D. Teresa Cristina, uma Imperatriz silenciosa?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Soberana consorte do maior país da América Latina por um período de aproximadamente 45 anos, D. Teresa Cristina Das Duas Sicílias até hoje permanece como uma interrogação nos autos da historiografia brasileira. Casada com o Imperador D. Pedro II, conhecido como o “rei filósofo” ou o “monarca cidadão”, ela quase passa despercebida diante dos acontecimentos que marcaram o Brasil da segunda metade do século XIX. Sua imagética de mulher caridosa e cristã, porém limitada intelectualmente, ainda persiste na mente de alguns dos habitantes deste país (desconsiderando-se, nesse caso, a outra grande parcela da população que nem sequer sabe que ela existiu). Entretanto, faz-se necessário a importância de um novo estudo acerca desta ilustríssima personagem, no intuito de resgatá-la do campo dos estereótipos e observações tendenciosas, para apresentá-la, assim, à luz da erudição e cultura que, por sua vez, eram uma marca firme de seu caráter. Teresa Cristina, uma vez tirada à mordaça com que a calaram, pode contar uma história surpreendente, e impressionar, inclusive, aqueles mais incrédulos.

D. Teresa Cristina, c. 1883 (fotografia de Insley Pacheco).

D. Teresa Cristina, c. 1883 (fotografia de Insley Pacheco).

Entre as muitas alcunhas da terceira Imperatriz do Brasil, D. Teresa é especialmente conhecida como a “Mãe dos Brasileiros”, ou, nas palavras de Max Fleiuss, “um serafim de bondade e candura celeste”. Todavia, comparada com as outras soberanas do país, dispomos de pouquíssimo material publicado sobre esta princesa napolitana, que aportou no Rio de Janeiro em Setembro de 1843: D. Leopoldina, por exemplo, foi biografada com excelência por Carlos H. Oberacker Jr., que lhe dedicou um livro até hoje não superado por qualquer outro compêndio que tenha como tema a vida e a influência desta nobre arquiduquesa da casa d’Áustria¹; para D. Amélia de Leuchtenberg, dispomos da obra de Lygia Lemos Torres, além dos ótimos textos e artigos da autoria de Cláudia Thomé Witte. Entretanto, quando o assunto é D. Teresa Cristina Maria, somos obrigados a folhear os muitos livros publicados sobre D. Pedro II, na esperança de encontrar um capítulo que fale de sua esposa, ao menos com a dignidade que ela merece. Este último quesito, entretanto, constitui-se numa tarefa bastante complicada.

Talvez a obra em que possamos encontrar a figura da Imperatriz D. Teresa sob um ângulo mais pessimista seja “Condessa de Barral” (Objetiva, 2006) da historiadora Mary Del Priore. Em sua extensa bibliografia, a referida pesquisadora, no presente livro, não cansa de rebaixar a soberana para exaltar as qualidades daquela a quem chama de “a paixão do imperador”, ou seja, Luísa Margarida Portugal e Barros, condessa de Barral e também de Pedra Branca. Referindo-se a Teresa Cristina como invejosa e ciumenta, Priore diz que ela fitava a rival com um olhar de cobra e que “devolvia seu ódio à traidora [a condessa], com um terço na mão”. Em contra partida, Luisa tinha pela mulher de seu suposto amante “um misto de compaixão e desprezo”, uma vez que “a imperatriz nunca chegou aos seus pés”. Por meio de livros como esse, dificilmente o leitor terá qualquer apego pela figura de Teresa Cristina, interpretando-a como uma mulher ressentida e mal amada.

Não obstante, a própria descrição que Mary Del Priore faz da Imperatriz é tão grosseira, que através dela é possível sentir nada senão pena de D. Pedro II, quando este subiu a bordo da fragata Constituição, em Setembro de 1843, e decepcionou-se ao ver que sua consorte nada se parecia com o retrato que lhe haviam enviado da mesma. Diz a historiadora sobre o aspecto físico de D. Teresa Cristina o seguinte:

“… Tinha o nariz dos ancestrais – em formato de berinjela –, olhos miúdos, lábios estreitos e queixo duro. Os cabelos escuros amarrados em bandós sobre a orelha acentuavam o perfil comprido. Talvez por tudo isso, sorria pouco. As pernas excessivamente arqueadas por debaixo das saias davam a impressão de que ela mancava. Elegância? Nenhuma. Graças? Poucas. Só a voz de contralto que exercitava em pequenos trechos de óperas italianas e a facilidade com que se acompanhava no piano…” (PRIORE, 2008, pag. 167).

Destarte, segundo a mesma autora, a Imperatriz tivera uma educação “limitada à cesta de costura, ao piano e ao canto”. Entretanto, ao engrandecer as virtudes da condessa de Barral, Mary Del Priore afirma que:

“… Teresa Cristina nada podia contra sua adversária. Compreendia a poesia e a literatura, mas não conseguia memorizar coisa nenhuma. Ouvia comentários nas rodas sociais, mas não fazia qualquer contribuição. Suas idéias religiosas e preconceitos de infância eram um entrave para a sua inteligência” (PRIORE, 2008, pag. 170).

