Esplendor Imperial: Como Catarina a Grande utilizou as joias para projetar uma imagem de poder!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 22 de setembro de 1762, a imperatriz Catarina II da Rússia entrou suntuosamente vestida para sua cerimônia de coroação. O evento secular era de suma importância para a confirmação do czar no trono russo. Sendo assim, a nova soberana não pretendia se furtar de qualquer um de seus pormenores. Usando um vestido de brocado de prata e um manto debruado com arminho, ela desceu as escadarias do Kremlin em direção às portas do palácio, onde uma multidão lhe aguardava na praça central. Depois de um padre tocá-la na testa com água benta, a monarca recebeu as homenagens de outros clérigos da Igreja Ortodoxa. Em seguida, ela adentrou a Catedral da Assunção, que rebrilhava de luzes. Sentando-se no trono forrado de veludo vermelho no centro da Catedral, Catarina levantou a pesada coroa de quatro quilos e meio que ela mandara confeccionar especialmente para essa ocasião e, conforme o costume, coroou-se imperatriz de todas as Rússias. Estava no auge de sua glória, vestida com os mantos sagrados da realeza e reluzente com o brilho do ouro e dos diamantes. A composição dessa imagem tinha por intenção traduzir o poder e sacralidade da soberana diante de seus súditos.

Vestido debruado em prata, que Catarina II usou no dia de sua coroação, em 22 de setembro de 1762. A peça atualmente se encontra em exposição no Museu do Kremlin.

Réplica da Coroa imperial russa, encomendada por Catarina II para sua coroação em 1762. Atualmente em exposição no Kremlin.

Catarina II da Rússia entrou para a história como uma das maiores governantes do século XVIII. Mas sua faceta política encobre um aspecto muito curioso acerca de sua personalidade: ela também foi uma colecionadora compulsiva. Desde suntuosas obras de arte à vasta coleção de joias que ostentou durante toda a sua vida pública, ela personificou o esplendor da dinastia Romanov em sua melhor fase. A fabulosa Coroa Imperial, símbolo definitivo de sua soberania, foi encomendada por Catarina a Ivan Betskoy, seu conselheiro. Na descrição de Robert K. Massie:

Na forma de uma mitra bispal, era encimada por uma cruz de diamantes sobre um imenso rubi de 389 quilates. Abaixo, 44 diamantes com mais de dois centímetros cada cobriam a faixa horizontal que encobriam a cabeça e o arco central onde se apoiava o rubi, com as laterais que envolviam toda a coroa repletas de uma massa sólida de diamantes menores. De cada lado do arco central, 38 pérolas rosadas circulavam a coroa, da testa à nuca (MASSIE, 2013, p. 336).

Depois de coroar a si mesma, a esplendorosa figura da imperatriz, assim composta, pegou o orbe com a mão esquerda e o cetro com a direita. Em seguida, olhou tranquilamente para o público da catedral, oferecendo-lhes a visão de sua soberania. Infelizmente, a Coroa Imperial de Estado foi uma das poucas joias usadas por Catarina II que sobreviveu intacta aos dias de hoje. A peça também esteve presente na coroação de todos o czares russos que a sucederam no trono até Nicolau II.

Retrato de Catarina II da Rússia, pintado por Fyodor Rokotov (c. 1770). Esse visual opulento tinha um efeito bastante estarrecedor aos olhos do políticos e dos militares, que não raro se sentiam intimidados na presença da soberana.

Chamada de Catarina, a Grande, por seu amigo Charles-Joseph, sétimo príncipe de Ligne, a imperatriz deixou para a posteridade um legado cultural duradouro. Ela não só foi uma das principais expoentes da monarquia feminina na história moderna, como também adorava debater com pensadores e filósofos, a exemplo de Voltaire e Diderot, empurrando assim o Império Russo para a Era do Iluminismo. Aliada a essas facetas, surge também a figura de uma Catarina faminta por requintados artigos de decoração, como móveis, porcelanas, trabalhos em vidro e metais ornamentados. Mas, principalmente, ela era uma ávida consumidora de joias caras e suntuosas, muitas das quais podem ser vistas nos seus retratos. Diz-se que sua coleção de ouro e pedras preciosas cresceu tanto, que um quarto do Palácio de Inverno foi inteiramente reservado para seu armazenamento. Rebatizado de Sala Brilhante, o local continha vários armários de vidro onde ficavam expostos seus muitos anéis, colares, pulseiras, cintos de espada, caixas de rapé, entre outros tesouros. O visitante alemão Johann Georgi assim descreveu o lugar:

Seu quarto é como um caixa de joia de valor inestimável. A regalia é colocada em uma mesa sob um grande globo de cristal, através do qual tudo pode ser examinado em detalhes… As paredes da sala são revestidas com armários de vidro contendo inúmeras peças de joalheria cravejadas de diamantes e outras pedras preciosas, bem como insígnias e retratos de Sua Majestade Imperial, caixas de rapé, relógios e instrumentos de desenho de correntes, anéis de sinete, pulseiras, cintos de espadas e outros tesouros de valor inestimável entre os quais a Imperatriz escolhe presentes para dar (apud SCARISBRICK, 2016).

