Na cama com Ana Bolena: por dentro do castelo onde viveu a mais controversa rainha da Inglaterra!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Um quarto pode contar muitas histórias, ainda mais quando estamos falando de uma das mais controversas rainhas da história inglesa: Ana Bolena, segunda esposa do rei Henrique VIII e mãe da rainha Elizabeth I. Nascida provavelmente no ano de 1501, Ana era a segunda filha de Sir Thomas Bolena com Elizabeth Howard (filha do segundo duque de Norlfok). Apesar de conhecermos muito pouco acerca de sua vida antes de se tornar alvo das atenções do monarca, existem alguns locais que nos ajudam a narrar um pouco de sua trajetória. Um deles é o fabuloso castelo de Hever, em Kent, onde ela provavelmente passou boa parte de sua infância e juventude, até se tornar soberana consorte. A residência costumava ser o lar da família Bolena desde o século XV. Com seu declínio após a execução da rainha, a propriedade passou para a Caroa, até ser dada para ninguém menos que Ana de Cleves, quarta das seis esposas do rei, de quem ele se divorciou em 1540. Como prova de sua boa vontade, a princesa de Cleves recebeu do monarca o castelo. Ao longo dos séculos, o castelo de Hever passou por alterações significativas, mas sua fachada medieval ainda se encontra bem preservada, assim como alguns de seus cômodos, oferecendo assim um vislumbre de como ele seria durante a dinastia Tudor.

Em 1505, com a morte do pai de Sir Thomas, William, a família se mudou para o castelo, onde viveu até o ano de 1539, quando a propriedade passou para a Coroa após a morte do pai de Ana Bolena. Durante esse período, Ana permaneceu boa parte de sua infância em Hever, até ser enviada para o continente, onde recebeu uma educação primorosa na corte da arquiduquesa Margarida da Áustria, em Bruxelas, e depois na corte da rainha Claude de Valois, na França. De volta à Inglaterra em 1522, ela se envolveu amorosamente com Henry Percy, filho do conde de Northumberland. Como aquela relação incomodou ao cardeal Wolsey, chanceler do reino, Ana fora banida da corte inglesa para Hever, de onde só retornou em 1526. Dois anos depois, quando seu caso com o rei Henrique VIII já era de conhecimento público, ela contraiu a chamada “doença do suor”, precisando ficar acamada no lar ancestral de sua família até a convalescença. Em 1983, a propriedade foi adquirida pela Broadland Properties, que fez alguns reparos no edifício do século XIII. Assim, o quarto de Ana Bolena recebeu móveis entalhados em madeira de carvalho, incluindo uma cômoda e um aparador.

Possível quarto ocupado por Ana Bolena, no castelo de Hever, em Kent (Inglaterra). Tendo nascido possivelmente no ano de 1501 na propriedade de Blickling Hall, em Norfolk (próximo do dia de Santa Ana, em julho), Ana Bolena era a segunda filha de Sir Thomas Bolena com Elizabeth Howard (filha do duque de Norfolk).

Uma das muitas cópias feitas no final do século XVI, do retrato de Ana Bolena. Acredita-se que a tela tenha sido pintada a partir de um original perdido, datado do ano de 1534.

Sir Thomas Bolena (ou talvez Piers Butler), por Hans Holbein, o Jovem.

Diferentes ângulos do quarto de Ana Bolena, no castelo de Hever.

Com efeito, as paredes também foram decoradas com retratos póstumos da rainha, cortinados e um esboço original feito por Hans Holbein, o Jovem, que se acredita ser uma representação de Sir Thomas Bolena. Igualmente interessante é a porta em madeira de carvalho, que dá acesso a uma escadaria circular, próxima da cômoda com o painel de cortinas em veludo carmesim, que servem de moldura para o retrato da mãe da rainha Elizabeth I. O castelo de Hever também possui uma das maiores coleções de arte do período Henriquino, como dois livros de oras que pertenceram à segunda esposa do monarca, contendo sua assinatura e frases rabiscadas por ela nas margens dos textos sagrados. Segundo se conta, antes de morrer a vítima dividiu os poucos objetos que estavam em sua posse entre as dama que a acompanharam nos dias de encarceramento. Em meio a esses itens, havia um livro de orações em tamanho de bolso, que atualmente se encontra em exposição no castelo de Hever. Nas páginas ilustradas da obra, uma inscrição escondida: “Lembre-se de mim quando estiver orando” e “que a esperança o guie no dia-a-dia”.

