O espelho da moda: a rainha Maud da Noruega e o esplendor da Era Eduardiana!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Durante séculos, a moda foi um veículo através do qual muitas mulheres da aristocracia conseguiram se expressar politicamente, dentro de um universo dominado pelas estruturas patriarcais de poder. Rainhas e princesas eram geralmente mais admiradas pelo que usavam do que pelos seus discursos. Dessa forma, elas se constituíam em uma espécie de espelho, cujo reflexo era projetado por meio revistas de corte e costura e reproduzido por outras damas das classes mais elevadas. No século XIX, soberanas como Eugénia de Montijo e Elisabeth “Sissi” da Áustria foram admiradas por sua beleza e bom gosto ao se vestirem. Seus modelos eram impressos em litogravuras e vendidos para os quatro cantos do mundo, chegando inclusive ao Brasil e preenchendo as vitrines das lojas de costureiras francesas da rua do Ouvidor. Na Inglaterra, a princesa Alexandra, ou Alix (como era chamada pelos seus familiares), estava sempre na vanguarda das tendências, lançando hábitos inovadores que, por sua vez, eram copiados por outras mulheres da corte e da família real, especialmente por suas filhas. Entre elas, destaca-se a princesa Maud de Gales, futura rainha consorte da Noruega, cujo estilo irreverente serviu de inspiração para muitos modistas do período.

As jovens filhas do rei Edward VII e da rainha Alexandra: Louise, Maud e Victoria. Pintura de Sydney Prior Hall, concluída em 1883.

Vestido de baile que pertenceu à rainha Maud da Noruega. O corte do traje segue a tendência em voga na moda feminina do início do século XX, também conhecido como Era Eduardiana.

Vestido de época usado pela então princesa Maud de Gales, no Devonshire Ball, em 1897.

A princesa Maud (ao centro) se fantasiou como “dama de companhia de Margarida de Valois”. Atrás dela, podemos ver seu jovem marido, o príncipe Carl.

Nascida em 26 de novembro de 1869, na Marlborough House, em Londres, Maud era a filha mais nova de Bertie, príncipe de Gales (futuro rei Edward VII) com a princesa Alexandra da Dinamarca. Batizada de Maud Charlotte Mary Victoria, a criança era aparentada com a mais fina flor da nobreza europeia, sendo neta da rainha Vitória pelo lado paterno e do rei Christian IX da Dinamarca pelo materno. Durante a infância, a pequena costumava fazer visitas na companhia de sua mãe ao reino dinamarquês, do qual Alexandra provinha, participando também de cruzeiros pela Noruega e pelo Mediterrâneo. Diferentemente de outras mães de príncipes e princesas, Alix redobrou seus filhos com amor e carinho maternal, algo que foi muito admirado pela sociedade do período e ajudou a construir uma ideia de maternidade durante a segunda metade do século XIX. Quando criança, Maud era considerada uma menina muito espevitada, que arrancava risos de seu pai, o herdeiro do trono. Na juventude ela chegou a servir como dama no casamento de sua tia Beatrice com o príncipe Henry de Battenberg, em 1885, e no casamento de seu irmão George (futuro George V), com a princesa Mary de Teck, em 1893.

Tal como suas irmãs mais velhas e outras mulheres da casa real antes dela, Maud foi educada para o casamento dinástico. Teve uma educação nos moldes criados pelo seu falecido avô, o príncipe Albert, aprendendo vários idiomas, entre as disciplinas básicas do currículo escolar. Fazia parte da educação feminina reservada às mulheres aristocráticas do período, por exemplo, o estudo de música, desenho e literatura. Assim, elas eram treinadas para se transformaram em esposas agradáveis para seus futuros maridos e causarem impacto nos salões de bailes, onde eram exibidas como uma espécie de reflexo da condição social do cônjuge. Quanto mais ricamente vestidas e paramentadas, melhor o status do casal era representado. Em 22 de junho de 1896, estando com 27 anos (uma idade considerada um pouco avançada para as noivas da época), Maud se uniu em matrimônio com seu primo, o príncipe Carl da Dinamarca, sobrinho da princesa Alexandra, na capela do Palácio de Buckingham. A rainha Vitória estava presente na cerimônia, assim como os pais na noiva. No ano seguinte, a soberana comemorou seu Jubileu de Diamante (60 anos de reinado), mas não viveu o suficiente para ver a chegada de Alexander, primeiro e único filho de Carl e Maud, nascido em 1903.

