Uma guerra de mulheres: Camilla Parker Bowles, The Crown e a misoginia nossa de cada dia!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 15 de novembro de 2020, a Netflix liberou para seus assinantes a quarta temporada da série “The Crown”. Escrito por Peter Morgan, o drama é focado no reinado da rainha Elizabeth II e já rendeu para a produtora diversos prêmios, incluindo o Globo de Ouro. Recentemente, o assunto que não sai dos tópicos mais comentados nas redes sociais é a relação entre as personagens Diana Spencer (interpretada por Emma Corrin) e Camilla Parker Bowles (vivida por Emerald Fennell). De repente, foi como se todos nós fôssemos teletransportados para o início dos anos 1990, quando os jornais sensacionalistas de Rupert Murdoch vendiam a velha narrativa da briga de mulheres, embalada como se fosse produto novo. A situação chegou ao seu ápice no final do mês, quando os perfis em redes sociais de Charles e Camilla foram invadidos com comentários grosseiros como “odeio essa mulher”, “nunca serás rainha”, ou “se o príncipe Charles tivesse casado com esta, Diana poderia estar viva hoje”. Mais do que uma séria demonstração de discurso de ódio, expressões como essa apenas denotam o quanto nossa sociedade ainda enxerga o papel da mulher sob um ponto de vista misógino e patriarcal, principalmente quando se trata de uma senhora com mais de 70 anos (alô ageistas!).

A quarta temporada de “The Crown” desencadeou uma reação bastante negativa por parte de alguns biógrafos da realeza e de membros sêniores da Casa Real. Segundo a revista Times, o príncipe William considerou o enredo da série bastante intrusivo, trazendo uma “visão perversa e nojenta dos membros mais importantes da família real britânica”. Não obstante, ele afirmou que a Netflix procurou lucrar com as vidas de seus pais, apresentando-os “de uma forma falsa e simplista”. Já o príncipe Charles, que não chegou a expressar uma opinião oficial, teria dito através de amigos que a trama “ressuscitou coisas que aconteceram durante tempos muito difíceis, 25 ou 30 anos atrás, sem pensar nos sentimentos de ninguém”. Nesta semana, a conta de Charles e Camilla no Twitter recebeu diversas mensagens ofensivas. Um usuário twittou para a duquesa da Cornualha: “O dinheiro pode comprar roupas e joias sofisticadas, mas não a classe, o charme ou a presença magnética de Diana. Você não a substituirá em um milhão de anos. Ela é nossa princesa, agora e para sempre!”. Em consequência disso, todos os comentários nas redes sociais do casal foram desativados. Agora, o Secretário de Cultura do Reino Unido pretende enviar uma advertência à Netflix, exigindo que no início de cada episódio da série seja informado ao telespectador que ela se trata de um produto de ficção.

Camilla Parker Bowles (vivida por Emerald Fennell) e Diana Spencer (interpretada por Emma Corrin), em cena da quarta temporada de “The Crown”

Conforme dito no primeiro parágrafo, o jogo de manipulação midiática para colocar uma personagem feminina contra a outra não é algo novo. Basta ligar a televisão em qualquer canal para se ter uma demonstração de como as emissoras lucram com enredos marcados pelas tensões e conflitos entre duas mulheres fortes e bem decididas. Dependendo das intenções do escritor, com a história não é tão diferente assim. Poderíamos, por exemplo, observar como a suposta rivalidade entre Catarina de Aragão e Ana Bolena (e desta com Jane Seymour) foi insuflada por facções inimigas na corte henriquina; ou o caso entre a rainha da França, Catarina de Médici e favorita de seu marido, Diana de Poitiers. Avançando pelos séculos, temos o famoso triângulo amoroso protagonizado no Brasil pela Imperatriz Dona Leopoldina, por D. Pedro I e pela marquesa de Santos. Com o tempo, a ficção se apropriou destas narrativas para criar um modelo pouco original: a história de uma esposa apaixonada e iludida, que sofre com o desprezo do amado e sua paixão por outra mulher. Em seguida, há uma reviravolta nos acontecimentos e temos um momento de glória para a amante, terminando no ocaso. Mas, o desfecho de Camilla Shand trilhou um caminho bem diferente.

