Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Em 4 de agosto de 1900, nascia em Londres a filha mais jovem de Claude Bowes-Lyon, XIV conde de Strathmore e Kinghorne, com Cecília Cavendish-Bentinck. Batizada de Elizabeth, ela viveu o suficiente para presenciar o reinado de seis monarcas britânicos: a rainha Vitória, o rei Edward VII, George V, Edward VIII, George VI e sua filha, Elizabeth II. Ela também pode ser considerada a primeira mulher a se beneficiar das leis de 1917, que permitiam aos membros da realeza se casarem com súditos da Coroa. Quando jovem, recebeu uma educação mais refinada do que a de sua primogênita, algo que lhe foi bastante útil quando entrou para a família real, em 1923. Nesse ano, ela se uniu em matrimônio ao duque de York, apelidado pela família de “Bertie”. Após a ascensão de seu marido como George VI, em 1936, Elizabeth Bowes-Lyon foi uma verdadeira força por trás da Coroa, guiando a Casa Real em seus momentos mais difíceis. Durante a transição de reinados, a rainha-mãe permaneceu como uma figura influente, sendo reverenciada pela nação como um verdadeiro ícone dos tempos da Segunda Guerra. Nessa matéria, celebramos um pouco do centenário da rainha britânica e última imperatriz da Índia, por meio de registros que ajudaram a construir sua figura pública!
Em 26 de abril de 1923, o príncipe Albert “Bertie”, duque de York (futuro rei George VI), se casava na Abadia de Westminster com a filha do conde de Strathmore e Kinghorne. Visto como um aluno mediano pelo Real Colégio Naval, o príncipe tinha problemas de infância como a gagueira e uma má formação nas pernas, corrigida pelo uso de aparelhos. Mais tranquilo do que seu irmão, David, o príncipe de Gales, Bertie sempre foi o queridinho de seu pai, o rei George V, que o considerava “mais fácil de se lidar” do que o herdeiro. Ele chegou a propor casamento a Elizabeth em duas ocasiões, tendo sido rejeitado na primeira delas. Apenas em 1923 a jovem aceitou o pedido e se tornou a nova duquesa de York. Quando a noiva entrou na Abadia no dia de seu casamento, ela parou para colocar as flores do seu buquê no túmulo do Guerreiro Desconhecido. O gesto foi feito em memória de seu próprio irmão, Fergus, que morreu na Batalha de Loos, em 1915. Além disso, foi uma homenagem aos milhões de mortos e feridos na Primeira Guerra Mundial. Muitas noivas reais adaptaram o gesto desde então, colocando suas flores na tumba ao sair da igreja em vez de na entrada, como fez a rainha-mãe, que permaneceu sem o seu buquê durante toda a cerimônia.

Retrato em miniatura de Lady Elizabeth Bowes-Lyon aos 7 anos, encomendado pela condessa de Strathmore à pintora Mabel Hankey.

A jovem Lady Elizabeth Bowes-Lyon era considerada uma das moças mais bonitas e extrovertidas de seu tempo. Tanto, que conquistou o coração do tímido príncipe Bertie.

Fotografia oficial do casamento de Lady Elizabeth Bowes-Lyon, futura rainha consorte, com o príncipe Bertie, duque de York, futuro rei George VI. Ao lado da noiva, vemos seu pai, Claude Bowes-Lyon, XIV Conde de Strathmore e Kinghorne, e sua mãe, Cecília Cavendish-Bentinck. Já ao lado do noivo, vemos sua mãe, a rainha Mary de Teck, e seu pai, o rei George V.

O duque e a duquesa de York, Bertie e Elizabeth Bowes-Lyon (mais tarde rei George VI e rainha consorte), no batizado de sua primogênita, a princesa Elizabeth de York (futura rainha Elizabeth II), em 1926.

