALT, 1978, pag. 37).

Felipe e Juana, por artista desconhecido.

Felipe e Juana, por artista desconhecido.

Estamos falando de uma época em que o sobrenatural caminhava lado a lado com a vida cotidiana das pessoas. Havia um medo imenso de se pecar na terra, e condenar o espírito ao purgatório. Não obstante, Juana foi negligenciando aos poucos seus deveres como mãe e cônjuge, e depois da morte do marido, conservou a memória do mesmo até o fim de seus dias. Poderíamos dizer, portanto, que era uma mulher louca? Ou simplesmente alguém que buscava certa correspondência de sentimentos? São esses dois questionamentos pertinentes para se tratar de uma princesa cujo poder e status eram altamente desejados pelos próximos.

No entanto, uma característica especialmente interessante surge quando se esta analisando a vida de Juana I de Castela: “por ausência de testemunhos de sua própria palavra, já que não se conservam nos arquivos suas cartas ou escritos, carecemos de pistas que essa palavra pessoal poderia talvez outorgar” (MATILLA, pag. 1). É extremamente curioso o fato de que as acusações de loucura contra a herdeira da rainha Isabel, se baseia relatos de terceiros, e não da própria Juana. Em 1501, quando se tornara a sucessora de sua mãe, é quando os diagnósticos de uma possível enfermidade mental começam a aparecer. Provém do humanista Pedro Mártir a principal fonte da loucura da arquiduquesa. Por meio das cartas deste, é que tomamos conhecimento das debilidades de Juana para reinar e posteriormente de sua doença mental. Todavia, Mártir era financiado por Felipe, que, como se sabe, influenciado por seus conselheiros, queria afastar a mulher de suas funções políticas. Não obstante, as cartas do dito humanista eram repletas de comentários que exageravam na “loucura de amor” que esposa nutria pelo marido. Além disso, muitos historiadores costumam afirmar que Juana era portadora de excessivas demandas sexuais, que, por sua vez, contribuíram para declará-la insana.

A mulher do século XVI tinha na virgem Maria o principal modelo de castidade. Maria, que era mãe e virgem ao mesmo tempo, era um ideal inalcançável, porém, segundo a doutrina cristã, deveria se fazer o máximo para chegar próximo do estado de pureza da mãe de Jesus. Vivendo em uma corte mais liberal que a espanhola, e cheia de ideias humanistas, é possível dizer que Juana então se distancia aos poucos desse ideal de recato cristão, constituído assim num excelente argumento para que o esposo tomasse-lhe o poder. Homem de seu tempo, Felipe era muito desconfiado quanto ao governo feminino. Vistas como incapazes, as mulheres deveriam cuidar do lar, e deixar o resto com os maridos. Juana, entretanto, não seria esse tipo de consorte. Enquanto isso, a rainha Isabel estava muito preocupada com a situação de sua filha. De acordo com Matilla,

“É importante situar, que a maior preocupação de Isabel eram as condições de sucessão e de governabilidade dos reinos pelos quais havia lutado toda a sua vida. Juana, casada com um estrangeiro, não era uma candidata de sua confiança” (MATILLA, pag. 21).¹

Testamento da rainha Isabel I de Castela.

Testamento da rainha Isabel I de Castela.

Pelos idos do ano de 1503, a saúde da rainha de Castela começava a se deteriorar. Temendo que seu império caísse nas mãos dos Habsburgo, Isabel fez uma alteração em seu testamento, afirmando que no caso de Juana ser declarada inapta para exercer o poder, seu marido, Fernando, atuaria na qualidade de regente.

A partir de então, Felipe começa a adotar uma estratégia diferente, ao fazer parecer que sua mulher gozava de plena saúde mental, para que assim o intermédio de Fernando se tornasse desnecessário. Todavia, o rei de Aragão era um obstinado, e faria o possível manter a unidade do território espanhol sob sua lei. Em 1504, morre a rainha Isabel, primeira grande soberana do cristianismo. Com isso, um abismo profundo começou a dividir castelhanos e aragoneses: os primeiros, em suma, queriam ver a herdeira de Isabel no trono, enquanto os segundos desejavam o completo domínio de seu soberano. Ao contrário de tudo o que Felipe dissera sobre sua esposa, as pessoas começaram a acreditar na lucidez de Juana. De fato, em janeiro de 1506, quando os arquiduques de Áustria cruzavam mais uma vez o mar rumo à Espanha, fazendo uma parada na Inglaterra para estabelecer uma aliança com Henrique VII, Catarina de Aragão (que então esperava por parte de Fernando de Aragão uma resolução para sua irregular situação naquela ilha) teve a oportunidade de se entrevistar com a irmã e constatou que era uma mulher equilibrada. Não obstante, quando a embarcação passava por águas inglesas, houve uma tempestade que amedrontou todos a bordo, exceto Juana, que permaneceu calma e inspirou tranquilidade para os demais tripulantes.

Santa Maria Intervem por Juana I de Castela (por Colijn de Coter.

Santa Maria Intervem por Juana I de Castela (por Colijn de Coter.

Em 1505 houve a chamada concórdia de Salamanca, pela qual Felipe e Juana concordavam em governar juntamente com a participação de Fernando II de Aragão. Mas, uma vez que o casal aportou em território espanhol, a loucura da herdeira foi novamente exibida como motivo para afastá-la de decisões. Os dois reis, então, seguiram disputando o trono até que em 27 de Julho de 1506, quando assinaram o Tratado de Villafáfila, pelo qual Fernando renunciava à coroa de Castela, e aceitava se retirara para seus domínios. Em contrapartida, Juana seria proclamada rainha, Felipe rei consorte, e o filho destes, Carlos, herdeiro dos reinos Espanhóis. Porém, contrariando sua palavra, o arquiduque logo tratou de isolar sua esposa, e conceder privilégios e mercês a gente de sua confiança, tanto a castelhanos como flamengos. Todavia, ele não usaria a coroa de Juana por muito tempo, pois em 25 de setembro daquele ano, Felipe faleceria acometido de uma forte febre, estando sua mulher grávida pela sexta vez. Fora um golpe sem precedentes da vida de Juana. A partir de então, abandonaria todas as cores e ornamentos pelo preto da viuvez, pranteando eternamente a memória do esposo. Depois disso, tornaram-se maiores os boatos da rainha louca que marchava com uma comitiva pela noite rumo a Granada, a fim de dar descanso aos despojos do amado. Um verdadeiro vulto na escuridão. Entretanto, sua luta estava ainda longe de terminar, pois a sucessão do trono espanhol ainda lhe pesava nos ombros.

Notas:

¹Traduzido do Espanhol pelo autor

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