Os amores de Pedro e Inês: a história da dama galega que conquistou o príncipe de Portugal – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Agora é tarde, Inês é morta”. Quantos de nós, ao pronunciarmos o famoso provérbio, não o relacionamos à figura que serviu de inspiração para sua criação? A frase encontra origem da famosa história embalada através dos séculos pela produção literária sobre Inês de Castro, possível esposa de D. Pedro I de Portugal. Os trágicos amores de Pedro e Inês se constituem em matéria prima para a mais sublime composição artística europeia, seja através da crônica, das trovas de Garcia de Resende ou dos versos de Camões, passando pela chamada pintura histórica, as artes dramáticas e até pelo espiritismo. A lenda da rainha que teria sido coroada depois de morta se tornou mundialmente famosa. Dona Inês de Castro é um dos raros exemplos de personagens que migraram do reino da história para o da ficção, ganhando uma quantidade considerável de súditos que não cansam de lhe render sincera homenagem. Mas tamanho interesse não é despropositado. Afinal, da forma como costuma ser narrada, sua trajetória possui contornos de amor, violência e morte. Três elementos que fazem ferver o imaginário coletivo, permitindo com que a vida de Dona Inês seja constantemente revisitada, na busca por se descobrir a mulher escondida por detrás da representação.

Retrato póstumo de Dona Inês de Castro, na Quinta da Regaleira, Sintra, Portugal.

Infelizmente, a historiografia dispõe de poucas fontes confiáveis sobre a vida de Dona Inês de Castro. Quase todos os cronistas do reinado de D. Pedro I de Portugal escreveram sobre os trágicos eventos de 1355 décadas depois que eles transcorreram. Não obstante, autores como Fernão Lopes, autor da Crónica de D. Pedro, ou Rui Pina, em sua Crónica de D. Afonso IV, assinalam o arranjo entre o herdeiro do trono e uma dama de origem bastarda como um mau negócio, que teria provocado o violento assassinato de Inês e o consequente conflito armado entre o príncipe e seu pai, o rei. Nesse contexto, a escrita de uma narrativa coesa sobre a vida e a morte da rainha póstuma de Portugal se constitui em tarefa bastante intricada. As lacunas deixadas pelas fontes foram preenchidas ao longo das eras pela ficção, de modo que hoje em dia é muito difícil separar o que é fato e o que é mito na vida da sobredita. Segundo Hérika Fernandes: “para se construir um mito, é necessário que primeiro haja registros históricos de um fato e, segundo, condições de funcionamento propícias para a mitificação desse fato” (2010, p. 31). Ao transformar fato em ficção, os autores que escreveram sobre a história de Pedro e Inês buscaram preencher com sentido as formas vazias de sua narrativa.

Dona Inês Pires de Castro nasceu numa época em que a violência praticada pelos homens contra as mulheres era vista como algo tolerável. Esposas consideradas adúlteras podiam ser agredidas por maridos ciumentos e a mancha na honra masculina era lavada com sangue feminino. A história portuguesa dispõe de alguns exemplos de mulheres que foram brutalmente assassinadas, como Maria Teles, morta por seu marido, o infante D. João, filho de D. Pedro I e Dona Inês. Por outro lado, conforme ressalta Sooraya de Medeiros:

Na sociedade medieval portuguesa do século XIV, podemos observar mecanismos que permitem à mulher nobre, apesar da subjugação, exercer um papel ativo em prol da manutenção do direito de disposição de seus bens. A mulher medieval portuguesa pode, por exemplo, fazer acordo de compra e venda, aforamentos, emprazamentos, o marido, segundo as leis reais, não pode vender os chamados bens de raiz sem sua autorização. Como a legislação do reino português se organizava também em função dos interesses do poder central e não somente da moral cristã, as mulheres detinham direitos que lhes permitia manterem autonomia e independência para disporem de seus bens (2008, p. 38).

Outro caminho que a mulher no reino português do século XIV dispunha para ascender socialmente era através dos casamentos dinásticos, que estabeleciam alianças entre importantes famílias nobres. Foi assim que o rei D. Afonso IV arranjou para seu filho e herdeiro, o infante D. Pedro, um matrimônio com Dona Constança Manuel, filha de D. João Manuel, príncipe de Vilhena e duque de Peñafiel. O acordo tinha como finalidade selar um pacto entre ambas as dinastias contra a ameaça representada pelo rei de Castela.

