A “loucura” de D. Juana I de Castela – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na introdução de seu livro “História da Loucura na Idade Clássica”, Michel Foucault diz que,

“… a consciência da loucura, pelo menos na cultura européia, nunca foi um fato maciço, formando um bloco e se metamorfoseando como um conjunto homogêneo. Para a consciência ocidental, a loucura surge simultaneamente em pontos múltiplos, formando uma constelação que aos poucos se desloca e transforma seu projeto, e cuja figura esconde talvez o enigma de uma verdade. Sentido sempre despedaçado” (FOUCAULT, 1978, pag. 183).

Diante do posicionamento do autor, cabe-nos questionar o que é ser louco na Europa do século XVI? Será que havia um padrão para estabelecer os diagnósticos dessa doença mental? E quais as implicações para a sociedade de um soberano ser declarado como portador de tal distúrbio. A seguinte discussão, por sua vez, não tem por intenção investigar o que é real ou imaginário, ou quem é normal para os padrões sociais e quem não é. Todavia, a loucura dos reis, quando declarada, constituía-se num argumento bastante forte para retirá-los do poder, confiando assim o governo nas mãos de pessoas mais capacitadas. Dos interstícios de uma Espanha extremamente católica e recém-unificada, surge a figura de uma mulher histérica e ciumenta, mas completamente apaixonada, a ponto de ser declarada como insana. Refiro-me, nesse caso, a Dona Joana, Rainha de Castela, personalidade geralmente negligenciada pelos historiadores, notadamente em virtude ter sido relegada ao esquecimento de uma fortaleza isolada e imersa na loucura que seus patriotas a condenaram.

Parte I – Infância e casamento.

Rainha Isabel I de Castela, por Juan de Flandes.

Rainha Isabel I de Castela, por Juan de Flandes.

A mulher que transcenderia à História como louca, tem em sua trajetória de vida momentos muito marcantes, principalmente durante o período em que viveu como infanta do reino mais poderoso da Europa, em plena transição do feudalismo para o renascimento cultural. A Espanha que Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela construíram era um Estado extremamente pautado nas bases do catolicismo de Roma. Com efeito, os ecos do pensamento clássico se fariam tardar por aquelas terras, pois, além de tudo, durante as últimas décadas do século XV, os reis católicos haviam empreendido uma verdadeira cruzada para unificar seu território, cujo objetivo era a expulsão dos mouros do sul da península ibérica. Fora em meio de um contexto de batalhas que Isabel daria à luz cinco filhos que sobreviveram à maioridade, entre os quais quatro princesas e um infante, que, quando da morte de seus pais, uniria em sua cabeça as coroas de Castela, Leão, Granada e Aragão. Àquele garoto (nascido em 30 de junho de 1478), que representava o símbolo da unificação nacional, fora dado o nome de Juan, príncipe das Astúrias e Gerona. Alguns meses depois, durante o inverno de 1479, nasceu uma menina, que compartilhava o mesmo nome do irmão, em homenagem ao Santo padroeiro da família.

Juana, nas palavras de Paul Stevens, estaria destinada à tragédia. Muito pouco se sabe de sua infância, exceto que tivera uma educação exemplar e muito superior à que sua mãe recebera na mesma idade. A Rainha Isabel, conforme seus biógrafos nos contam, era uma mulher apaixonada pela erudição, embora não fosse uma intelectual de primeira linha. Foi uma grande estadista, de fato, mas carecia de uma saber filosófico a que não desejava que também faltasse em seus próprios filhos. Segundo Begoña Matilla,

“A Rainha Isabel de Castela criou uma corte humanista, sensível á cultura, que dispunha de uma excelente biblioteca e sua coleção de arte era uma das mais importantes de seu tempo. Sua corte estava cheia de pensadores e artistas que ela protegia e estes, por sua vez, educavam os filhos da mesma” (MATILLA, pag. 14).¹

Juana, ainda de acordo com a narrativa da autora, era muito boa dançarina e sabia tocar o clavicórdio. Tinha também acesso à biblioteca privada da mãe, que era composta por mais de 200 títulos, tratando de assuntos referentes a leis, politica, religião, entre outros. Não obstante, fora instruída a governar sua futura casa e a como reger a disciplina da corte. Desse modo, pode-se perceber que desde pequenas, as filhas dos reis católicos eram preparadas para desempenhar seus respectivos papéis no tabuleiro de alianças diplomáticas da Europa.

Fernando I de Aragão, por Master of the Legend of the Magdalen.

Fernando I de Aragão, por Master of the Legend of the Magdalen.

