Protagonismo negro feminino e Literatura de Cordel: Jarid Arraes e as “Heroínas Negras Brasileiras”

ARRAES, Jarid. Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis. São Paulo: Seguinte, 2020.

O protagonismo das mulheres negras na história brasileira foi mitigado por séculos de regime escravocrata e pelo racismo. Delas, a cultura escrita muito pouco fixou, exceto quando apareciam como rebeldes, no caso de Dandara dos Palmares, ou extremamente sexualizadas, como Xica da Silva. Em decorrência dessa escassez de fontes, a tradição oral passada ao longo de gerações preservou as narrativas de algumas figuras importantes para a formação do país, como a princesa Aqualtune, a guerreira Maria Felipa e a rainha Tereza de Benguela. Graças aos debates em torno dos estudos de gênero, raça e classe, as trajetórias dessas mulheres têm sido constantemente revisitadas, à luz de conceitos modernos que buscam afastá-las de explicações reducionistas e preconceituosas. Infelizmente, essas discussões pouco atingem espaços para além dos muros das universidades. Somos assim forçados a consumir compêndios de história e livros escolares que quase nada dizem a respeito de tais figuras. Com base nisso, a escritora e cordelista cearense, Jarid Arraes, usou a Literatura de Cordel como instrumento para apresentar ao público de leitores as vidas formidáveis de 15 heroínas negras do nosso país!

Jarid Arraes

Ao utilizar a literatura de cordel como veículo de sua mensagem, Jarid se lançou numa empreitada duplamente importante: ela não só destaca o protagonismo de personalidades femininas negras, como também faz uso de um gênero de escrita muitas vezes marginalizado pelos estudos literários. Neta e filha de cordelistas, Jarid colocou em prática sua criatividade narrativa para nos contar as histórias de Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Esperança Garcia, Luísa Mahin, Maria Firmina dos Reis, Ná Agotimé, entre outras, de uma forma bastante envolvente. Através das páginas da obra, a autora deixa claro como sua experiência advinda dos tempos de aluna de colegial foi decisiva para que tomasse a decisão de escrever sobre as vidas de mulheres negligenciadas pelas estruturas patriarcais de poder, pelo positivismo do século XIX e/ou por uma historiografia predominantemente machista. Graças aos estudos decoloniais – que objetiva libertar a produção de conhecimento latino-americana de uma perspectiva eurocêntrica –, trabalhos como o de Jarid ganharam o merecido reconhecimento. Contribuiu para isso também os escritos engendrados por pesquisadoras negras, que problematizam o papel de suas ancestrais na sociedade brasileira.

Com aproximadamente 172 páginas, o livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis foi publicado em 2020 pela editora Seguinte, um selo do grupo Companhia das Letras. Na epígrafe do livro, Jahid dedica seu trabalho “às heroínas do presente, por acreditarem num futuro possível”. No texto de apresentação que aparece impresso na orelha do livro – que também serve como justificativa para os motivos que a levaram a se enveredar por essa trilha de desafios e aventuras – a autora diz:

Antes de chegar à idade adulta, nunca tinha ouvido falar de uma mulher negra que tivesse feito algo de importante na História. Durante toda a minha vida escolar e até mesmo nos conteúdos midiáticos de que me recordo, nunca me falaram de mulheres negras que fizeram grandes coisas pela humanidade ou que lutaram batalhas contra a escravidão no Brasil. […] Adulta, descobri nomes avulsos enquanto pesquisava sozinha, tentando resgatar minhas origens afro-brasileiras. O esquecimento dessas mulheres negras me fez decidir criar uma coleção de cordéis intitulada Heroínas Negras na História do Brasil.

Por meio de sua arte em rima, a autora conseguiu introduzir em escolas de todo o país a relevância tanto das mulheres negras que contribuíram para a construção da nação brasileira, quanto a importância da Literatura de Cordel, não só para a cultura nordestina (região da qual a autora pertence), como para o restante do país.

Com efeito, a primeira edição de Heroínas Negras contempla belíssimas ilustrações feitas por Gabriela Pires, que por si só já são um texto à parte. Pouco se sabe como a maioria das mulheres apresentadas ao público por Jarid se pareciam em vida. Nesse caso, a imaginação histórica da ilustradora tratou de apresentar uma versão verossímil, dando-lhes um rosto aliado a uma belíssima história para ser contada. No cenário nacional, a publicação de obras por autores negros e negras ainda é muito pouca, se comparada à quantidade de escritores brancos que são constantemente lidos e reeditados no país. A própria Conceição Evaristo, célebre por romances como Becos da Memória e Ponciá Vicêncio, nos conta em entrevistas como o reconhecimento de seu trabalho chegou de forma tardia, tendo sido publicado sumariamente por editoras pequenas. A despeito da relevância de escritores como Machado de Assis e Lima Barreto, só muito tempo depois foi que o público de leitores tomou conhecimento de Maria Firmino dos Reis, que pode ser considerada a primeira escritora negra do Brasil (autora de Úrsula, entre outras obras importantes), ou dos diários de Carolina Maria de Jesus.

Tais obras nos apresentam um triste painel da vida das mulheres negras brasileiras, dentro de um contexto predominantemente racista. Assim como suas antecessoras, o livro de Jarid Arraes também possui um caráter de denúncia, não só contra uma escrita eurocêntrica da história, mas principalmente contra o apagamento dessas heroínas da memória coletiva. No cordel dedicado a Maria Felipa, a escravizada que lutou na guerra de independência travada na província da Bahia em 1823, a autora escreve o seguinte:

Nos registros brasileiros

A injustiça predomina

E o danado esquecimento

Na injustiça se culmina

Pois ainda não se acha

Tudo o que se examina

Esquecidas da História

As mulheres inda estão

Sendo negras, só piora

Esse quadro de exclusão

Sobre elas não se grava

Nem se faz menção

(2020, p.97).

Capa de “Heroínas Negras Brasileiras”.

Não obstante, Jarid Arraes fez uma árdua pesquisa bibliográfica para a composição de seu livro. Contudo, devido à escassez de fontes sobre personalidades como a própria Maria Felipa, Esperança Garcia, Laudelina de Campos Melo, Tia Ciata e Zacimba Gaba, o trabalho de ficcionista da cordelista tratou de preencher as lacunas deixadas vacantes sobre a existência dessas mulheres. Ao final do livro, ela convida o leitor e a leitora a fazerem suas próprias pesquisas e praticarem sua criatividade na produção de um cordel sobre outra personalidade feminina que não teve seu merecido destaque nos compêndios de História do Brasil. Elas foram guerreiras, escritoras, políticas, mas, acima de tudo, um exemplo de coragem para todas e todos. Por meio das páginas de Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, o panteão de heroínas nacionais e a Literatura de Cordel ganhou assim uma grande e louvável contribuição.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

2 comentários sobre “Protagonismo negro feminino e Literatura de Cordel: Jarid Arraes e as “Heroínas Negras Brasileiras”

  1. Me alegra saber dessa obra contada em cordel já que esse tipo de literatura há tempos não se vê nas bancas de jornais e revistas. Eu particularmente, era leitor voraz desse tipo de literatura juntamente com minha tia ora falecida. Tentarei conseguir esse livro. Me congratulo com a escritora Jarid Arraes por colocar em evidência um assunto tão importante sobre nossos heróis negros, escritores e escritoras que nossa história tem omitido.

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  2. Felicidade em saber que hoje posso saber dessas heroinas do passado. Minhas antepassadas queridas, se estou aqui é gracas a voces, eterna gratidao!

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