A esposa relegada: Maria Leszczyńska, a rainha polonesa da França – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Esse casamento surpreendeu a todos, porque na realidade não convém de modo algum ao rei da França”, assim escreveu Edmond-Jean-François Babier sobre a união entre Luís XV e a polonesa Maria Leszczyńska, expressando assim a opinião de quase toda a nobreza em Versalhes sobre aquela união. É possível que até mesmo o monarca compartilhasse de tal pensamento, embora tivesse a cautela de não demonstra-lo, uma vez que, naquele período, a segurança da linhagem real era uma questão mais importante do que a beleza ou sua ascendência de sua esposa. O país tinha novamente uma rainha, mas não nascida em berço esplêndido, como o foram suas antecessoras. Maria, que havia crescido no exílio, residindo junto com sua família em pequenas acomodações e com o orçamento bastante enxuto, agora se via exposta diante de tudo e de todo mundo. Seu padrão de vida, antes tímido e reservado, precisou se adequar bruscamente ao cerimonial da corte. A partir de então, acordar, trocar de roupas, fazer suas refeições, orações e até o momento de dormir seriam objeto de contemplação, para o escrutínio das esposas de duques e condes, que assistiam com deleite a esse teatro no qual se transformara a existência da soberana. Afinal, ser rainha da França era como estar no centro de todas as atenções.

Maria Leszczyńska, por Jean-Marc Nattier (1748).

Entretanto, apesar de ter sido alçada ao trono mais desejado do continente europeu, Maria Leszczyńska possuía uma margem de ação política bastante limitada, uma vez que suas obrigações não compreendiam assuntos de Estado. Estes ficavam ao encargo do rei e do autoritário cardeal Fleury, o ex-preceptor de Luís XV. Homem ambicioso e inflexível em assuntos de moral e religião, Fleury era dotado de notável pragmatismo político e era muito intransigente com relação a sua influência sob o monarca, algo que não estava disposto a compartilhar com ninguém. Nesse caso, a única possibilidade que Maria tinha de cair nas boas graças do soberano era obedecer cegamente às instruções do cardeal. A rainha, porém, não gostava das intromissões de Fleury na sua vida conjugal e não fazia questão de esconder sua preferência por um dos maiores inimigos dele, o duque de Bourbon, arquiteto do casamento real, bem como à amante do nobre, Madame de Prie. Foi movida pelo desejo de agradar ao duque que Maria aceitou tomar parte em um plano para afastar o cardeal Fleury da companhia de Luís XV, ignorando assim as recomendações de seu pai, Estanislau I, para que não se envolvesse na política. Por se considerar em dívida com o duque, a rainha então concordou em promover um encontro secreto entre ele e o rei.

Convidado aos aposentos da soberana sem saber quem o aguardava ali, Luís XV recebeu com expressão de desagrado as queixas que seu primo, o duque de Bourbon, fez sobre o cardeal de Freury, recusando-se a responder a qualquer uma das perguntas dele. Diante do silêncio do soberano, Bourbon perguntou se tivera o infortúnio de desagrada-lo, ao que Luís respondeu com um ríspido “sim”. Em seguida, ele deus as costas e se retirou do quarto da esposa, sem sequer lançar um único olhar a ela. Esse desastre foi fatal não apenas para a carreira do duque, que foi exilado do país, como também para o relacionamento do rei e da rainha. Segundo Benedetta Craveri:

Tímido e inseguro, o jovem rei detestava os conflitos e as discussões que exigissem uma tomada imediata de posição e constatava que justo a sua esposa havia abusado de sua boa-fé atraindo-o para uma armadilha. Guardou-lhe rancor por muito tempo e nunca cultivou uma relação de confiança para com ela (2007, p. 266).

Esse mau começo ressaltou a falta de pragmatismo de Maria Leszczyńska, que se envolveu em assuntos que não lhe diziam respeito e foi responsável pelo desprezo que Luís XV lhe devotou durante muitos anos. Indignado com a atitude da esposa, após deixar os aposentos dela o rei lhe enviou um bilhete no qual intimava-a a seguir rigorosamente as ordens de Fleury: “rogo-vos, senhora, e se necessário vos ordeno, que faça tudo aquilo que o cardeal vos disser por mim, como se eu próprio houvesse ordenado. Luís”.

Luís XV, por Maurice Quentin de La Tour (1748).

