Inscrições secretas no livro de orações que Ana Bolena usou antes de sua execução são reveladas!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma inscrição secreta foi descoberta no livro de orações que Ana Bolena costumava ler, antes de ser executada por ordens de Henrique VIII. Decapitada em 19 de maio de 1536, Ana se tornou a primeira rainha na história inglesa a sofrer tal penalidade. Após ter sido condenada quadro dias antes por crimes como traição, adultério e incesto, ela entregou “corajosamente” seu pescoço para a espada do carrasco, conforme foi registrado pelas testemunhas presentes na Torre de Londres naquele momento. Segundo se conta, antes de morrer a vítima dividiu os poucos objetos que estavam em sua posse entre as dama que a acompanharam nos dias de encarceramento. Em meio a esses itens, havia um livro de orações em tamanho de bolso, que atualmente se encontra em exposição no castelo de Hever, lar ancestral da família Bolena. Nas páginas ilustradas da obra, uma inscrição escondida: “Lembre-se de mim quando estiver orando” e “que a esperança o guie no dia-a-dia”.

Iluminuras do livro de orações de Ana Bolena, com representações do nascimento e morte de Jesus Cristo.

A historiadora Kate McCaffrey usou raios ultravioleta e um software de edição de imagem para revelar os nomes das mulheres leais à rainha para quem seus partidários transmitiram secretamente o livro, a despeito da ordem régia para que todas as posses da vítima fossem destruídas. Pesquisando no castelo de Hever por mais de um ano, McCaffrey encontrou em dois livros de orações (que se acredita ter pertencido a Ana), os sobrenomes das seguintes famílias: Gage, West e Shirley (de Sundridge, perto de Sevenoaks). Esses três nomes giram em torno de um quarto, a família Guildford de Cranbrook, em Kent. As inscrições estavam tão desbotadas, que eram quase invisíveis a olho nu. Segundo a pesquisadora:

É claro que este livro foi transmitido entre uma rede de conexões confiáveis, de filha para mãe, de irmã para sobrinha. Se o livro tivesse caído em outras mãos, quase certamente perguntas teriam sido levantadas sobre a presença remanescente da assinatura de Ana. […] Em vez disso, o livro foi passado com cuidado por um grupo de mulheres, principalmente encarregadas de guardar a assinatura de Ana e encorajadas a adicionar a sua própria. […] Em um mundo com oportunidades muito limitadas para mulheres se envolverem com religião e literatura, o simples ato de marcar este livro e manter o segredo de sua usuária mais famosa foi uma pequena forma de gerar um senso de sororidade e expressão.

Pouquíssimos livros contendo a assinatura de Ana Bolena sobreviveram aos dias de hoje. Dois deles, que foram estudados por Kate McCaffrey, estão em exposição no castelo de Hever, enquanto um terceiro é mantido na Biblioteca Britânica. A pesquisadora acrescenta: “Foi incrivelmente emocionante e surreal descobrir essas inscrições apagadas e um privilégio absoluto restaurar os nomes de seus autores, recuperando suas histórias. O que talvez seja mais notável é que essas inscrições são desconhecidas e não foram estudadas por tanto tempo”. Para David Sanderson, do London Times , a maioria dos nomes de famílias inscritos no livro estão ligados direta ou indiretamente aos Bolena, graças ao seu parentesco com Elizabeth Hill , que foi uma das companheiras de infância de Ana.

A historiadora Kate McCaffrey pesquisou o livro de orações de Ana Bolena para sua dissertação de mestrado.

Com efeito, a historiadora Kate McCaffrey supõe que esse círculo de mulheres do período Tudor manteve o livro de orações em segurança para proteger a memória de uma amiga que havia sido injustamente perseguida, dentro de uma sociedade dominada pelo poder do patriarcado. A família Hill, por sua vez, também está ligada diretamente à futura rainha Elizabeth I, que tinha apenas 2 anos quando sua mãe foi morta. A filha de Elizabeth Hill, Mary, trabalhava na casa da princesa e desfrutava de sua companhia. “É provável que Elizabeth tivesse conseguido segurar este livro”, especula McCaffrey. Uma geração depois de sua morte, Ana Bolena deixou de ser uma espécie de pária social, transformando-se na mãe da monarca reinante. “O que torna o livro tão perigoso de preservar (sua associação com Anne), na verdade se torna o principal motivo para preservá-lo quando Elizabeth I chega ao trono [em 1558] e deseja que sua mãe seja lembrada”.

A historiadora Kate McCaffrey usou raios ultravioleta e software de edição de imagem para revelar os nomes das mulheres leais à rainha, para quem os partidários de Ana Bolena transmitiram secretamente o livro.

McCaffrey estudou os livros para sua dissertação de Mestrado em Estudos Medievais e Modernos, na Universidade de Kent. O Dr. David Rundle, orientador de Kate, disse:

O sonho de todo estudante de pós-graduação é descobrir informações anteriormente ocultas sobre uma figura histórica conhecida. A energia e a iniciativa de Kate permitiram que ela fizesse exatamente isso, mesmo no auge da pandemia, quando as bibliotecas estavam fora do alcance de todos os pesquisadores. O que ela descobriu tem implicações potenciais e altamente significativas para nossa compreensão sobre Ana Bolena e sua reputação póstuma.

É possível que as autoridade da Torre de Londres acreditassem que no momento após Ana Bolena fazer seu discurso de despedida e dispor dos bens que trazia consigo, um arauto real chegaria com uma mensagem emitida pelo rei, suspendendo a execução. Talvez tenha sido por isso que não foi providenciado um caixão para seu corpo. Diante de alguns espectadores, Ana proferiu suas palavras finais, ajoelhou-se e o carrasco então decepou a cabeça da vítima de um só golpe de espada. Em seguida, os despojos da segunda esposa de Henrique VIII foram depositados dentro de um baú de madeira para flechas, encontrado no arsenal. Ela foi sepultada no pavimento do altar da capela de St. Peter Ad Vincula, na Torre de Londres, local onde seu corpo jaz até os dias de hoje. O castelo de Hever, lar de sua infância, foi reaberto aos visitantes na segunda-feira, dia 17 de maio de 2021. Os ingressos devem ser  pré-reservados.

Fontes:

Evening Standard – Acesso em 21 de maio de 2021.

I News – Acesso em 21 de maio de 2021.

Smithsonian Magazine – Acesso em 21 de maio de 2021.

The Times – Acesso em 21 de maio de 2021.

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