Elizabeth Bowes-Lyon, duquesa de York, com suas duas filhas, as princesas Elizabeth e Margaret (no colo da mãe), em 1930. Quase sete anos depois desse registro fotográfico, a duquesa se tornaria rainha consorte do Reino Unido, com a ascensão de seu marido, George VI, após a abdicação do rei Edward VIII. Colorização: @royaltyincolour
Elizabeth Bowes-Lyon foi responsável por muito do estilo e conduta da Casa Real, a partir do momento em que se casou com o duque de York. Era reconhecida como uma das jovens nobres mais belas de seu tempo. Por volta dessa época, o renomado artista Philip László pintou os primeiros retratos oficiais da duquesa, aos 25 anos de idade. O artista lhe deu um ar de frescor e sensualidade no retrato, ressaltando suas principais qualidades: o olhar cândido e o sorriso doce. Na opinião de Tina Brown:
Ao aceitar Bertie, lady Elizabeth tomou a melhor decisão de sua vida. Embora, da parte dela, nunca tenha sido um casamento por paixão, a devoção dele era inquestionável. Ela pôde moldar um monarca acidental. “Ele precisava se casar com uma mulher forte e confiante”, disse a atriz Evelyn Laye, amiga íntima de Bertie. “Foi uma bênção para ele e para o país que tenha encontrado a moça certa… Ela o transformou num grande rei, de uma maneira que mais ninguém conseguiria fazer. Isso foi possível graças à sua força e determinação” (BROWN, 2022, p. 137).
A primeira filha do casal, a princesa Elizabeth Alexandra Mary, nasceu de uma cesariana em 1926, no dia 21 de abril, em Mayfair, n° 17 da Burton Street. O contexto da época era marcado por grave crise econômica e greves trabalhistas. A segunda criança, nascida na Escócia quatro anos depois, fora batizada de Margaret. O pai das princesas referia-se às duas filhas, juntamente com a esposa, pelo carinhoso título de “nós quatro”, para reforça a ideia de unidade que existia na família. Elizabeth Bowes-Lyon era uma mãe bastante carinhosa, mas ao mesmo tempo firme. Supervisionava a educação das filhas e controlava os impulsos irrefreáveis da mais jovem, sempre com um sorriso no rosto.
Não obstante, a duquesa de York convenceu o marido a fazer um tratamento com um australiano chamado Lionel Logue, para superar seu problema com a gagueira, após um desastroso discurso feito em 1925. Eles procuraram a ajuda do especialista que vivia em Londres, conhecido por seus métodos pouco convencionais. Após o tratamento, Bertie melhorou consideravelmente. Enquanto isso, as duas filhas do duque e da duquesa de York faziam a alegria dos familiares, incluindo o tio David, que adorava brincar e correr atrás das sobrinha na casa de seu irmão. Infelizmente, o relacionamento do rei George V com seu primogênito nunca foi dos melhores. Em uma ocasião, o monarca chegou a expressar o desejo de que David nunca se casasse, para que a Coroa passasse diretamente para a cabeça de Bertie e desta para da pequena Lilibet. Com a morte do rei em 20 de janeiro de 1936, o príncipe de Gales assumiu o trono como Edward VIII. Seu reinado, porém, teria vida curta. Na época, era famoso seu caso amoroso com a socialite americana, Wallis Simpson. Como já era uma mulher divorciada de um marido e em processo de separação do segundo, a Igreja da Inglaterra não permitiu o casamento de Wallis com o rei. Como seus Primeiros Ministros também eram contra a união, Edward abdicou do trono e se casou com a mulher que amava em 1937. A partir de então, o casal assumiu os títulos de duque e duquesa de Windsor.

Nessa tela de László, a futura rainha-mãe era ainda uma jovem de 25 anos, mais conhecida pelo título de duquesa de York, por seu casamento com o príncipe Bertie (futuro rei George VI). O artista lhe deu um ar de frescor e sensualidade no retrato, ressaltando suas principais qualidades: o olhar cândido e o sorriso doce. Elizabeth também foi levemente emagrecida pelo artista, que escondeu suas formas rechonchudas, deixando assim seu colo desnudo à mostra, com um colar de pérolas de três voltas.

Retrato oficial da coroação da rainha Elizabeth Bowes-Lyon, mãe de Elizabeth II e da princesa Margaret e consorte do rei George VI. A tela foi finalizada em 1938, por Gerald Kelly, e apresenta a soberana usando um traje costurado por Madame Handley-Seymour, sua modista favorita, responsável também pelo seu vestido de casamento.

A rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon, posando para as lentes de Cecil Beaton, usando um vestido desenhando pelo estilista Norman Hartnell. A parceria da consorte do rei George VI com esses dois artistas definiu o tom e a imagem da Casa Real britânica, em meados do século XX.