Com efeito, o cardeal Freury não perdoou a rainha pela sua conduta e passou a se interpor sistematicamente entre ela e o rei. Aos poucos, o príncipe de contos de fadas, por quem Maria havia se apaixonado, se mostrou um homem distante e, às vezes, impiedoso. Sua solicitude dera lugar a um profundo despeito e sua presença passara a provocar-lhe verdadeiro temor. Com poucos meses de casada, Maria Leszczyńska falhara terrivelmente em conquistar a confiança do seu marido. Por outro lado, o mesmo não poderia ser dito quanto às obrigações conjugais do rei, que frequentava o leito da rainha com frequência. Entre agosto de 1727 e julho de 1737, Maria deu à luz oito meninas e dois meninos, um número muito expressivo, embora nem todos tenham sobrevivido à primeira infância. No ano em que completou 20 anos, Luís XV já era pai de cinco filhos e aos 31, já era avô. A sucessão real, em risco desde a morte do Rei Sol, agora estava assegurada. Porém, a excelente fertilidade da rainha não bastou para sossegar o jovem rei. “Religiosa e pudica, Maria se prestava aos seus deveres de esposa, mas preferia seguir as instruções dos seus confessores a satisfazer os desejos do jovem marido” (CRAVERI, 2007, p. 271). Luís passou a devotar à Maria um profundo desinteresse. Não demoraria muito para o monarca buscar conforto nos braços de uma amante.

Com efeito, o rei não poderia esquecer a terrível mésalliance que o seu casamento com Maria Leszczyńska representava aos olhos de todos. Embora fosse uma mulher de elevadas virtudes, tais qualidades não atraíam a atenção do seu marido. “Boa demais, tímida demais, influenciável demais, devota demais, carecia de uma personalidade suficientemente forte para se impor a uma corte sofisticada e difícil como a de Versalhes” (CRAVERI, 2007, p. 271). Nas Palavras do marquês de Argenson, a rainha “não conhece a arte de ligar a si as pessoas da corte; ela não é nem odiada nem amada; atrai com certa precipitação, repele tornando sua amizade demasiado banal. Falta-lhe acuidade ao coração”. Foram essas as razões que deixaram o rei tão aborrecido para com sua esposa. Até mesmo a alta fecundidade dela o inquietava. Durante os dez anos em que ela gerava um filho atrás do outro (Toujours coucher, toujours grosse, toujours accoucher – “Sempre na cama, sempre grávida, sempre parindo”, assim se referiu a rainha sobre esse período), Luís XV lhe fora fiel, jamais tendo se envolvido com outra mulher. Mas, um pouco antes do nascimento da sua sétima filha, a quem o rei chamou pejorativamente de “Madame Última”[1], em 1737, ele iniciou um relacionamento com uma dama da corte, chamada Louise-Julie de Mailly-Nesle, condessa de Maily.

“Bem feita de corpo e jovem, mas feia, de boca e dentes grandes”, Madame Mailly entretinha o rei com seu bom humor e frescor juvenil. Em seguida, ele se envolveu com a irmã de Louise, Pauline, marquesa de Vintimille. Mais inteligente e perspicaz que Louise, Pauline também demonstrava interesse pelos assuntos de estado e exerceu grande influência sobre o rei até sua morte, em setembro de 1741, ao dar à luz um filho dele. Após a perda de Pauline, Luís XV se relacionou com a caçula das irmãs Mailly-Nesle, Marie-Anne, marquesa de La Tournelle. Conforme ressalta Christine Pevitt Algrant, “as pessoas achavam muito inquietante que as atenções do rei se voltassem unicamente para membros de uma mesma família. Isso parecia meio incestuoso” (2005, p. 41). Nessa situação, cabe-nos perguntar: como a rainha reagiu aos casos extraconjugais do marido? Dizem que ela se desesperou, chorou, rogou, mas, no final, teve que se resignar. Para Algrant:

A rainha, Maria Leszczyńska, era uma esposa sofredora desde longa data. Estava acostumada com as infidelidades do marido, refugiando-se em sua religião e na companhia de alguns amigos de confiança. Luís raramente reconhecia sua existência. Ela nunca se queixava. Entregava-se a intermináveis jogos de carta, pintava um pouco, comia muito e, em momentos muito ocasionais, permitia-se exibir um lampejo de aguda sagacidade. Desempenhava seu papel na corte com dignidade e se fazia respeitar, mas era completamente desprovida de influência e, consequentemente, isolada. Até suas próprias damas de companhia, em muitas ocasiões, não conseguiam esconder a ânsia de se furtar a seus deveres para com ela e fugir para outro lugar (ALGRANT, 2005, p. 65).

Madame de Pompadour, por François Boucher (1756).

Enquanto a rainha tentava suportar a traição do marido, Luís XV se entregava aos braços de alguma das irmãs Mailly-Nesle. Quase todos os reis que o haviam precedido no trono da França tiveram amantes. Inclusive, era de se esperar que Luís, mais cedo ou mais tarde, escolhesse uma favorita. Era fundamental para a construção da imagem viril do monarca possuir uma maîtresseem-titre­, posição essa que no reinado anterior fora ocupada por mulheres ilustres, tais como Madame de Montespan e Madame de Maintenon.