Todavia, a terceira filha do casal de monarcas era dotada de um comportamento forte, que contrastava com o ideal de submissão da mulher. A grande referência feminina na vida de Juana era sua mãe, personagem único na História Moderna. Isabel I de Castela fora a primeira rainha do cristianismo a ser proclamada soberana por direito próprio. Sua subida ao trono envolveu muitas lutas, das quais a mais sufocante foi dominar a elite castelhana, que por sua vez, havia se tornado muito independente da monarquia. Através do casamento com seu primo Fernando II, rei de Aragão, Isabel conseguiu driblar seus oponentes, incluindo o reino vizinho de Portugal, para então lançar-se à reconquista de Granada, última possessão moura na península. Por nove meses, os reis católicos, acompanhados de seus cinco filhos, presidiram o cerco ao palácio de Alhambra, no coração da capital moura, até que em dois de janeiro de 1492, os inimigos foram derrotados. Foi essa figura de uma Rainha Guerreira, montada em seu cavalo e portando armadura, que ficaria no imaginário de Juana. Todavia, a anexação do sul era apenas uma das muitas preocupações dos monarcas, pois tão logo os mouros foram vencidos, os franceses se mostrariam adversários tão, ou até mesmo piores, que os anteriores. Dessa forma, Fernando e Isabel resolveram adotar uma política diferente: isolar a França contraindo alianças matrimoniais com os demais Estados do continente.

Sendo assim, não era apenas pelo prazer da erudição que as filhas de Isabel receberam uma educação esmerada, mas também para representarem um papel de destaque em seus futuros casamentos. Desse modo, foram instruídas na linguagem do renascimento, a que os demais países da Europa haviam adotado. “Estudaram heráldica e genealogia e o que se passava na História (desde o momento em que uma grande dama devia saber algo das famílias cujo meio haveria de frequentar)” (MANTTINGLY, 1942, pag. 22). A primeira das alianças estabelecidas pelos reis católicos foi com Portugal, que de tempos em tempos constituía numa ameaça significativa devido à proximidade com a Espanha. Para lá, fora enviada, em 1490, Isabel (nascida em 1470). O casamento da princesa com o rei Afonso de Portugal não duraria muito tempo, já que este viria a falecer um ano depois. Porém, para segurar a aliança, a mesma princesa fora dada em casamento ao sucessor de Afonso, D Manuel I. Enquanto isso, novos acordos estavam sendo arranjados: Catalina, caçula dos soberanos, em 1501 unira-se com Arthur, príncipe de Gales, filho de Henrique VII da Inglaterra; quanto a Juan e Juana, um matrimônio mais dourado os guardava.

Ilustração do Livro de Horas de D. Juana, mostrando-a em meio a seus pais, os reis Fernando e Isabel.

Ilustração do Livro de Horas de D. Juana, mostrando-a em meio a seus pais, os reis Fernando e Isabel.

A casa dos Habsburgos austríacos sempre fora inimiga natural da França. Portanto, ao unir os reinos, Fernando e Isabel estariam isolando aquele país politicamente. Na medida em que Juana seria enviada para se casar com Felipe, filho do Imperador Maximiliano I, este enviaria sua outra filha, Margaret, para esposar Juan.³ Esse ato constituía o ápice das pretensões de Isabel no continente, já que, colocando suas filhas em diferentes tronos do continente, poder-se-ia supor que a futura geração de reis europeus seria majoritariamente composta de descendentes seus. Então, muitas expectativas se concentravam nas infantas espanholas, principalmente em Juana, já que possuía um caráter histérico e propenso a explosões de humor. Em 1496, tendo apenas 16 anos de idade, fora enviada em uma exausta viagem marítima a partir das praias de Laredo (uma jornada por terra estava fora de cogitação já que, para isso, precisariam passar por solo francês), rumo à corte borgonhesa, da qual Felipe era o suserano. Essa viagem, de acordo com Matilla, significava que Juana deveria se despedir para sempre de sua terra, de seus irmãos e de sua mãe. Um novo mundo a esperava, com novos rostos e costumes. Agora, ela não seria mais infanta de Espanha, mas uma Arquiduquesa de Áustria, e seu comportamento constantemente seria posto à prova.

Notas:

¹Traduzido do Espanhol pelo autor.

²Traduzido da edição da obra em Espanhol pelo autor.

³Em consequência desse acordo duplo, não seria concedido dote a nenhuma das filhas dos diferentes monarcas.

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2 comentários sobre “A “loucura” de D. Juana I de Castela – Parte I

    • Tu deves ter ascendência espanhola. Mas, não te apoquentes, vai-te embora do Brasil antes que seja tarde. Todos os descabeçados gostam de falar mal de suas raízes e se esquecem de que …”maiditos os que falam mal de seus pais, e os que não bendizem sua mãe….”.

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