Com efeito, algumas das peças criadas para a imperatriz da Rússia incluíam camafeus inspirados no designe bizantino, grego e romano, com figuras em baixo-relevo entalhadas. Assim, ela procurava estreitar seus laços com a cultura ocidental. Essas peças tinham por finalidade não apenas enfeitar a figura da soberana em bailes oferecidos na corte, como também desempenhavam uma função importante na sua vida política. Catarina as usava constantemente quando se reunia com ministros, generais e em encontros com outros chefes de Estado. As pedras preciosas eram costuradas nos seus vestidos, trespassados com fios de pérolas naturais. Quanto mais largas eram ancas das saias de uma mulher aristocrática, mais poderosa ela pareceria aos olhos do observador. Na maioria dos casos, a abertura das portas dos palácios e mansões precisavam ser dilatadas, para permitir a passagem das nobres com suas roupas. Os cabelos da imperatriz eram igualmente enfeitados com joias e pérolas e a cabeça era coroada com uma rica tiara kokoshnik. Esse visual opulento tinha um efeito bastante estarrecedor aos olhos do políticos e dos militares, que não raro se sentiam intimidados na presença da soberana.

A Coroa Nupcial foi feita em 1884 com diamantes que fizeram parte das joias encomendadas por Catarina, a Grande, em 1767. Agora está no Hillwood Estate, Museum, and Gardens, em Washington D. C.

Colar em forma de arco com um laço de diamantes que pertenceu à Catarina II da Rússia.

Um exemplo do que acaba de ser dito no parágrafo anterior é um colar de diamantes em formato de arco, que foi leiloado pela Sotheby’s Genebra em 2016. Com enormes receitas e a riqueza mineral dos Urais ao seu dispor, a fortuna de Catarina era imensurável. Dos seus joalheiros favoritos, destacava-se Leopold Pfisterer, que ao lado do genebrino Jérémie Pauzié e seu sócio, Louis David Duval, comandou a empresa Louis David Duval and Son. Em 1792, ela transferiu sua Sala Brilhante para um local mais espaçoso, decorado em estilo neoclássico e com pinturas de Antony van Dyck e com o célebre relógio Peacock, de James Cox, ocupando o centro do lugar. Sob seu patrocínio, os ourives de São Petersburgo, Paris e Berlim, aperfeiçoaram a arte de esmaltar objetos, produzindo requintadas caixas de rapé. O inventário dos pertences da imperatriz, realizado em 1789 (mesmo ano da Revolução Francesa), listava algumas das joias mais deslumbrantes criadas no século XVIII. Enquanto o país ainda estava assentado no regime da servidão, com uma sociedade baseada em estamentos, Catarina II da Rússia reinava soberana sobre quase 1/6 da superfície da Terra. Porém, no reino da França, o povo se levantava contra o seus soberanos justamente por causa desse estilo de vida dispendioso, que contrastava com a pobreza do Terceiro Estado.

Embora governasse um império que se estendia da Polônia à Sibéria, Catarina perguntava se teria sido capaz de fazer mais por seus domínios caso tivesse nascido homem. Diante desse questionamento, o príncipe de Ligne respondeu: “Acredite em mim, você é muito mais impressionante em sua bela dolman ou túnica de veludo laranja-avermelhado bordada, do que um homem vestido com botas e faixa de ombro poderia ser. Além disso, os cinco enormes diamantes brilhando em seu cabelo são muito mais eficazes do que um chapéu masculino, que é ridiculamente pequeno ou ridiculamente grande”. Durante seus últimos anos de vida, a aparência imponente da soberana não esmoreceu. Conforme relatou a artista francesa Elizabeth Vigée Lebrun, que fugiu da França após a Revolução:

Embora não fosse alta, com sua cabeça ereta, olhos de águia e semblante tão acostumado a comandar, tudo era tão simbólico da majestade com que ela se mostrava, que era como se ela fosse a rainha do mundo. Ela usava as fitas das três Ordens sobre um vestido de nobre simplicidade. Consistia num dolman de veludo vermelho sobre uma túnica de musselina branca, bordada a ouro com largas mangas pregueadas, virado para trás à moda oriental. Em vez de fitas, os mais belos diamantes foram espalhados sobre o adereço cobrindo seus cabelos brancos (apud SCARISBRICK, 2016).

