Vicky, Alice, Helene, Louise e Beatrice: as filhas da rainha Vitória (uma introdução)!

Por: Renato Drummond T. Neto

Entre os anos de 1840 e 1857, a rainha Vitória do Reino Unido deu à luz nove crianças, (cinco meninas e quatro meninos) que, por sua vez, espalharam sua linhagem por diversas monarquias do continente europeu. Através dos chamados casamentos dinásticos – prática muito recorrente entre as famílias reais até o século XIX –, a Coroa Britânica estabeleceu uma intrincada rede de conexões com outros países, quebrada apenas por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Nesse quesito, as princesas tinham um papel de suma importância. Educadas desde cedo para servir aos interesses do Estado em território estrangeiro, elas eram enviadas para reinos longínquos após contrair matrimônio com outros membros da realeza. Ali, elas serviam não apenas como esposas e mães de futuros príncipes, mas também como representantes diretas de seu reino nativo. Passada uma geração, essa rede de conexões tecida a partir do casamento de Vitória e Albert foi se ramificando de forma tão extensiva, a ponto de a rainha ficar conhecida no final de sua vida como a “avó da Europa”. Atualmente, muitas casas reinantes podem retraçar sua ascendência até a velha monarca, falecida em 21 janeiro de 1901. Seu legado, contudo, foi mantido aceso graças ao trabalho de suas filhas e netas, que tomaram nas mãos a tarefa de compor a narrativa de sua vida.

Retrato de Victoria, Princesa Real, pintado por Winterhalter em 1857.

O primeiro descendente de Vitória e Albert nasceu poucos meses depois de seu casamento, em 10 de fevereiro de 1840. Não era o esperado príncipe de Gales, e sim uma princesinha a quem a rainha deu à luz no dia 21 de novembro. Batizada de Victoria Adelaide Mary Louisa, ela logo se tornou a queridinha de seus pais. Para distingui-la da mãe, apelidaram-na de Vicky. Após seu nascimento, a criança recebeu o status de Princesa Real, titulação que geralmente é concedida à filha mais velha de um monarca e possui caráter vitalício. Com efeito, a educação da princesa não deixou nada a desejar à de seu irmão, nascido no ano seguinte. Apaixonado pela erudição, o príncipe Albert quis que a filha aprendesse não apenas as tarefas que se esperava de uma futura esposa, tais como trabalhos de costura, desenho e música, mas também se dedicasse ao estudo de idiomas, Literatura, Ciências da Natureza, História e Geografia. Em todas essas áreas, Vicky demonstrou um desempenho prodigioso, recebendo muitos elogios da família. Quando se tornou uma jovem, Vitória solicitava constantemente sua presença em eventos e viagens ao exterior, como a que fizeram a Paris em 1855. Na ocasião, com quase 15 anos, a filha primogênita da rainha ficou encantada com a beleza e o estilo da imperatriz Eugénia de Montijo, em quem se inspirava.

Pouco depois, Vicky conheceu no castelo de Balmoral seu futuro noivo, o príncipe Frederico da Prússia. Ele propôs casamento à princesa depois de ficar três dias instalado com a família real, em 1855. Embora fossem muito apegados à filha e relutassem diante da ideia de vê-la partir tão cedo, Vitória e Albert concordaram com a união, mas apenas quando a princesa completasse 17 anos. O matrimônio aconteceu no dia 25 de janeiro de 1858, na Capela Real do Palácio de St. James, em Londres. As fotos da cerimônia apresentam a rainha desfocada, de tão nervosa que ela ficou na ocasião. Em seguida, Vicky foi embora para Berlim, onde assumiria suas funções como princesa coroada da Prússia. Numa carta bastante interessante endereçada à filha, Vitória a alertava sobre os prazeres e desprazeres da vida de casada:

Agora para responder à sua observação de que achaste que uma mulher casada tem mais liberdades do que uma solteira; em um sentido da palavra, ela tem, – mas o que eu queria dizer – num ponto de vista físico – e se você tiver doravante (como eu tive constantemente pelos dois anos do meu casamento) – dores – e sofrimentos e misérias e pragas – com as quais você precisa lutar contra – e prazeres, etc., para abandonar – precauções constante para tomar, você sentirá o arreio de uma mulher casada! (apud GILL, 2009, p. 169).