Ana e sua irmã, Maria, possivelmente dividiam o mesmo cômodo até o casamento da Bolena mais velha com William Carey. A partir de então, possivelmente, o ambiente (que é ponto de passagem para outros quartos do castelo medieval) passou a ser ocupado apenas pela futura esposa do rei Henrique VIII. A primeira filha de Sir Thomas também possui destaque no castelo. Entre a magnífica coleção de arte exposta em Hever, existe o famoso retrato de uma mulher desconhecida, que possivelmente se trata de Maria Bolena. A irmã da segunda esposa de Henrique VIII é uma grande interrogação na história inglesa. Supostamente amante de dois reis, ela se transformou em uma representação de ousadia feminina para o século XVI ao se casar com o homem de sua escolha, em detrimento da vontade de seus familiares. De acordo com os rumores da época, durante uma temporada na França, Maria se tornou maîtresse do rei Francisco I, que a teria apelidado de “minha égua inglesa”. Quando voltou para casa (c. 1520), a moça se casou com William Carey e com ele teve dois filhos. Mais tarde, foi inserida no séquito da rainha Catarina de Aragão, onde atraiu os olhares de Henrique VIII, que também a tomou por amante.

Anotação feita por Ana Bolena em um dos seus livros de horas, no qual se lê a inscrição latina: “Le Temps Viedra” (Os Tempos Virão).

Porta de carvalho que dá acesso a uma escada em espiral, no quarto de Ana Bolena.

Escada em formato de espiral que dá acesso ao antigo quarto de Ana Bolena no castelo de Hever, em Kent (Inglaterra). O pai de Ana, Sir Thomas, se mudou para a propriedade com a esposa e os filhos após o falecimento de seu pai, William, em 1505.

Possível retrato de Maria Bolena, pintado por artista desconhecido.

O relacionamento dela com Henrique, contudo, parece que não durou muito tempo. Após enviuvar, Maria Bolena enfrentou muitas dificuldades até encontrar um homem que a aceitou como esposa, William Stafford. Por esse casamento pouco vantajoso, ela foi rejeitada por sua família e passou por sérias necessidades financeiras. Em uma carta enviada ao secretário do rei, Thomas Cromwell, ela diz que “prefiro mendigar o pão ao lado dele [seu marido], a ser a maior rainha ungida da cristandade”. Apesar de ter sido amante do rei da Inglaterra, a posição de Maria Bolena não foi oficializada por Henrique, diferentemente de sua predecessora, Bessie Blount, cujo filho foi reconhecido pelo próprio monarca como um bastardo real. No final, Maria herdeou todas as propriedades da família Bolena e viveu de forma confortável até o fim de seus dias. Sua descendência perdura até os dias de hoje. Entre eles, a família Spencer, da falecida princesa Diana, e os Bowes-Lyon, de quem a falecida rainha Elizabeth II descende por via materna.

Com efeito, no castelo de Hever se encontra um dos retratos mais famosos de Ana Bolena. Trata-se de uma cópia elisabetana, feita por um artista desconhecido (possivelmente a partir de um original perdido). A tela traz a seguinte inscrição: Anne Bolina Angliae Regina (Ana Bolena Rainha da Inglaterra). Existem várias versões dessa imagem, espalhadas por outras galerias. Na maioria delas, observamos uma mulher usando roupas pretas, de acordo com a moda da primeira metade do século XVI, um capelo francês adornado com pérolas e um pingente como o “B” de Bolena. Segundo Sanuto, um diplomata veneziano que esteve na corte inglesa durante o período henriquino, “a Senhora Ana não é uma das mulheres mais bonitas do mundo, tem estatura média, compleição escura, pescoço comprido, boca larga, um peito não muito saliente e olhos que são negros e lindos” (apud LOADES, 2010, p. 129). No retrato de Hever, as mãos em evidência são um recurso especial, visto que em muitos retratos da nobreza inglesa da década de 1530, essa parte do corpo costumava ser destacada. Na opinião de seu principal biógrafo, Eric Ives, é uma das poucas telas onde podemos ter um vislumbre de como Ana Bolena se pareceria em vida.

Cópia elizabetana de um retrato de Ana Bolena, feita por um artista desconhecido, possivelmente a partir de um original perdido. Atualmente exposto no castelo de Haver (lar ancestral da família Bolena), a tela traz a seguinte inscrição: Anne Bolina Angliae Regina (Ana Bolena Rainha da Inglaterra).

O quarto do rei Henrique VIII no castelo de Hever, com uma estátua de cera representando Ana Bolena.

A curadora assistente, Kate McCaffrey, com o vestido de coroação do filme “Elizabeth” de 1998 , estrelado por Cate Blanchett.

Réplica do vestido da coroação da rainha Elizabeth I, usado pela atriz Cate Blanchett no filme “Elizabeth” (1998). A peça se encontra em exposição no chamado quarto do rei, no castelo de Hever, em Kent, que era onde se acredita que o rei Henrique VIII dormia quando se hospedava na propriedade da família Bolena.