Com efeito, Camilla não só conseguiu se casar com seu príncipe, como também quebrou uma série de protocolos arcaicos da monarquia inglesa, que a tornaram uma noiva inadequada para Charles no início dos anos 1970. Por volta dessa época, a pílula anticoncepcional havia revolucionado o mundo feminino. Mais seguras com seus corpos, as mulheres das classes médias passaram a ter sua iniciação sexual mais cedo do que suas avós. A entrada no mercado de trabalho, o direito ao voto e a conquista do espaço acadêmico as tornaram mais independentes da tutela masculina e donas de si mesmas. Foi com essa nova mulher, vivaz e atraente, que o príncipe Charles se envolveu em 1972. Seu relacionamento, porém, foi interrompido após o príncipe ser enviando para um treinamento na Marinha Real. No ano seguinte, Camilla se casou com Andrew Parker Bowles, com quem teve dois filhos. Por outro lado, o término do namoro não foi razão para que os dois deixassem de ser bons amigos e frequentassem a casa um do outro. Se confiarmos nas palavras de Charles para seu biógrafo, Jonathan Dimbleby, foi só em 1986 que eles reataram o antigo namoro, agora um duplo-adultério, uma vez que o herdeiro do trono havia se casado com Diana Spencer em 1981.

Fotografia do príncipe Charles e de Camilla, tirada nos anos 1970.

Quando a filha mais jovem no oitavo conde Spencer apareceu no início da década de 1980 como noiva em potencial para o príncipe de Gales, ela foi atraída como um ímã pela mídia. Com quase 1,80m de altura, loira, magra e com enormes e expressivos olhos azuis, Diana parecia a personificação da princesa de contos de fadas. Um ideal que, deve-se ressaltar, ela foi forçada a abraçar para agradar aos súditos da Coroa. Aos 19 anos, a princesa de Gales se tornou um ícone, copiado por mulheres nos quatro cantos do mundo. A maneira extrovertida com que Diana se relacionava com as pessoas e sua facilidade para se equiparar ao nível de cada uma delas, fez com que o público caísse de amores por sua persona. Logo, matérias hostilizando a futura rainha da Inglaterra com sua cunhada, a princesa Anne, ou com Sarah Ferguson, duquesa de York, preencheram páginas e mais páginas dos tabloides. Através de palavras perversas, os jornalistas conseguiam facilmente canalizar o amor dos leitores para Diana e direcionar seu desprezo para outras mulheres da família real. Nesse contexto, quem poderia imaginar que a sorridente e elegante princesa de Gales sofria com bulimia, depressão pós-parto, baixa autoestima e que havia tentado se suicidar cinco vezes?!

Depois que a princesa fez essas revelações para Andrew Morton, autor de Diana: sua verdadeira história (1992), isso caiu como uma bomba no colo da família real. O livro fazia sérias acusações contra Camilla Parker e a responsabilizava pelo fracasso daquele que foi chamado de “o casamento do século”. Por sua vez, Camilla jamais expressou em público qualquer opinião negativa contra Diana. Em outros termos, ela foi vítima do mesmo sistema arcaico que a desclassificou como princesa consorte em 1972 e que colocou a virginal Diana Spencer nos braços da Coroa. A partir de então, a mídia tinha mais uma vez o enredo que sempre desejou explorar: um príncipe adúltero, uma princesa infeliz e uma amante ambiciosa. Uma narrativa tão clichê quanto as histórias que a maioria das mães leem em voz alta todas as noites para embalar o sono de seus filhos. Na vida real, Diana e Charles viviam uma união que os adoecia cada dia mais. Ela, por amar e não ser correspondida; ele, por viver preso a um casamento arranjado. Quando a situação se tornou irremediável, ambos procuraram conforto em outros braços, até que a publicação de Diana: sua verdadeira história tornou a manutenção desse matrimônio de fachada algo insustentável.