No reinado de Luís XV, porém, essa posição seria melhor ocupada por Jeanne-Antoinette Poisson. Até a sua morte, em 15 de abril de 1764, Jeanne foi a figura de maior influência na corte, tanto na política, quanto no vestuário e nas artes. Tudo o que ela usava, lia ou vestia era rapidamente consumido pelo restante da Europa. A princípio, o relacionamento dela com Maria Leszczyńska fora bastante cordial. Quando Jeanne foi condecorada pelo amante com o título de Marquesa de Pompadour, se dirigiu aos aposentos da rainha para prestar reverência. Nas palavras do duque de Luynes, testemunha ocular da cena:

Paris inteira estava muito curiosa para saber o que a rainha diria a Madame de Pompadour. Concluiu-se que ela falaria de seu vestido, o que é um tema muito comum entre as mulheres quando não há nada a dizer. A rainha, ciente de que Paris já havia providenciado a conversa entre as duas, resolveu falar de outras coisas. Sabia que Madame de Pompadour conhecia Madame de Saissac. Disse-lhe haver encontrado Madame de Saissac em Paris e ter tido muito prazer em conhecê-la. Não sei se Madame de Pompadour ouviu o que ela disse, pois a rainha fala muito baixo, mas serviu-se desse momento para assegurar à soberana seu respeito e seu desejo de agrada-la. A rainha pareceu satisfeita com esse discurso, e a plateia, atenta aos mínimos detalhes do encontro, afirmou que ele fora muito longo e que abarcara 12 frases” (apud ALGRAT, 2005, p. 62).

Todavia, a cordialidade com que Maria Leszczyńska tratou a nova favorita do rei deve ser vista, em última análise, como uma forma de agradar a Luís. Tratar as irmãs Mailly-Nesle com indiferença só havia lhe causado mais aborrecimento junto ao marido. Dessa vez, a rainha estava disposta a reparar as coisas.

No entanto, à medida que o rei cumulava a amante de novos cargos e outros benefícios, o despeito de Maria foi aumentando, apesar de todas as tentativas da Pompadour em agradar à soberana. Sem dominar completamente a etiqueta da corte, Jeanne se dava a excessos totalmente descabidos. Uma cena transcorrida entre ela e a rainha ilustra perfeitamente isso. Sabendo que Maria Leszczyńska adorava flores, Madame de Pompadour, por desconhecer que o protocolo proibia completamente a entrega de presentes aos soberanos, levou para ela um enorme cesto de rosas, o que deixou a ranha bastante irritada. Antes que a Marquesa pousasse o cesto, Maria, indignada com aquele gesto de ultrajante intimidade, pediu-lhe para que cantasse diante de todos que estavam assistindo àquela cena. Após um momento de embaraço, Jeanne entoou uma estrofe de Armida, de Lully: “Enfim, esse fatal inimigo,/ esse soberbo vencedor está em meu poder”. Ao terminar, deixou as rosas no chão, fez uma profunda reverência e se retirou, deixando a todos, incluindo a rainha, extremamente vexados. O recado estava dado: o “soberbo vencedor”, nesse caso, o rei, estava sob o seu poder. Não restava mais dúvidas de que Jeanne havia se tornado rainha em tudo, menos no nome. Era ela quem estava ao lado de Luís XV em eventos e conferências com embaixadores estrangeiros, quem detinha o poder de derrubar ministros e nomear outros, ou de elevar uma família da miséria e de reduzir seus inimigos a nada.

Maria Leszczyńska e o Delfim, por Alexis Simon Belle (c. 1730).

Em poucos anos, Madame de Pompadour estava “em condição de erigir-se em árbitro de favores”, o que certamente exacerbou o ressentimento de muitos, entre os quais o delfim, Luís, que nutria pela amante de seu pai um grande ódio, alimentado pela sua religiosidade. Quanto à rainha, esta teve que aceitar viver à sombra da maîtresse, o que, de certa forma, lhe garantiu maior liberdade do que qualquer outra rainha da França já experimentou. Isenta de todas aquelas funções públicas, Maria Leszczyńska se dedicou ao seus projetos de caridade, fundando instituições beneficentes e contribuindo para a solidificação da imagem de Luís XV como o “bem-amado”. Cercada de um círculo de amigos fieis, ela podia ser quem era de verdade, a despeito de toda aquela vida de representações da corte de Versalhes. Conforme nos conta o duque de Luynes, “de manhã, [a rainha] passa nos seus aposentos pelo menos duas horas, e três ou quatro depois de comer, nos dias em que não vai à igreja após o almoço; e nessas horas tem à disposição quem bem entender”. Além disso, Maria cuidou pessoalmente da educação do seu filho, o que era raro para uma mulher na sua posição. Não manteve, contudo, um relacionamento estreito com suas filhas, que preferiam a companhia do pai, enquanto a mãe permanecei a segura no seu pequeno mundinho de poucos amigos. Faleceu aos 65 anos, em 24 de junho de 1768, da mesma forma como havia vivido: digna, reservada e piedosa.

Leia a primeira parte, clicando aqui!

Referências Bibliográficas:

ALGRANT, Christine Pevitt. Madame de Pompadour: senhora da França. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

CRAVERI, Benedetta. Maria Leszczyńska: a rainha polonesa. In: Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 262-274.

FRASER, Antonia. O amor e Luís XIV: as mulheres na vida do Rei Sol. Tradução de Heloísa Mourão. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Nota:

[1] O termo pode ser também o indicativo de que o rei não mais pretendia manter relações sexuais com sua esposa.

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