Vicky engravidou poucos meses depois de seu casamento. Em 27 de janeiro de 1859, ela deu à luz ao futuro imperador Guilherme II da Alemanha. Ao todo, ela e Frederico teriam 8 filhos em um rápido espaço de tempo, emulando assim a sucessão de partos da própria rainha Vitória. Sua vida como princesa coroada da Prússia, porém, não foi das mais felizes. Logo chegou aos ouvidos da rainha na Inglaterra a notícia de que sua filha mais velha recebia dos prussianos o mesmo tratamento xenofóbico que os franceses concederam à Maria Antonieta. Sua relação com Guilherme tampouco era das melhores, algo que se intensificou após a morte de Frederico em 15 de junho de 1888 (99 dias após ser aclamado imperador). O novo kaiser deliberadamente afastou a mãe de qualquer participação na política. Ela faleceu solitária no ano de 1901, em decorrência de um câncer de mama, poucos meses depois da morte de sua mãe.

Retrato da princesa Alice, pitando por Winterhalter em 1861.

Ao longo da vida, Vitória e Vicky mantiveram uma ávida correspondência. Existem ao todo cerca de 4000 cartas trocadas entre ambas, conservadas em arquivos ingleses e alemães. A princesa coroada costumava fazer visitas frequentes à sua família na Inglaterra e não raro atuava como casamenteira para seus irmãos mais novos, inspecionando potenciais noivas e noivos. Foi assim que Vicky arranjou um matrimônio ente o príncipe de Hesse e Reno e sua irmã, Alice. Nascida em 25 de abril de 1843, a segunda filha do casal Vitória e Albert era uma menina de natureza cândida e bastante atenciosa. Durante a enfermidade do príncipe consorte, em dezembro de 1861, Alice esteve constantemente do lado de seu leito, servindo-lhe de enfermeira. Em decorrência disso, a rainha Vitória passou a nutrir um carinho especial por essa filha, visitando-a com alguma frequência no grão-ducado de Hesse-Darmstadt, onde Alice se tornou princesa consorte. O casamento dela com o futuro Luís IV de Hesse aconteceu em 1 de julho de 1862, em Osborne House. O clima da cerimônia estava mais próximo de um velório do que para um matrimônio, em decorrência da morte recente de Albert. Alice logo trocou o branco do vestido de noiva pelo preto do luto. Depois disso, partiu com o marido.

A ausência de outra filha fez com que a rainha Vitória refletisse mais sobre a natureza dos casamentos dinásticos. Sabendo das agruras que Vicky passava na Prússia, a soberana começou a procurar por pretendentes mais próximos e de menor status para suas três filhas mais jovens, de modo que elas permanecessem perto da mãe. Alice e Luís foram pais de 7 crianças, incluindo um filho hemofílico, Frederico (que morreu aos dois anos de idade) e da futura imperatriz da Rússia, Alexandra Feodorovna. Admiradora de Florence Nightingale, ela atuou como enfermeira durante a guerra levada à cabo pelos prussianos para abocanhar uma parte do ducado de Hesse. Além disso, era uma defensora da amamentação materna em uma época em que outras mulheres da nobreza entregavam seus filhos para amas de leite. A tristeza, porém, parecia perseguir a princesa inglesa. Depois de assistir à morte de seu pai e de seu filho, Alice observou consternada toda sua família ser acometida por um surto de difteria, em 1878. Ela cuidou zelosamente de cada um deles, mas seus esforços foram incapazes de salvar a vida da filha mais jovem, May. Infelizmente, enquanto os doentes convalesciam, a grã-duquesa também foi contaminada pela enfermidade. Não resistindo, ela faleceu aos 35 anos em 14 de dezembro, na mesma data em que seu pai morrera 17 anos antes.