Diana ao lado de Camilla, no início dos anos 1980.

De 1980 a 1997, a princesa de Gales evoluiu do arquétipo de Cinderela para o de uma mulher moderna, mais madura e confiante o suficiente confrontar Camilla, durante a festa de aniversário de 40 anos da irmã desta. Os detalhes dessa história infeliz, creio, já foram mais do que explorando pelas manchetes de jornal; já estamparam capas de revista e foram objeto de estudos biográficos e televisivos. Como produto de entretenimento, “The Crown” não foge à regra. Os fatos são combinados com situações imaginadas para criar uma narrativa verossímil aos olhos do telespectador. Mas, assim como fizeram os tabloides britânicos nos anos 1990, a série colocou Camilla como a vilã da história de Diana, hostilizando as duas personagens em cenas marcadas por tensões e conflitos femininos. O mesmo foi feito com a personagem da rainha Elizabeth II (Olivia Colman) e a Primeira-Ministra, Margaret Thatcher (Gillian Anderson). Diana aparece também como alvo de ressentimento para a princesa Anne (Erin Doherty) e para a princesa Margaret (Helena Bonham Carter). Dessa forma, Peter Morgan colocou a personagem apenas como vítima de todo protocolo real e das outras mulheres na série, forçando assim muitos telespectadores a tomarem o partido da princesa de Gales.

Diante das cenas dramatizadas, é claro que poderíamos chamar Diana de vítima, acuada por um sistema que exigia dela obediência e gentileza. Mas, quando confrontada com a indiferença do marido, a personagem mudou o curso dos acontecimentos e deixou de ser o elemento passivo dentro do matrimônio. Por mais que seja irresistível vitimizar Diana, sua trajetória não se trata apenas disso. É a vida de alguém que começou seguindo as regras do jogo, tornando-se depois senhora e autora de sua própria história. A paixão não encontrada no casamento, ela recebeu do público e principalmente de seus filhos. Infelizmente, ao tentar controlar o monstro da mídia, ela foi envolvida por suas garras e teias, das quais não conseguiu mais se libertar. Nesta seara, vestir Camilla com a roupa de vilã (como fez a própria Diana, quando colaborou com o livro de Andrew Morton), é não só algo pejorativo, como também denota uma postura misógina. “Camilla é a amante eterna. A grandeza de Diana será eterna, ninguém poderá tomar seu lugar. Charles nunca será rei e nem merece… Diana, princesa de Gales, viverá para sempre”, escreveu um internauta no perfil da duquesa da Cornualha, claramente motivado pelas cenas que assistiu em “The Crown”.

Assim como fizeram os tabloides britânicos nos anos 1990, “The Crown” colocou Camilla como a vilã da história de Diana, hostilizando as duas personagens em cenas marcadas por tensões e conflitos femininos.

Para quem não se lembra, os anos 1990 foram marcados por uma série de escândalos envolvendo o casal de Gales. Quando Charles revelou publicamente em 1994 que foi infiel, de forma inconsequente ele não avaliou como a reputação de Camilla e a de seus filhos ficaria altamente prejudicada. Tampouco Diana pensou nos danos que essa exposição causaria a William e Harry, quando ela fez sua polêmica entrevista para Martin Bashir. Em 1997, quando a morte da princesa naquele trágico acidente de carro chocou todo o mundo,.tivemos um bom exemplo de como os meios de comunicação são capazes de induzir nossas opiniões na direção que seus editores querem. Transformar Camilla na madrasta má da história de Diana foi algo construído por aquela que sempre foi a verdadeira responsável pelo triste desfecho da princesa de Gales: a imprensa! Desde então, fazem mais de 20 anos que o herdeiro do trono vive ao lado da mulher que ele não pôde escolher como esposa no início dos anos 1970. Quando os dois se casaram em uma cerimônia civil, no final de 2005, o próprio Andrew Parker Bowles estava presente entre os convidados, para desejar boa sorte à sua ex-esposa. William e Harry, filhos do primeiro casamento príncipe, também estavam ali, torcendo pela felicidade do pai.

