O modelo de mulher ideal naquele período era o da rainha do lar, preocupada com a saúde do marido e a educação dos filhos - Cena da família de Adolfo Augusto Pinho (quadro de José Ferraz de Almeida Júnior, 1891).

O consórcio de almas: o amor romântico e suas contradições em “Lucíola” de José de Alencar (1862)

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 1855, a cidade do Rio de Janeiro parecia o lugar mais promissor para todo recém-formado em direito, que ambicionasse uma carreira de sucesso na capital do império brasileiro. O Rio era a porta de entrada para toda espécie de modismos importados de Paris e de outros centros europeus, desde roupas, acessórios, até mesmo manuais de etiqueta e expressões de linguagem adaptadas à realidade dos trópicos. Naquele universo habitado por grandes damas, políticos, escravos, altos dignitários da Corte, entre outros grupos sociais, um jovem provinciano, ingênuo, poderia facilmente se entregar aos hábitos de vida elegante, aos grandes bailes e dilapidar suas poucas economias nos braços de alguma bela cortesã. Mas seria possível que dentro de uma sociedade bastante conservadora, o relacionamento de um homem com uma prostituta pudesse dar lugar a um consórcio de almas e finalmente ao matrimônio? Tal hipótese, que hoje pode parecer aos nossos olhos como uma coisa aceitável, não o era para nossos antepassados de 150 anos atrás. Quem nos esclarece é José de Alencar, num de seus romances de maior sucesso: Lucíola (1862). Continuar lendo

Dossiê Imperatriz Leopoldina

Download do dossiê “Leopoldina: a Imperatriz da Independência”, publicado pela edição n° 107 da RHBN

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN) é hoje um dos principais periódicos de história do Brasil. Abordando assuntos que vão desde a história geral à brasileira, com matérias escritas por especialistas para cada tema, a revista já dedicou dossiês a muitas personalidades do nosso passado imperial, como José Bonifácio, D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel, Carlota Joaquina, entre outros. Com efeito, até o corrente mês, nenhuma capa havia sido dedica àquela que foi uma das mulheres mais impressionantes da história do Brasil: a Imperatriz Leopoldina. Ultimamente tem-se observado um verdadeiro resgate da figura desta soberana, anteriormente relegada ao esquecimento na mente dos cidadãos da pátria pela qual ela tanto lutou. Autores, como Carlos H. Oberacker Jr., já gastaram diversas páginas de papel para escrever a biografia dessa mulher tão impressionante, mas que ainda permanece negligenciada por alguns pesquisadores e livros de história comercializados neste país. Felizmente, a RHBN deste mês preparou um riquíssimo dossiê sobre D. Leopoldina, ressaltando sua importância política na formação do Brasil. Continuar lendo

Coleção Oficina de História

Coleção de Livros Didáticos da editora LeYa aborda a história das mulheres

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Uma história sem as mulheres”, já dizia a historiadora Michelle Perrot, parece hoje em dia algo impossível. Contudo, ainda é uma realidade que muitos meios de informação ainda não atribuem a elas o lugar devido de agentes de sua própria história, apesar da massiva produção que tem sito feita nesse sentido durante as últimas décadas. Escrever uma história das mulheres é ao mesmo tempo uma tentativa de arrancá-las do silêncio no qual que a sociedade as confinou, uma vez que, em primeiro lugar, elas são menos vistas no espaço público, ficando mais reservadas à esfera privada, da família e da casa. Por muito tempo, a invisibilidade das mulheres fez parte da ordem social. Ora, nesse sentido, é comum pensar: se eram pouco vistas, então é por isso que pouco se falava delas! Mas a questão é muito mais profunda do que podemos imaginar. Personagem que até a década de 1960 permaneceu praticamente marginalizada pela história (quando fatores científicos, sociológicos e políticos possibilitaram a ascenção do objeto “mulher” na área das ciências humanas), o silêncio sobre a história das mulheres se estende até mesmo às fontes. Daí a problemática de se construir um relato das mesmas. Continuar lendo

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A erupção do ontem no hoje: a literatura como recurso para a escrita do passado

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Concebidas como duas áreas específicas do saber humano, cada uma com seu próprio método, história e literatura se assemelham em muitos aspectos, principalmente pelo caráter narrativo e de representação da realidade em ambas. Contudo, enquanto a história busca nas fontes elementos que corroborem para uma interpretação do tempo vivido, a literatura não tem esse compromisso com a veracidade dos fatos, mas sim com a verossimilhança, ou seja, uma forma de captar o real em que as possibilidades de criação e fantasia são maiores do que aquelas permitidas ao historiador (PESAVENTO, 2000, p. 11). Dessa forma, é possível dizer que a narrativa literária não tem a necessidade de comprovar qualquer coisa, porém, partilha com a história uma preocupação acerca da refiguração temporal. Literatura e história dão voz ao passado, proporcionando assim a “erupção do ontem no hoje”. Essa representação do daquilo que ‘já foi’, por sua vez, “é que permite a leitura do passado pelo presente como um ‘ter sido’, ao mesmo tempo figurando como o passado e sendo dele distinto” (ibidem). Continuar lendo