A Imperatriz gostava de se deixar fotografar ao lado de livros, como prova de seu amor pelo conhecimento (fotografia de Carneiro & Gaspar e coloração de J. Courtois).

A Imperatriz gostava de se deixar fotografar ao lado de livros, como prova de seu amor pelo conhecimento (fotografia de Carneiro & Gaspar e coloração de J. Courtois).

Todavia, como uma mulher que compreendia literatura e poesia, mas não conseguia memorizar nada, pôde deixar um acervo documental tão vasto, como o que se encontra no Museu Imperial de Petrópolis? Seus dez diários pessoais, que dão conta de sua vida cotidiana na corte, além das viagens que fazia e óperas a que assistia, são mais do que prova do quanto ela era capaz de processar assuntos que estivessem ligados à cultura de seu povo e à geografia do país ao qual reinava. Além do mais, como uma pessoa de inteligência limitada devido à sua consciência religiosa, pôde cultivar uma paixão pela arqueologia e antiguidade clássica, a ponto de negociar com seus parentes em Nápoles a importação de numerosas peças antigas, que datavam do século V a.C., para fazerem parte dos museus e exposições que organizara? Não só isso. Como uma Imperatriz que não fazia qualquer contribuição nas rodas sociais pôde ter exercido uma influência tão significativa nos fluxos migratórios de italianos para o Brasil? São essas apenas algumas questões importantes para se pensar acerca da imagem estereotipada que é feita de D. Teresa Cristina por alguns historiadores, em comparação com o que muitos registros apontam.

É conhecido, por exemplo, o seu grande amor pelas inovações científicas do período, especificamente pela fotografia. Em muitas delas podemos observar a Imperatriz com seu marido e filhas, acompanhada de livros, como um sinal de seu interesse pela erudição. Destarte, apesar do reino de Nápoles não ser tão desenvolvido como as grandes monarquias da Inglaterra, Espanha, França e Áustria, ela praticamente tinha como quintal de sua casa um imenso sítio arqueológico, com peças que contavam em primeira mão todo o glorioso passado da antiga Magna Grécia. Sendo assim, seria bastante equivocado supor que uma mulher, mesmo que fervorosamente religiosa, fosse insensível a ponto de não absorver a imensa amostra cultural que sua pátria oferecia. Tendo nascido a 14 de Março de 1822, na infância fora instruída por mosenhor Olivieri, e “possuía uma natureza sensível, inteligência apurada e inclinada ao culto das artes” (GUIMARAES, 2011, p. 5).

Banco revestido em mosaicos de conchas e cacos de louça, pela Imperatriz D. Teresa cristina.

Banco revestido em mosaicos de conchas e cacos de louça, pela Imperatriz D. Teresa cristina.

Com efeito, como a própria Mary Del Priore deu-nos a entender, D. Teresa cultivava um talento para o canto. Essa peculiaridade também é manifestada pelo pessoal interesse que a soberana tinha pela Companhia de Ópera Italiana, tendo, portanto, participação direta na vinda de dançarinos, atores e músicos para se apresentarem no Brasil. Segundo Aniello Avella,

“… A imperatriz, por sua vez, encarnava aos olhos dos súditos o mito da latinidade transplantada nas Américas. Em vista da representação utópica da monarquia, a sua função foi da maior importância: ela, pois, havia trazido aos trópicos a herança dos gênios tutelares da tradição clássica, renovada através das obras de todos os que iam exibir seus talentos naquele Éden chamado Brasil” (AVELLA, 2010, p. 8).

Contudo, a colaboração de D. Teresa não fica apenas restrita ao campo artístico e arqueológico. Sabe-se, por exemplo, que ela exerceu influência junto a D. Pedro II no tocante à imigração de trabalhadores italianos para o país, não só para as lavouras de café, como também médicos, engenheiros, professores, farmacêuticos, enfermeiras, artistas e artesões (VANNI, 2000, p. 41-42 apud AVELLA, 2010, p. 9).

D. Teresa Cristina, c.1876 (fotografia de Insley Pacheco).

D. Teresa Cristina, c.1876 (fotografia de Insley Pacheco).

Assim como a Imperatriz D. Leopoldina tivera um papel importante na vinda de alemães para o Brasil e na formação de uma colônia para os mesmos, sua sucessora também tivera uma função semelhante quanto à vinda de pessoas de sua terra natal para trabalhar no país, possibilitando assim, em 1847, a criação da Colônia Vallones dos Reados². Não obstante, D. Teresa pôde dar à posteridade uma prova do quanto ela tinha sensibilidade artística, através dos objetos de decoração que ela mesma produziu nos jardins do Palácio de São Cristóvão. Utilizando-se para este trabalho de materiais tais como conchas e cacos de louça, ela cobriu os bancos, fontes e paredes do Jardim das Princesas, através de uma técnica conhecida como embrechamento, com interessantíssimas colunas de mosaicos que até hoje podem ser observadas e admiradas no referido local.