Na história da monarquia britânica, poucas favoritas reais conseguiram se casar com seus príncipes. Duas delas, Ana Bolena e Catarina Howard, foram decapitadas por ordens do próprio rei em meados do século XVI, por desviarem da conduta que se esperava de uma rainha consorte. Em 1796, George IV foi menos radical e se conformou com uma separação formal de corpos de sua esposa, Carolina de Brunsvique. Com efeito, o mesmo foi feito por Diana e Charles em 1992. Dentro dessa contenda de casais, o mais destemido talvez tenha sido Eduardo VIII, que desistiu da Coroa para se casar com a socialite americana (duas vezes divorciada), Wallis Simpson. Ao tomar Camilla como segunda esposa em 2005, o príncipe de Gales triunfou onde ele e seus predecessores haviam anteriormente falhado. Juntos, ele e a duquesa da Cornualha formam uma equipe muito dinâmica, patrocinando causas sociais importantes como o intercâmbio cultural entre a Europa e o Oriente Médio, a defesa do meio-ambiente, o tratamento com crianças portadoras de necessidades especiais e a atenção aos moradores de rua. Através desse trabalho, eles prestam uma homenagem louvável à memória de Diana, que em vida se dedicou de corpo e alma aos menos favorecidos, servindo de porta-voz para seus sofrimentos.

Fotografia oficial do casamento de Charles e Camilla, em 2005.

Fazendo um retrospecto do século XVI ao XXI, percebe-se como nossa mentalidade ainda é moldada pelo duplo-padrão, que divide as mulheres em puras e impuras, casáveis e não casáveis. O mesmo duplo-padrão que permite ao homem ter uma relação extraconjugal, mas que é terrivelmente condenatório quando uma mulher adota o mesmo comportamento. Pensamentos como esse logo se transformam em discurso de ódio e tais palavras em ações violentas. É nesse ponto que o perigo atinge o seu nível mais grave. De minha parte, acredito que “The Crown”, assim como outros dramas baseados na história, seja uma excelente porta de entrada para se conhecer um pouco mais sobre as vidas e os trabalhos incríveis desenvolvidos por essas pessoas. Elas são muito mais do que os rótulos simplórios que a imprensa misógina gosta de aplicar, seja o título pejorativo de amante, o de princesa traída ou a famosa rainha má. Como produto de ficção, a série da Netflix apresenta ao público personagens verossímeis, lidando com problemas e sentimentos da vida real. Mas, ainda assim, ela se trata de uma trama inventada, que exagera na dramatização com o único objetivo de fisgar o telespectador naquilo que ele é mais vulnerável: a vontade de amar e de em troca ser amado.

Fontes:

Correio Braziliense – Acesso em 30 de novembro de 2020.

GZHTV – Acesso em 30 de novembro de 2020.

Observatório do Cinema – Acesso em 30 de novembro de 2020.

OFuxico – Acesso em 30 de novembro de 2020.

Selfie – Acesso em 30 de novembro de 2020.

Bibliografia Consultada:

DIMBLEBY, Jonathan. O príncipe de Gales. Tradução de Vera Dias de Andrade Renoldi. São Paulo: Editora Best Seller, 1994.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

MORTON, Andrew: Diana – sua verdadeira história em suas próprias palavras. Tradução de A. B. Pinheiros de Lemos e Lourdes Sette. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

5 comentários sobre “Uma guerra de mulheres: Camilla Parker Bowles, The Crown e a misoginia nossa de cada dia!

  1. Nunca simpatizei muito com Diana, ao mesmo tempo que queria “privacidade” e não expor os filhos a mídia, volta e meia descumpria as regras da coroa, a qual ela escolheu participar (muito embora tenha sido empurrada para isso). Quando você ama alguém de verdade, não se importa em cumprir algumas regras e deixar de fazer outras.

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