Retrato da princesa Helene, pintado por Winterhalter em 1861.

Ao saber da notícia, a rainha Vitória ficou despedaçada, lamentando a perda desta filha “tão querida, inteligente e distinta, de bom coração e espírito nobre”. A soberana então dedicou a seus netos órfãos de mãe uma atenção redobrada, visitando-os constantemente em Hesse e se preocupando com sua educação. Por aquela época, duas das três filhas remanescentes de Vitória já haviam contraído casamento. A primeira delas foi a princesa Helene, chamada carinhosamente pela família de Lenchen. Nascida no palácio de Buckingham em 25 de maio de 1846, Helene se mostrou uma eficaz defensora do direito das mulheres, o que contrariava bastante sua mãe. Embora fosse uma soberana reinante, Vitória nunca simpatizou com o movimento sufragista, que ganhava cada vez mais adesão entre as trabalhadoras das fábricas e as mulheres da classe média. Identificada com os ideais de emancipação feminina, Lenchen desde cedo demonstrou um comportamento intrépido e não se deixava intimidar na presença de seus irmãos, muito menos na de outros homens. Ela compartilhava com o pai os interesses pela ciência e tecnologia e adorava passeios de barco e equitação. Em 5 de julho de 1866, se casou com o príncipe dinamarquês Cristiano Carlos Augusto de Eslésvico-Holsácia.

Como filho mais jovem do duque de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Augustemburgo, Cristiano teve autorização do pai para viver com a esposa no Reino Unido. Essa condição foi imposta pela própria rainha Vitória, que não queria ver partir mais esta filha para uma terra distante. Apesar da diferença de idades (Cristiano era 15 anos mais velho que Helena), o casal parecia desfrutar de perfeita harmonia conjugal e tiveram cinco filhos. Assim como suas irmãs mais velhas, Lenchen tinha um grande interesse pela enfermagem e chegou a ser presidente da Associação de Enfermeiras Britânicas, defendendo o registro de sua profissão, assim como uma educação mais apropriada para aquelas mulheres que dedicavam suas vidas ao cuidado do próximo. Entre outras atividades, ela foi presidente da Escola de Arte e Costura, que proporcionava empregos para muitas mães de família que precisavam contribuir para a renda doméstica. Dedicou-se também à tradução de obras da literatura alemã para o inglês e, até a morte da rainha, permaneceu quase que como uma secretária extraoficial para ela, escrevendo cartas e passagens do diário pessoal da soberana. Infelizmente, Helene permanece como a mais esquecida entre as filhas de Vitória, eclipsada pelo brilho artístico de sua irmã mais nova, Louise. Ela faleceu aos 77 anos, em 9 de junho 1923.

Fotografia da princesa Louise, tirada em 1887.

Com efeito, a quarta das filhas da rainha Vitória e do príncipe Albert teve uma existência tão atribulada quanto a de suas irmãs e, em certos sentidos, mais infeliz. Nascida em 18 de março de 1848, Louise recebeu uma educação requintada, que a preparou para o papel de consorte real. Na juventude, teve aulas de escultura e chegou a fazer uma estátua em mármore de sua mãe, que hoje se encontra em frente ao palácio de Kensington. Até o seu casamento com John Campbell, IX duque de Argyll, em 1871, ela serviu como secretária extraoficial de Vitória, acompanhando-a em visitas e eventos oficiais. Tal como sua irmã Helene, Louise se identificava com a luta pelos direitos das mulheres, especialmente o sufrágio feminino, fazendo com que Vitória procurasse logo um marido para ela, na esperança de ver dissipadas tais inclinações. Infelizmente, seu matrimônio, como tantos outros na realeza, se mostrou uma união desastrosa. A princesa não era feliz com John Campbell e o casal jamais chegou a ter filhos (dizem que ela era apaixonada por seu professor de escultura). Louise então canalizou suas frustações e tristezas para algo mais produtivo, como a arte e as obras de caridade. Em 1878, seu marido foi nomeado governador-geral do Canadá. Assim, ela foi a primeira (e única) das filhas da rainha Vitória a viajar para o continente americano.

