100 anos da Primeira Guerra Mundial: uma visão panorâmica da Europa antes do conflito

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Muitas coisas vêm à cabeça do pesquisador quando o nome Primeira Guerra Mundial é mencionado: as potências europeias divididas em dois blocos; o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em 28 de junho de 1914; a guerra de trincheiras; o uso do avião, do tanque e do submarino; a ascensão dos Estados Unidos como primeira potência mundial após o término do conflito. Na esfera demográfica, a guerra deixou aproximadamente 8 milhões de mortos e mais de 20 milhões de pessoas mutiladas, o que representou para a Europa a perda de cerca de um décimo de sua mão-de-obra. Mas o que gerou esse poderoso conflito? Quais fatores ocasionaram a sua eclosão em 1914, terminando 4 anos depois? A resposta mais óbvia seria o denominado choque de imperialismos, motivado por razões econômicas que se manifestaram tanto no campo político quanto no militar. Como já dizia o filósofo Thomas Hobbes, “a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas num lapso de tempo durante o qual o desejo de rivalizar através de batalhas e suficientemente conhecido”. Aquela que ficou conhecida como Primeira Guerra Mundial não foge a essa recíproca.

Num depoimento concedido ao jornal Le Figaro em 1912, um jovem francês se referia à guerra como uma palavra que então ganhava prestígio entre os círculos de debates: “É uma palavra jovem, toda nova, embonecada dessa sedução que faz reviver o coração dos homens. Os jovens dão-lhe toda beleza de que estão plenos e de que a vida cotidiana os priva”. Entre os jovens europeus, a perspectiva de ir à guerra defender a pátria adorada parecia irresistível, mesmo acompanhada de suas consequências. Nesse mesmo depoimento ao Le Figaro, adicionado a uma pesquisa intitulada “Os jovens de hoje”, o depoente completava seu texto afirmando que “a existência que aqui temos não nos satisfaz completamente, porque embora possuamos todos os elementos de uma bela vida, não podemos organizá-los numa ação prática, imediata, que nos dominaria o corpo e a alma e nos lançaria fora de nós mesmos”. Nesse caso, a única coisa que tiraria esses jovens de suas existências passivas seria a guerra. “É por isso que a desejamos”, completava o francês na reportagem do Le Figaro.

Ilustração do mapa político da Europa em 1914.

Ilustração do mapa político da Europa em 1914.

Aos olhos de hoje, o desejo de ir à guerra exposto pelos olhos deste jovem poderá parecer insano, mas no contexto da época representava o estado de tensão no qual as potências europeias viviam desde pelo menos a década de 1870, quando a Alemanha concluiu sua unificação política e deu início a um processo acelerado de industrialização, equiparando-se à Grã-Bretanha no início do século XX. Conforme fora publicada numa edição do final do século XIX no jornal londrino Saturday Review:

Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de sucessão; e não se deve lutar por um comércio de 250 milhões de esterlinos?… A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais grata esperança de prosperidade. Germanian esse delendam.

O medo dos britânicos de serem ultrapassado pelos alemães na corrida econômica ficou bem explícito por esse trecho extraído do Saturday Review, e com motivo, pois em 1914 a produção de ferro e aço da Alemanha ultrapassava a inglesa e a francesa juntas, sem contar com a manufatura de instrumentos científicos, que lideravam a produção mundial. Mesmo a marinha inglesa, tão poderosa desde a derrota da armada espanhola em 1588, havia sido ultrapassada pela alemã. Sobre isso, o então almirante Winston Churchill disse em 1912 que “a marinha inglesa é para nós uma necessidade, enquanto de certos pontos de vista a marinha alemã é para a Alemanha, sobretudo um produto de luxo”. O sentimento de indignação do futuro primeiro-ministro era notório: “para nós [a marinha] trata-se de uma coisa vital. Para a Alemanha trata-se de expansão…”. Para acentuar ainda mais a rivalidade anglo-germânica, a construção da estrada de ferro Berlim-Bagdá pelos alemães acabou ameaçando as rotas de comunicação entre a Grã-Bretanha e seu o império.