Nascido em 8 de abril de 1320, o futuro Pedro I de Portugal entrou para os arautos da história como “O Cru”, ou, dependendo da fonte, como “O Justo”. Foi a quarta criança gerada a partir do casamento entre o rei D. Afonso IV com a rainha Dona Beatriz de Castela. Duas filhas do casal se casaram com soberanos de reinos ibéricos: Dona Maria de Borgonha com D. Afonso XI de Castela e Dona Leonor de Borgonha com Pedro IV de Aragão. Essa intricada rede de alianças matrimoniais permitiu com que a família real portuguesa criasse vínculos com outras dinastias fixadas no território espanhol, algo que mais tarde teria um efeito desastroso para a política dos domínios envolvidos. Assim como suas irmãs, o Infante Pedro deveria tomar parte nesse jogo político. Aos 8 anos, ele foi prometido com palavras de futuro à sobrinha do rei Afonso XI de Castela, Dona Branca. O acordo chegou a ser ratificado depois em Coimbra com palavras de presente. Entretanto, por motivos pouco claros, ele foi posteriormente anulado sob alegações de que a noiva seria psicologicamente perturbada. Assim, o rei de Portugal firmou uma nova aliança para seu filho, desta vez com Dona Constança Manuel, filha de um proeminente nobre de Castela.

Retrato póstumo de D. Pedro I de Portugal, na Quinta da Regaleira, Sintra, Portugal.

Sendo assim, a jovem Constança, que havia sido preterida pelo rei D. Afonso XI de Castela e depois mantida prisioneira por este soberano, conseguiu chegar em segurança à corte portuguesa no ano de 1340, onde se reuniu ao marido com quem já estava casada por procuração há dois anos. No seu séquito de damas, encontrava-se uma jovem galega “dotada de estremada graça, gentileza e disposição”, razões pelas quais ficou conhecida como “collo de Garça” e chamou a atenção do príncipe. Seu nome era Inês, filha natural de Pedro Fernandes de Castro (conhecido como o da Guerra)­ com Aldonça Valadares. Nascida provavelmente no ano de 1325 em Monteforte (na Província de Vigo), Inês descendia de uma ilustre linhagem de reis castelhanos, como D. Sancho IV (1257-1295), seu bisavô. Não obstante, seu pai tinha servido como mordomo-mor de D. Afonso XI de Castela. Ao final do século, os Castro eram uma das famílias mais proeminentes da nobreza castelhana e portuguesa, devido aos acordos matrimoniais firmados com ambos os reinos. A linhagem floresceu através de Álvaro Pires de Castro, irmão de Dona Inês, que se tornou conde de Arraiolos, primeiro condestável de Portugal, alcaide-mor de Lisboa e valete de D. Fernando I.

Durante a infância, Inês foi criada por Dona Teresa de Albuquerque, casada com D. Afonso Sanches, filho natural do rei D. Dinis e, portanto, meio-irmão de D. Afonso IV de Portugal. Apenas alguns anos antes, estes dois irmãos haviam entrado em disputa pelo trono, culminando com o exílio de D. Afonso Sanches para Castela, juntamente com outros filhos bastardos de D. Dinis. D. Pedro Fernandes de Castro, que era sobrinho do falecido rei de Portugal, ficou do lado de Afonso Sanches contra o novo monarca e recebeu igual punição. Assim, vivendo exilada e aos cuidados de Dona Teresa em Castela, é de se supor que Inês tenha recebido a mesma educação reservada às mulheres nobres do período, aprendendo as chamadas prendas doméstica, como administrar uma casa e seus rendimentos, a leitura e a escrita. Conforme ressalta Sooraya Karoan, em Portugal do século XIV “as crianças do sexo feminino alcançam a maioridade, tornam-se donas, entre as idades de doze e quatorze anos. O casamento da dona era realizado entre os quatorze e dezesseis anos…” (2008, p. 39). Apesar de sua origem bastarda, Dona Inês de Castro foi educada no seio de uma família com posses, condição que lhe recomendava como dama no séquito da futura esposa do príncipe D. Pedro.