Um dos maiores destaques do castelo, por sua vez, é o quarto do rei. Trata-se do quarto que teria sido preparado para o rei Henrique VIII, no castelo de Hever, em Kent. O local era o lar de Sir Thomas Bolena, pai da segunda esposa do monarca, e de sua família. A fotografia em destaque apresenta uma pequena narrativa, com uma estátua de cera representando Ana, segurando uma rosa numa das mãos e uma carta do soberano na outra. O relacionamento dela com Henrique se desenvolveu intensamente de forma epistolar, entre os anos de 1526 e 1528. Com efeito, essa é a parte mais antiga do castelo, que não foi alterada com o passar dos séculos. A grande cama com dossel, as tapeçarias originais, a lareira e as vigas do teto (que datam de 1462) emprestam um ar de originalidade ao ambiente. Além disso, o local abriga uma das maiores coleções de obras de arte e objetos que remontam ao período Henriquino e à primeira Era Elisabetana. O castelo de Hever foi lar dos Bolena por 77 anos. Após a morte de Sir Thomas, em 1539, ele retornou para a Coroa, em vez de ser herdado por sua única filha sobrevivente, Maria. No ano seguinte, Henrique o deu de presente para Ana de Cleves, em reconhecimento por sua aceitação na anulação do casamento real.

Ao longo dos séculos, Hever passou pelas mãos de diversas famílias, como os Waldegrave e os Waldorf Astor; cada uma reformando a propriedade de acordo com o estilo arquitetônico em voga. Felizmente, sua fachada permaneceu bastante parecida com o que era quando o rei Henrique e sua comitiva viajavam pelos campos até a região de Kent, no ducado de Norfolk, para serem hospedados por Sir Thomas. Hoje, o castelo de Hever é um museu, gerenciado pela Broadland Properties, fundada pela família que adquiriu a propriedade dos Astor em 1983, os Guthrie. Seus lendários jardins foram restaurados, assim como os cômodos também passaram por um processo de reparo, para deixá-los mais próximos do que eram na primeira metade do século XVI. Eles também possui uma narrativa que foi romantizada com o passar das Eras, uma vez que supostamente serviam como local de encontro para Henrique VIII e Ana Bolena, durante a fase em que o rei estava começando a cortejar a jovem. Ela, por sua vez, o atormentava com suas negativas em se tornar uma amante real.

Cate usou uma recriação perfeita dos trajes da monarca na cena. Elizabeth usou o mesmo robe e estola forrados com pele de arminho que foram usados por sua irmã, Maria I Tudor, em sua própria coroação.

O vestido em amarelo ouro foi bordado com o mesmo padrão floral do manto.
A soberana também estava ricamente coberta com joias adornadas com pérolas naturais em formato de gota, rubis e topázios.

Os belíssimos jardins do Castelo de Hever, onde Ana Bolena supostamente se encontrava com Henrique VIII, de acordo com a narrativa romântica.

Fotografia do castelo de Hever, em Kent, na Inglaterra. A residência costumava ser o lar da família Bolena desde o século XV e foi entre essas paredes que a segunda esposa do rei Henrique VIII, Ana, cresceu.

Recentemente, o castelo de Hever foi lar de uma exposição que abrigou a belíssima réplica do vestido da coroação da rainha Elizabeth I, usado pela atriz Cate Blanchett no filme “Elizabeth” (1998). Numa das imagens, podemos ver a curadora assistente, Kate McCaffrey,no quarto do rei, próxima ao vestido de coroação. Ao lado dos trajes, vemos sobre uma almofada as outras peças da regalia real, como a coroa, o orbe e o cetro usados pela atriz na cena da coroação. O trajes foram feitos com base em um retrato da rainha Elizabeth I recém-coroada em 1559, pintado no final do século XVI a partir de um original (hoje perdido). Como podemos ver, Cate usou uma recriação perfeita dos trajes da monarca na cena. O vestido em amarelo ouro foi bordado com o mesmo padrão floral do manto. A soberana também estava ricamente coberta com joias adornadas com pérolas naturais em formato de gota, rubis e topázios. Seus cabelos ruivos caíam delicadamente atrás do manto, enquanto a coroa lhe adornava a fronte. Com uma das mãos ela segurava um orbe, que representava seus domínios sobre a Inglaterra, a Irlanda e Gales, enquanto com a outra mão ela segura o cetro real, símbolo de seu poder e direto de governar.

Agradecimentos especiais à minha amiga, a historiadora Camilla Maréga, por me elucidar alguns pontos a respeito da arquitetura e história do castelo de Hever!

Referências Bibliográficas:

FRASER, Antonia. As seis mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2010.

IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010.

NORTON, Elizabeth. The Anne Boleyn Papers. UK: Amberley, 2013.

WEIR, Alison. The lady in the tower: the fall of Anne Boleyn. – New York: Ballantine Books, 2010.

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