Destarte, a czarina considerava as joias tão importantes quanto exércitos para traduzir seu poder como monarca de direito divino. Ela nunca participava de uma reunião com generais sem estar ornamentada com suas preciosas esmeraldas. Uma delas era a famosa pedra Golconda, que lhe foi dada por um de seus ex-amantes, Grigory Orlov. Atualmente, a peça se encontra em exposição no Kremlin Diamond Fund. Depois da morte da imperatriz, suas joias foram consideradas exageradas demais para o gosto do século XIX e desmontadas para a fabricação de novas peças. Um exemplo é a famosa coroa nupcial dos Romanov, feita em 1884 para a czarina Maria Feodorovna (esposa do czar Alexandre III) a partir de diamantes que foram originalmente encomendados por Catarina II, em 1767. Há também um relógio pendente de ouro cravejado de rubis, com um monograma da imperatriz. Ele foi um presente para sua neta, a grã-duquesa Maria Pavlovna, que se casou com o grão-duque de Saxe-Weimar em 1804. O relógio esteve em posse de família até o ano de 1949, quando foi então vendido.

A esmeralda neste colar pertenceu a Catarina, a Grande, e fez parte da coleção imperial russa por mais de 100 anos. Foi vendido por $ 4 milhões na Christie’s.

Perfil de Catarina II da Rússia em 1763, por Fyodor Rokotov. Os cabelos da imperatriz eram enfeitados com joias e pérolas e a cabeça era coroada com uma rica tiara.

De acordo com o Dr. Wilfried Zeisler (curador-chefe do Hillwood Estate, Museum & Gardens), que estudou as joias de Catarina II e sua função como demonstração de poder: “Em muitos de seus retratos, a imperatriz Catarina, a Grande da Rússia, é frequentemente pintada usando joias fabulosas, que se tornaram parte associada de sua iconografia”. Segundo o especialista, “a partir de 1762, ela foi frequentemente retratada envergando peças históricas das joias da coroa russa, que usou durante sua prodigiosa cerimônia de coroação em Moscou naquele mesmo ano. Suas joias serviam como símbolos do poder imperial e como meio de justificar sua posição após um golpe de estado”. Com efeito, a iconografia escolhida pela imperatriz ia muito além da mera autoprojeção de sua imagem. Ela também queria se associar ao ethos iluminista do período, assumindo seu papel como déspota esclarecida. “Catarina também foi representada usando joias modernas, ilustrando seu gosto pelo design clássico inspirado na antiguidade grega e romana”, explica o Dr. Wilfried Zeisler. “Semelhante a uma filósofa, Catarina se definiu como uma déspota iluminada e foi chamada de ‘Semíramis da Rússia’ pelo filósofo francês Voltaire, referindo-se à lendária rainha da Babilônia.”

Não obstante, Catarina II tinha um amor desmedido pelas esmeraldas. Sabe-se que a Rússia possuía algumas das maiores jazidas desse mineral em todo o mundo. A pedra ornamentava muitas das joias da czarina, como um exemplar de 108 quilates que foi vendido à joalheria Cartier em 1927. Com a Revolução Russa de 1917, muitos dos tesouros dos Romanov foram apropriados pelos bolcheviques e depois vendidos anonimamente para outras parte da Europa, com exceção da Coroa Imperial, que permaneceu no país devido à sua importância histórica. Em 1927, a Christie’s realizou um leilão com muitas peças que pertenceram à última dinastia imperial. Partes das esmeraldas que um dia ornaram a figura de Catarina, a Grande, foram vendidas pela impressionante soma de 1,6 milhões de dólares (um broche) e  4,3 milhões (um colar). Assim, aquilo que restava da fabulosa coleção da soberana (que quase dois séculos antes deslumbrava o observador na Sala Brilhante do Palácio de Inverno), se dilapidou com o tempo. Contudo, o legado político e cultural de Catarina II permaneceu, assim como o imaginário de suas riquezas, provocando um misto de revolta e fascínio onde quer que sua história seja contada.

Referências:

BURROW, Rachel. An Intimate Look Inside the Powerful Jewelry Collection of Catherine the Great. 2020. – Acesso em 30 de abril de 2021.

MASSIE, Robert K. Catarina, a Grande: retrato de uma mulher. Tradução de Ângela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

SCARISBRICK, Diana. Imperial Splendour: Catherine II & Her Jewellery. 2016. – Acesso em 30 de abril de 2021.

VOLANDES, Steellene. How Catherine the Great Used Her Magnificent Jewels to Project Power. 2020. – Acesso em 30 de abril de 2021.

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