Se pudermos confiar nas datas fornecidas pela crônica e pelas interpretações das fontes, Inês teria aproximadamente 15 anos quando chegou a Portugal acompanhando Dona Constança. Já estava, portanto, em uma idade casadoura e sua posição como dama da princesa lhe abria possibilidades para um bom casamento com algum membro da corte. Sua beleza loura e exuberante, porém, teria encantado ao próprio infante e provocado ciúmes na esposa deste. Rui Pina, que escreveu sobre esses eventos quase um século depois, disse que a infanta percebeu que seu marido “queria bem” a Inês e, temendo que a tomasse por amante, convidou-a para ser madrinha do primeiro filho do casal, o Infante Luís. Uma vez ligados por esse parentesco religioso, Dona Constança certamente esperava que não se desenvolvesse entre ambos quaisquer tipos de ligação amorosa. Na opinião de Terezinha Maria de Brito:

A história de Pedro e Inês se desenvolveu de acordo com os paradigmas do amor cortês, que tem como uma de suas tensões amorosas o finis amoris, ou seja, a relação que tende a se acabar porque é impossível se realizar. Mas esse amor não se limitou à breve vida de Inês, ao contrário, se estendeu após sua morte e se tornou imortal. No túmulo de Inês foi gravada a inscrição “Até ao fim do mundo” como simbologia do amor verdadeiro e eterno. Mais parece o verso de uma canção cortês feita por um trovador apaixonado confessando a intensidade do seu amor a uma dama idealizada (2006, p. 52).

Com efeito, uma série de forças trabalhavam para que o romance entre Pedro e Inês não fosse adiante. Malogradas as tentativas de Dona Constança para os separar, uma vez que o infante D. Luís morreu poucos dias depois de nascido, tampouco era do interesse do rei D. Afonso IV que seu filho tomasse por amante uma dama cuja família possuía tantas ambições, não só em Portugal como também no reino vizinho de Castela.

Litogravura póstuma de D. Afonso IV de Portugal, feita em 1621.

O pensamento patriarcal herdado da antiguidade clássica concedia aos príncipes a prerrogativa de possuir quantas amantes desejassem. Agindo desse modo, davam ao mundo um testemunho de sua virilidade, especialmente se essas amantes produzissem filhos. Muitos foram os bastardos reais que tiverem participação ativa na política e não raro acabavam herdando os bens paternos. Em Portugal, por exemplo, o próprio D. Afonso IV havia enfrentado seus irmãos bastardos em uma disputa pela coroa. Nesse caso, a ligação entre o herdeiro do trono e Dona Inês preocupava ao rei não só porque ela insultava a João Manuel de Castela, pai de Dona Constança, como também se constituía em uma ameaça aos fidalgos da corte portuguesa, especialmente os nobres da família Pacheco, que temiam a influência que os Castro pudessem vir a exercer sobre o futuro soberano. Além disso, havia o fato de que um dos antepassados da dama, D. Fernando Rodrigues de Castro, comandara uma invasão contra Portugal através do Minho, em 1337. Diante desses impasses, o monarca resolveu a questão expulsando a jovem para o exílio em Albuquerque, na atual província de Badajoz. Ali, ela ficou novamente sob a proteção da tia, Dona Teresa, na época uma mulher viúva.

Apesar da distância, isso não foi impedimento para que os apaixonados deixassem de manter contato. Conforme ressalta Fernão Lopes, Pedro “nunca cessava de lhe enviar recados”. Por outro lado, Maria Leonor Machado de Sousa ressalta que não existem registros sobre a personalidade de Dona Inês. As fontes se limitam a dar como razão para a paixão de D. Pedro apenas a beleza da jovem, que parece se tratar de algo unânime entre os cronistas. Todavia, nenhum retrato contemporâneo dela sobreviveu aos dias de hoje. Com exceção de sua efígie tumular em Alcobaça, todas as representações de Inês são posteriores ao período em que ela viveu e pouco servem como indício de sua aparência. Para Maria Leonor:

De facto, Inês de Castro é uma figura que só chegou até nós em atitudes passivas: foi trazida no séquito de uma princesa, foi exilada por um rei, mandada regressar por um príncipe e por ele aposentada sucessivamente em diversas povoações, onde a tradição quase nada fixou, até ser morta por razão de uma vaga desconfiança política que a argumentação histórica muitas vezes tem posto em causa (2020, p. 11).