Fotografia da rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon, usando um modelo desenhado pelo estilista Norman Hartnell. A consorte do rei George VI também usa tiara, colar e broche que haviam pertencido à rainha Vitória no século XIX. A faixa da Grã-Cruz da Ordem da Jarreteira atravessa seu busto, enquanto suas mãos seguram um leque fechado. O registro foi feito pelo famoso fotógrafo da corte, Cecil Beaton, que havia capturado o perfil da soberana em outros belíssimos registros. Beaton acompanhou a família real durante a transição de reinados, entre as décadas de 1940 e 1970.

Trinta e três anos depois que a artista Mabel Hankey pintou pela primeira vez um retrato da rainha Elizabeth Bowes-Lyon quando criança, a soberana encarregou a velha pintora de fazer uma cópia em aquarela de seu retrato favorito, a partir de uma fotografia tirada por Cecil Beaton no verão de 1939 (pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial). Na imagem, a esposa de George VI usa o colar e brincos de diamantes da coroação da rainha Vitória e a tiara Kokoshnik da rainha Alexandra.
No final de 1936, a dinâmica da família York mudou radicalmente. Com a abdicação do rei Edward VIII, Bertie ascendeu ao trono como rei George VI. Isso significava que a duquesa de York agora era rainha consorte e imperatriz da Índia. Ela nunca perdoaria o cunhado por sua suposta fraqueza, ao jogar o peso da responsabilidade para nas costas do seu irmão. Já para as duas jovens princesas, a mudança de status também configurava uma alteração de ares. A família passou a viver no imenso Palácio de Buckingham. A coroação ocorreu na Abadia de Westminster, no dia 12 de maio de 1937. Para a ocasião, a soberana usou um traje feito por sua modista preferida, Madame Handley-Seymour, responsável também por seu vestido de casamento, em 1923. A peça, costurada em tecido marfim, era bordada em fios dourados com emblemas florais, que representavam os países do Império Britânico. O manto de cor púrpura (a cor da realeza), por sua vez, era forrado com pele de arminho e bordado com os mesmos emblemas, incluindo o monograma coroado da soberana. A rainha foi retratada usando esse conjunto pelos pincéis de Gerald Kelly, em uma pose bastante altiva. A obra foi finalizada no ano seguinte ao da coroação, quando as bombas da Segunda Guerra Mundial se avizinhavam.
Uma vez rainha consorte e imperatriz da Índia, Elizabeth Bowes-Lyon teve que dar uma repaginada no seu visual. Para isso, ela contou com a ajuda de dois artistas: o estilista Norman Hartnell e o fotógrafo Cecil Beaton. Segundo o biógrafo Gareth Russell:
Os estudos de Cecil Beaton sobre a Rainha Elizabeth no final da década de 1930 foram alguns dos retratos reais mais bem recebidos do século XX. Filmados em vários locais pelo Palácio de Buckingham, Beaton corretamente adivinhou antes de Elizabeth que eles tinham um sucesso em suas mãos. ‘Para meu espanto e alegria”, ele escreveu, “a rainha parecia um sonho, uma boneca de porcelana, com um rostinho impecável como porcelana luminosa em frente ao fogo. Seu sorriso tão fresco quanto uma gota de orvalho, seu olhar intransigente e gentil, no geral um rosto que revela o que o dono é, alguém com os melhores instintos, rigoroso em seus gostos, alegre, simpático, espirituoso, astuto, melancólico e tão bem-educado que nos enche de admiração” (RUSSELL, 2022, p. 81-2).
Egresso do Eton College, Hartnell começou sua carreira desenhando para ninguém menos que Wallis Simpson, a duquesa de Windsor (um dos desafetos de Elizabeth Bowes-Lyon), até que foi contratado pelo próprio rei George VI para desenhar todo o guarda-roupas de sua rainha consorte. Seu estilo era conhecido por misturar alta costura com elementos dos contos de fadas, imprimindo assim certa aura de magia que marcou a composição do visual das mulheres da realeza britânica, nas décadas de 1940 e 1950. O resultado dessas criações primorosas foi capturado pelo fotógrafo da corte, Cecil Beaton. Tanto ele quanto o estilista mantiveram sua importância com a transição entre os reinados, imprimindo assim sua marca na história dos Windsor.