Ilustração representando os reis da Espanha e da Grã-Bretanha, Marianne (símbolo da República Francesa) e o imperador da Alemanha correndo atrás do sultão marroquino.

Ilustração representando os reis da Espanha e da Grã-Bretanha, Marianne (símbolo da República Francesa) e o imperador da Alemanha correndo atrás do sultão marroquino.

Quanto à França, os conflitos entre ela e a Alemanha vinham desde a guerra Franco-Prussiana ocorrida em 1870, que provocou a queda do Segundo Império Francês e a unificação política alemã. Essa situação, por sua vez, se intensificou após da França ter que ceder à sua rival as regiões da Alsácia e da Lorena, muito ricas em minérios. Com o passar dos anos, essas duas potências estenderiam sua rivalidade pela dominação do Marrocos, que contribuiu para agravar o estado de tensão nacional. Esse período ficou conhecido como “paz armada”. Outra potência, cuja política expansionista acabou chocando com a da Alemanha foi a Rússia, que na transição do século XIX para o XX cobiçava a região dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, então dominada pelo Império Otomano. A manutenção desses territórios pela Turquia era de grande interesse para a Alemanha, uma vez que por ali percorria a estrada de ferro Berlim-Bagdá. Não obstante, a Sérvia também pretendia unificar os povos eslavos do sudeste da Europa sob sua administração. Essa formação de um Estado nacional eslavo, contudo, só se tornaria possível com o desmembramento do Império Austro-húngaro e do Império Otomano.

O que o leitor acabou de ver acima foi apenas uma breve contextualização política da Europa no início do século XX: potências rivalizando por territórios e apenas esperando um passo em falso para desencadear o que parecia inevitável, ou seja, a guerra. Para Eric Hobsbawm:

A discussão sobre a gênese da Primeira Guerra Mundial tem sido ininterrupta desde agosto de 1914. Provavelmente correu mais tinta, mais árvores foram sacrificadas para fazer papel, mais máquinas de escrever trabalharam para responder a essa pergunta do que a qualquer outra na História – inclusive talvez o debate em torno da Revolução Francesa. (HOBSBAWM, 2014, p. 470).

Capa do jornal francês "Le Petit" trazendo como tema a crise da Bósnia.

Capa do jornal francês “Le Petit” trazendo como tema a crise da Bósnia.

Na opinião deste historiador, as origens do conflito eram uma questão de importância cadente e imediata. Naquele período, o relacionamento entre as potências europeias estava longe de ser pacífico, muito menos tinham elas intenções pacifistas. Segundo Hobsbawm, a partir de certo ponto “a guerra pareceu tão inevitável que alguns governos decidiram que a melhor coisa a se fazer seria esperar o momento mais propício, ou menos desfavorável, para iniciar as hostilidades” (HOBSBAWM, 2014, p. 473). A própria divisão das potências europeias em dois grandes blocos, a partir da década de 1870, é um bom exemplo do estado de tensão em que elas viviam: de um lado a Alemanha, Império Austro-húngaro e a Itália formavam a Tríplice Aliança, enquanto do outro lado temos a França, a Grã-Bretanha e a Rússia, que compunham a Tríplice Entente. Vale ressaltar, contudo, que a formação desses dois blocos não se deu sem contradições internas, uma vez que o elemento que o unia esses aliados não era a afinidade, mas sim a existência de um inimigo em comum.

Entretanto, diz-nos Hobsbawm (2014, p. 474), “descobrir as origens da Primeira Guerra Mundial não equivale a descobrir ‘o agressor’. Ele repousa na natureza de uma situação internacional em um processo de deterioração progressiva”. Processo este que escapava cada vez mais das mãos dos governos. Esse quadro ficou latente entre os anos 1900-1914, quando em diversas ocasiões os dois grandes blocos de alianças estiveram perto do conflito, a exemplo da crise no Marrocos, região disputada pela Alemanha, Grã-Bretanha e França, e, talvez mais importante, o conflito na península Balcânica, onde o expansionismo sérvio agiu, primeiramente, contra o Império Otomano, que foi derrotado em duas guerras sucessivas, uma em 1912 e outra no ano seguinte. Porém, o expansionismo sérvio encontrou um forte obstáculo na presença do Império Austro-húngaro, que impediu com que seu rival conquistasse uma saída para o mar Adriático. Essa atitude, por sua vez, só vez ampliar os sentimentos já disseminados entre os sérvios contra os austríacos. O estopim da guerra se aproximava.