Com efeito, essa imagem de Dona Inês como figura passiva convive lado a lado com outra imagem: a de uma mulher manipuladora, que teria usado sua influência junto ao príncipe para promover o interesse de seus irmãos e familiares. “Para além dela, é tão verossímil a moça frágil e ingênua que se perdeu de amor como a intriguista artificiosa e cheia de ambição que alguns historiadores nela quiseram ver, a vítima dócil de um decreto inabalável ou a mulher segura de si e do seu direito de viver” (SOUSA, 2020, p. 11).

Pedro e Inês, por Ernesto Condeixa.

Na crônica medieval portuguesas, as mulheres da realeza ora aparecem como santas, a exemplo da rainha Isabel de Aragão ou da rainha Beatriz de Castela, ora como pecadoras. Nesse último quesito, encaixam-se figuras como Dona Teresa de Leão, a própria Inês de Castro e Dona Leonor Teles. Mulheres que, conforme acrescenta Carlos Roberto Nogueira, supostamente representaram “uma ameaça direta à sobrevivência do território português e a sua incorporação ao hegemônico reino de Castela” (2008, p. 43). Afastando Inês da corte, o rei certamente esperava sossegar os nobres inconformados com aquele caso amoroso do príncipe. Enquanto D. Pedro se correspondia secretamente com a amada com a ajuda de mensageiros de sua confiança, ele retomou suas obrigações conjugais. De seu casamento com Dona Constança, nasceu a infanta Dona Maria (possivelmente em 1342) e o futuro D. Fernando I de Portugal, em 1345. As evidências parecem apontar para a morte prematura da princesa em 1349, durante o parto de uma filha natimorta. Viúvo, o príncipe não viu mais qualquer impedimento para retomar suas relações com a exilada Inês, colocando-a sob sua proteção. A paixão logo se tornou pública, causando escândalo entre a nobreza da época e prejudicando as pretensões de D. Afonso IV de casar novamente seu filho com uma dama de sangue real.

Referências Bibliográficas:

BENEVIDES, Francisco da Fonseca. Rainhas de Portugal: as mulheres que construíram a nação. 4ª ed. Queluz de Baixo, Portugal: Marcador Editora, 2011.

BRITO, Terezinha Maria de. Inês de Castro: Uma rainha encantada no imaginário. Graphos. João Pessoa, v. 8, n.1, p. 51-58, jan./jul. 2006.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: Abril Coleções, 2010.

FERNANDES, Hérika. Inês de Castro, a rainha póstuma: a permanência do mito – uma análise semiótica. Littera Online. Maranhão, v. 1, n. 2, p. 31-42, jul./dez. 2010.

MEGIANI, Ana Paula Torres; SAMPAIO, Jorge Pereira de (Orgs.). Inês de Castro: a época e a memória. São Paulo: Alameda, 2008.

OLIVEIRA, Ana Rodrigues. Rainhas medievais de Portugal: 17 mulheres, 2 dinastias, 4 séculos de História. Lisboa, Portugal: A Esfera dos Livros, 2010.

OLIVEIRA, António Resende de. As vidas de D. Pedro e de D. Inês de Castro na historiografia medieval portuguesa.  In: COLÓQUIO INÊS DE CASTRO NO CONTEXTO PENINSULAR DO SEU TEMPO, 1, 2005, Monteromor-o-Velho, Portugal. Anais eletrônicos. Monteromor-o-Velho: Guarecer on-line, 2005.

SOUSA, Maria Leonor Machado de. Inês de Castro: um tema português na Europa. 3ª ed. Lisboa, Portugal: Caleidoscópio, 2020.

VASCONCELOS, António de. História de Portugal: Inês de Castro. Matosinhos, Portugal: QuidNovi, 2004.

ZAGNI, Rodrigo Medina. Inês é morta! A tragédia de Inês Pires de Castro entre a narrativa literária e a História. Revista de História e Estudos Culturais. Uberlândia, v. 5, n. 3, p. 1-17, jul./set. 2008.

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