Catherine, princesa de Gales, usando a delicada tiara Strathmore Rose, que havia pertencido à rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon. A esposa do rei George VI costumava utilizar a joia em seus dias como duquesa de York. A foto em destaque apresenta a mãe da rainha Elizabeth II no ano de 1926, usando a peça de acordo com a moda vigente na década de 1920. Batizada em homenagem à família da rainha-mãe (cujo pai era Claude Bowes-Lyon, XIV conde de Strathmore e Kinghorne), a peça apresenta um design de ramos de flores de diamantes brancos, que remetem a uma diadema natural. Com a ascensão de Elizabeth II, a joia pouco voltou a ser vista diante dos olhos públicos. Ela passou para as mãos do príncipe Charles, agora rei, após a morte de sua avó. Kate então usou a peça da finada consorte de George VI no dia 21 de novembro de 2023, durante o banquete de Estado oferecido no Palácio de Buckingham, por ocasião da visita do presidente da República da Coreia.

A rainha-mãe não teria gostado dos retratos de sua coroação, em 1937, razão pela qual contratou Cecil Beaton para recriar sua imagem.

A rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon, com suas duas filhas, as princesas Elizabeth e Margaret. Quando essa foto foi tirada, em 1931, a esposa do futuro rei George VI atendia pelo título de duquesa de York. Com a abdicação de Eduardo VIII em 1936, ela se tornou rainha consorte do Reino Unido até 1952, ano da morte de seu marido.

Fotografia da princesa Elizabeth, da rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon, e da princesa Margaret, tirada no início da década de 1940.

Fotografia da família real britânica, tirada no ano de 1947. Na imagem, vemos o rei George VI e a rainha Elizabeth Bowes-Lyon entre suas filhas, as princesas Elizabeth e Margaret. De acordo com Marion Crawford, governanta das herdeiras do trono entre os anos de 1933 e 1949, as duas tiveram uma infância feliz e segura entre as paredes medievais do castelo de Windsor, apartadas da vida comum. Até a abdicação de Edward VIII, o duque de York e sua família (“nós quatro”, como ele se referia a si, à esposa e às filhas, para reforçar a ideia de unidade) viviam no Royal Lodge, onde elas cresciam sob os auspícios do avô e da avó.
Inicialmente isolada por todo aquele mundo de regimentos e protocolos da realeza, a futura rainha-mãe usou seu carisma para se aproximar das pessoas e assim conseguiu ofuscar até mesmo seu cônjuge. Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, a rainha era constantemente vista em hospitais, visitando soldados e locais atingidos pelas bombas nazistas. As duas herdeiras, por sua vez, foram levadas para a segurança do castelo de Windsor, enquanto a Europa mergulhava no conflito. Quando o Palácio de Buckingham foi atingido cerca de nove vezes, os aposentos do rei e da rainha foram quase destruídos. A monarca disse na ocasião que finalmente tinha uma vista ampla da East End. Mulher de fibra e coragem, ela encorajava os súditos a permanecerem resilientes e combaterem o medo, incitando-lhes o sentimento de nacionalismo. Em decorrência disso, Hitler considerava Elizabeth Bowes-Lyon como “a mulher mais perigosa da Europa”, uma vez que a rainha representava uma barreira para sua política do terror. Seu sorriso doce escondia uma personalidade implacável e uma vontade férrea. Tanto, que mais tarde ela seria descrita como uma barra de aço coberta de marshmallow, segundo opinião do fotógrafo Cecil Beaton. A rainha era a única que conseguia controlar os acessos de raiva do marido, numa época em que seu temperamento era constantemente posto à prova.
Referências Bibliográficas:
BROWN, Tina. Os arquivos do Palácio: por dentro da Casa Windsor: a verdade e a voragem. Tradução de Denise Bottmann e Berilo Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
RUSSELL, Gareth. Do let’s have another drink: the singular wit and double measures of Queen Elizabeth The Queen Mother. Great Britain: William Collins, 2022.
SHAWCOROSS, William. Queen Elizabeth, The Queen Mother: The Official Biography. London: Macmillan, 2009.
SMITH, Sally Bedell. George VI and Elizabeth: the marriage that shaped the monarchy. Great Britain: Penguin Random House, 2023.
VICKERS, Hugo. Elizabeth The Queen Mother. London: Arrow Books, 2005.