A princesa Maud de Gales pede a bênção da rainha Vitória para seu casamento com o príncipe Carl da Dinamarca. Os pais da noiva aparecem de pé, atrás da soberana e ao lado do príncipe dinamarquês. Pintura de Laurits Tuxen, finalizada em 1897.

Fotografia da rainha Maud, tirada em 1905.

Vestido usado por Maud de Gales em sua coroação como rainha consorte da Noruega, em 22 de junho de 1906.

A rainha Maud e o rei Haakon VII no dia de sua coroação, em 22 de junho de 1906.

Com a morte da rainha Vitória, em 22 de janeiro de 1901, o príncipe e a princesa de Gales ascenderam ao trono do Reino Unido como rei Edward VII e rainha Alexandra. Seu reinado, porém, seria breve, terminando em 1910 com a morte do rei e a ascensão de seu filho, George V. Por outro lado, durante os nove anos em que vigorou a chamada Era Eduardiana, Maud, suas irmãs e mãe eram consideradas verdadeiros exemplos em matéria de decoro e etiqueta. Elas ditaram os parâmetros para a moda feminina do período, com trajes que até hoje podem ser admirados por sua elegância. Felizmente, grande parte do guarda-roupas da princesa Maud de Gales se encontra preservada em museus noruegueses, passando-nos um testemunho do estilo da época. Em 1905, após a dissolução da união da Noruega com a Suécia pelo parlamento norueguês, o marido de Maud, então um oficial da Marinha Dinamarquesa, foi escolhido como novo soberano, ascendendo ao trono como Haakon VII. Contou a seu favor o fato de ser casado com a filha do monarca do Reino Unido da Grã-Bretanha. A partir de então, Maud se tornou rainha consorte da Noruega, sendo coroada ao lado do marido em 22 de junho de 1906.

Assim como suas primas Maria da Romênia, Vitória Eugénia da Espanha e Alexandra Feodorovna da Rússia, Maud foi uma das netas da rainha Vitória que tiveram um papel importante na política matrimonial estabelecida entre as casas dinásticas europeias. Em última análise, as rivalidades mantidas por essas famílias reais insuflaram as chamas do que mais tarde seria a Primeira Grande Guerra Mundial, em 1914. Embora ela nunca tenha deixado de se considerar britânica, a nova rainha se esforçou ao máximo para se adaptar aos costumes e hábitos da Noruega, comungando de suas tradições folclóricas e participando de atividades filantrópicas. Apesar de o teatro da corte lhe parecer por demais enfadonho, Maud desempenhou o jogo de cena com protagonismo, usando a moda e o brilho das joias a seu favor. Um exemplo disso pode ser obtido a partir dos registros da coroação dos novos monarcas, cuja pompa e circunstância foram únicas em toda a história daquele país. Maud estava ricamente vestida em um traje de tecido dourado, similar ao que sua mãe usara em sua própria coroação, ocorrida no dia 9 de agosto de 1902. A cintura delgada e o talhe de sílfide da esposa do rei Haakon VII podiam ficar ainda mais acentuados com o uso de espartilhos.

Vestido de seda azul, decorado com brilhantes e enfeites perolados, usado pela rainha Maud em 1909. O design da peça pertence à casa Laferriere, grife francesa fundada por Madeleine Laferriere e responsável pela confecção da maioria das roupas da aristocracia do período.

Traje de gala usado pela rainha Maud, possivelmente no ano de 1906.

Vestido usado pela rainha Maud entre 1906 e 1914.

A cintura delgada e o talhe de sílfide da esposa do rei Haakon VII podiam ficar ainda mais acentuados com o uso de espartilhos.

A escolha dos tecidos para a confecção dos vestidos, por sua vez, tinha o propósito de acentuar as diferenças entre as classes sociais. Na história da monarquia, materiais como seda, cetim e veludo eram de uso restrito a membros da nobreza e da realeza. Porém, com as revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX, a burguesia conseguiu difundir seus modos e hábitos até mesmo dentro das tradicionais família reais, a exemplo da inglesa. Nesse caso, o uso exagerado das joias por parte das rainhas e princesas buscava estabelecer um limite entre os padrões de vestuário da monarquia e aquilo que costumava ser utilizado pelas burguesas ricas. Por isso que observamos uma quantidade incomensurável de pérolas, diamantes, entre outras pedras preciosas, ornamentando o colo da rainha Alexandra e o de sua sucessora, a rainha Mary de Teck. Com a morte de Edward VII, sua finada esposa viveria tempo suficiente para presenciar a Revolução que colocou um fim na monarquia russa, culminando com o assassinato de seu sobrinho, Nicolau II, juntamente com a czarina Alexandra, filhas e filho. Com o término da Primeira Guerra, estavam desfeitos também tanto o império alemão, quanto o austríaco.