Entretanto, apesar de sua presença ser notável em muitos aspectos da vida no segundo Império, ainda nenhuma obra séria acerca desta admirável personalidade fora publicada. Talvez por ser uma mulher de caráter reservado, ela possa despertar pouco interesse por parte de pesquisadores, em suma, interessados em produzir livros contendo uma forte apologia ao sexo. O Museu Imperial de Petrópolis, por exemplo, abriga uma impressionante coleção que leva o nome da Imperatriz³, contendo as peças antigas que ela importou de Nápoles para o Brasil, entre outros itens bastante interessantes. No entanto, esse detalhe passa quase despercebido ao olhar do contemporâneo, fascinado pela vida de D. Pedro II e desinteressando pela sua caridosa esposa. Ao contrário do que muitos pensam, D. Teresa Cristina fala, seja através de sua arte, ou por meio de seus próprios diários e fotografias, o importante é que ela tem a sua própria voz. Mas a grande dificuldade, e também o “X” da questão, é encontrar alguém disposto a ouvi-la.

Referências Bibliográficas:

AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina Maria de Bourbon, uma imperatriz silenciada. In: Anais do XX Encontro Regional de História: História e Liberdade. ANPUH/SP – UNESP-Franca. São Paulo, set. 2010.

CALMON, Pedro. História de D. Pedro II. – Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975. Cinco Vols.

GUIMARAES, Lucia Maria Paschoal. Teresa Cristina de Bourbon (1822-1889): a face oculta da imperatriz silenciosa. In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, Jul. 2011.

PRIORE, Mary Del. Condessa de Barral.  – Rio de janeiro: Objetiva, 2008.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador. – 2ª Edição – São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


¹ Para além do livro de Carlos Oberacker, D. Leopoldina possui uma coleção de correspondências suas publicadas em 2006 pela editora Estação Liberdade sob o título de “Cartas de Uma Imperatriz”. 

² Primeira Colônia de Italianos a se instalar no interior na Província.

³ Coleção Thereza Christina Maria.

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12 comentários sobre “D. Teresa Cristina, uma Imperatriz silenciosa?

  1. Parabéns Renato por este ótimo texto que desmistifica essa grande mulher!
    É uma pena ver historiadoras de renome não ter um mínimo de cuidado com a imagem e a memória de D. Teresa Cristina.
    No fim do ano passado, estive na Quinta da Boa Vista e pude ver que lá existe uma enorme coleção de artefatos de diferentes culturas e regiões do mundo que leva o nome dela por ter sido ela quem os reuniu durante sua vida. Como uma mulher assim pode ter sido pouco culta e inteligente? Seu texto fez um grande serviço à memória dela! Parabéns!
    À propósito, depois que você escreveu este texto, foi publicado algum livro sobre ela? Biografia?

    Grande abraço

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    • Oi Pedro, Muito Obrigado! A Coleção Teresa Cristina foi doada pelo próprio D. Pedro II ao Brasil. Uma prova do quanto ele adora a esposa. É realmente uma pena que poucas pessoas conheçam nossa imperatriz, embora ela tenha reinado no Brasil por 45 anos.
      Ano passado, o pesquisador italiano Aniello Angelo Avella publicou pela UERJ o livro “Teresa Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos, 1843-1889”. Pouco tempo depois, foi lançada pela Cia do Livro a obra “Sua Majestade Imperial D. Thereza Christina Maria de Bourbon e Bragança”, escrita pelo professor Rogerio da Silva Tjäder

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    • Existe uma dissertação de mestrado de 2014, disponívelo no site da Universidade Federal de Uberlândia e artigos que tratam dos diários e cartas de Teresa Cristina.

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  2. Excelente trabalho! Até que enfim encontrei alguém que “tem olhos de ver” e mostrou o que é ser verdadeiramente um biógrafo, que sabe concluir com dignidade sem apresentar opinião pessoal que desmerece essa figura histórica, tal como você fez, Soube apresentar a verdadeira imperatriz, que tinha amor às artes e a cultura. O diário da baronesa de Loreto, sua dama de companhia que acompanhou a família real quando aconteceu o golpe militar dos respublicanos expulsando-os do Brasil, revela como D. Pedro chorou quando ela faleceu, Ele sabia quem era a esposa: amiga, companheira, com muitos predicados, É de se lastimar que uma autora se disponha a criticar a imperatriz Tereza Cristina sem ter feito as considerações, muito bem feitas, como as que você apresentou. Aliás, já li que também fez o mesmo com a princesa Isabel. Nem sempre escrever bem é escrever o correto.

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  3. Uma desconhecida, não resta dúvida. Sua filha Leopoldina tinha surtos raivosos em função do comportamento da imperatriz. perante seu processo de namoro com o Duque de Saxe. O Conde D’Eu deixou registrado uma cena inacreditável: iam todos da família andando em direção à sala de refeições do Paço de S. Cristóvão, quando o imperador esbarrou na claudicante imperatriz. Esta caiu e quebrou o braço, e o imperador nem se deu conta do ocorrido. Ela lhe pesava….disso não há qualquer dúvida ! Agia nos bastidores, temos indícios que apoiava seu neto Pedro Augusto para a sucessão de Pedro II, por direito a sucessão pertencia à Princesa Isabel. Tinha gênio forte !

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