O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Saravejo, no dia 28 de junho de 1914.

O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Saravejo, no dia 28 de junho de 1914.

Saravejo, 28 de junho de 1914: o futuro imperador austríaco Francisco Ferdinando e sua esposa foram assassinados a tiros enquanto eles passeavam pela capital da Bósnia, por um estudante chamado Gabriel Princip, membro de uma organização secreta conhecida como Mão Negra. Tal atitude foi incentivada pelo fato do príncipe tencionar transformar o Império Austro-húngaro em um império tríplice: Austro-húngaro-eslavo, equiparando assim os três grupos étnicos, o que consequentemente diminuiria a autonomia dos povos eslavos, que, incentivados pelos sérvios, buscavam sua independência. Malgrado as tentativas de um acordo, imediatamente a o Império Austro-húngaro, apoiado pela Alemanha, atacou a Sérvia. A Rússia também entrou no conflito ao lado dos sérvios contra a Tríplice Aliança, trazendo como reforço a França e depois a Grã-Bretanha. Iniciava-se, então, um dos maiores conflitos do qual a história tinha registro, superado apenas duas décadas depois pela Segunda Guerra Mundial. Sobre tais acontecimentos, notou Louis Pommery: “Com efeito, os primeiros tiros de canhão trocados na fronteira sérvia marcaram o fim de uma época: findava o século XIX e começava o século XX”.

 Texto escrito para o Causas Perdidas

Referências Bibliográficas:

JUARÉS, Jean. As causas da Primeira Guerra Mundial. – Lisboa: Estampa, 1974.

HOBSBAWN, Eric J. A era dos impérios, 1875-1914. Tradução de Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. 17ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

_. Era dos extremos: o breve século XX: 1941-1991. Tradução de Marcos Santarrita. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MELLO, Leonel Itaussu Almeida; COSTA, Luís César Amad. História moderna e contemporânea. 5ª edição. São Paulo, 2001.

 

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5 comentários sobre “100 anos da Primeira Guerra Mundial: uma visão panorâmica da Europa antes do conflito

  1. Oi Renato, gostei muito do seu texto sobre a primeira guerra.
    Moro na França onde faço doutorado em antropologia, sobre as relaçoes culturais Africa- Brasil; meu laboratorio, Instituto dos mundos africanos é metade de historiadores e mas sempre me interessei muito pela primeira guerra; aqui se fala muito disso, sao 100 anos. Sempre li muito e converso com pessoas e familias marcadas pelas grandes guerras ; aliàs, na Africa tb; e tenho algumas visões particulares sobre aspectos do conflito. Vou sempre à Bahia, passei dois meses este ano por là; bom um dia podemos fazer rodas de discussoes publicas sobre o assunto, quem sabe? abraço e parabéns pelo site!

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    • Muito obrigado pelo seu interesse em meu trabalho, João.
      Que experiência incrível essa sua!!! Também sou muito fascinado por histórias da Primeira Grande Guerra.
      Da próxima vez que vier à Bahia, me avise.
      Abraços!

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  2. Adorei o texto. Eu sou muito fascinada por tudo que envolve a Primeira Guerra Mundial e o começo do século XX. E sempre que eu vejo um texto falando, eu tenho que ler e eu adorei o seu.

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  3. Relacionando com as rainhas e as Casas Reais a 1ª GM foi o fim e a grande derrota de uma política de amizade «familiar», passando por cima dos governos «burgueses». Foi um esforço iniciado pelo Príncipe Alberto 80 anos antes, ou ainda primeiro por Leopoldo Saxe-Coburgo, primeiro rei dos belgas. O fulcro dessa política paralela, ao longo de muitas décadas foi a Rainha Vitória, que se tornou a «Avó da Europa». Falhou. Acreditando nos historiadores economicistas tinha de falhar.

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