Enquanto isso, a rainha Maud nunca deixou de visitar Alexandra e as irmãs até a morte de sua mãe, em 1925. Sua última aparição pública na Inglaterra foi por ocasião da coroação de seu sobrinho, George VI, em 1937. Durante a cerimônia, ocorrida na Abadia de Westminster, Maud se sentou na tribuna ao lado de sua cunhada, a rainha-viúva Mary de Teck e de sua sobrinha Mary, princesa real. Seu irmão, George V, havia falecido em 1936, sendo então sucedido pelo filho mais velho e herdeiro, David, príncipe de Gales. Este, por sua vez, ascendeu ao trono como Edward VIII, mas seu reinado teria vida curta, durando apenas 11 meses. Depois de abdicar de seu papel como soberano para se casar com a socialite americana (duas vezes divorciada), Wallis Simpson, Edward passou a coroa para seu irmão, o duque de York. Estavam presentes na coroação do novo monarca e de sua esposa, Elizabeth Bowes-Lyon, as duas filhas do casal, as princesas Elizabeth (herdeira presuntiva) e Margaret. Embora tivesse apenas 11 anos na ocasião, a atual rainha Elizabeth II teve tempo para conviver um pouco com a rainha Maud da Noruega, especialmente durante as estadias de sua tia-avó na Inglaterra.

Atualmente, a fabulosa coleção de vestidos da rainha Maud se encontra em exposição no Museu Nacional da Noruega.

A rainha Maud da Noruega em trajes de luto pela morte de seu pai, o rei Edward VII, em 1910.

Felizmente, grande parte do guarda-roupas de Maud se encontra preservado em museus noruegueses, passando-nos um testemunho do estilo da época.

A rainha Maud da Noruega em 1914, ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial.

Sempre que viajava ao Reino Unido, Maud costumava se instalar no Palácio rural de Sandringham. Ela estava na Inglaterra quando, um ano após a coroação de George VI, sentiu fortes dores abdominais, sendo levada às pressas até uma casa de repouso em Londres, onde foi submetida a uma delicada cirurgia. Assim que soube das notícias do estado de saúde de sua esposa, seu marido, o rei Haakon VII, viajou imediatamente para a Inglaterra, encontrando Maud numa situação preocupante. Apesar de ter sobrevivido à cirurgia, a rainha acabou falecendo de insuficiência cardíaca no dia 20 de novembro de 1938 (seis dias antes de completar seu aniversário de 69 anos e na mesma data em que sua mãe, a rainha Alexandra, completou 13 anos de falecida). Quando de sua morte, Maud era a última filha sobrevivente de Edward e Alix. Seu corpo foi trasladado para a Noruega a bordo do HMS Royal Oak e depois sepultado no mausoléu real do Castelo de Akershus, em Oslo, capital da Noruega. Para a posteridade, ela deixou o exemplo de seu trabalho social e os despojos de uma Era de glamour e elegância que foram destruídos quando a primeiras bombas da guerra estouraram em 1914.

Referências Bibliográficas:

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

CARTER, Miranda. Os três imperadores: três primos, três impérios e o caminho para a Primeira Guerra Mundial. Tradução de Manuel Santos Marques. Alfragide, Portugal: Texto Editores, 2010.

HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios: 1875 – 1914. Tradução de Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

KENT, Princesa Michael de. Coroadas em terras distantes. Tradução de Maria João Batalha Reis. São Paulo: Ambientes e Costumes Editora, 2011.

MAUROIS, André. Depois da rainha Victoria, Edward VII: os anos que levaram à Primeira Guerra Mundial. Tradução de Vera Giambastiani. São Paulo: Globo Livros, 2014.

Queen Maud’s dresses. 2013 – Acesso em 15 de agosto de 2021.

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