De volta ao Reino Unido, o casal Argyll continuou a ter uma vida reclusa. A ausência de filhos gerou uma série de boatos sobre a vida privada dos dois, embora nada tenha sido comprovado. Depois da morte da mãe, Louise desempenhou cada vez menos deveres oficiais para com a Coroa. Ela faleceu em 3 de dezembro de 1939, aos 91 anos. Destino bem diferente teve sua irmã mais jovem, Beatrice. A quinta e última filha da rainha Vitória e do príncipe Albert nasceu no palácio de Buckingham, em 14 de abril de 1857. Na ocasião, a soberana já estava com quase 38 anos e precisou usar o clorofórmio para entorpecer as dores do parto. Vitória considerava o estado de gestação a pior fase do corpo feminino. Depois de engravidar nove vezes, ela desenvolveu um prolapso uterino e uma hérnia de ventre, que se agravaram com o seu gradual excesso de peso. Assim que Beatrice veio ao mundo, o médico da soberana a aconselhou a não mais passar por outra gestação, pois a próxima poderia ser fatal. “Então não posso mais me divertir na cama?”, foi a pergunta bem-humorada da rainha Vitória para seu médico. A pequena princesa, entretanto, não desfrutou da companhia paterna por tanto tempo quanto seus irmãos e, de todos eles, foi a que mais sentiu o estigma do luto da soberana pelo falecimento do príncipe consorte, em 14 de dezembro de 1861.

Retrato da princesa Beatrice, pintado por Heinrich von Angeli em 1875.

Vitória se apegou à pequena Beatrice mais do que a qualquer um de seus outros filhos. A criança podia ser vista constantemente ao lado da mãe, principalmente durante as visitas que a monarca fazia à exilada imperatriz dos Franceses, Eugénia de Montijo. Com o passar do tempo, uma pequena atração surgiu entre a princesa e Napoleão Eugênio, príncipe imperial. Mas, infelizmente, qualquer possibilidade de união entre os dois desapareceu com a morte prematura do príncipe, em 1879, enquanto ele lutava pelos ingleses na África do Sul contra o povo Zulu. Em 1885, Beatrice, já com 28 anos, se casou contra a vontade da mãe com o príncipe Henry de Battenberg. Vitória teria ficado 6 meses sem falar com a própria filha por causa dessa decisão e só concordou com o casamento se os noivos vivessem com ela no Palácio de Buckingham. O casal teve quatro filhos, incluindo a rainha Vitória Eugênia da Espanha. Até o falecimento da mãe, Beatrice foi a sua principal companhia. Uma de suas últimas atitudes antes de morrer em 1944 foi editar todos os diários da rainha Vitória, apagando as passagens que ela considerasse comprometedoras (principalmente os trechos sobre a amizade da monarca com seu vassalo, John Brown, e com o indiano Abdul Karim). Os originais, por sua vez, foram destruídos pela princesa, para que a humanidade jamais conhecesse a mulher Vitória Hanôver, escondida por baixo dos mantos sagrados da realeza.

Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

GILL, Gillian. We two: Victoria and Albert: rulers, partners, rivals. New York: Ballantine Books, 2009.

LONGFORD, Elizabeth. Queen Victoria: born to succed. New Yor:  Haper & Row, 1964.

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

PACKARD, Jerrold M. Victoria’s daughters. New York: St. Martin Press, 1998.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Um comentário sobre “Vicky, Alice, Helene, Louise e Beatrice: as filhas da rainha Vitória (uma introdução)!

  1. Sobre o casamento da Princesa Luise do Reino Unido, diz-se também que John Campbell, seu marido,era homossexual. Por esse motivo, a Princesa Louise teve vários amantes e, com um deles, teve um filho fora do casamento. Durante a gravidez, a Princesa Louise foi escondida para que não fosse vista grávida pelo público. Quando a criança nasceu, a Rainha Victoria ( mãe de Louise) ordenou que a criança fosse dada para adopção .A criança foi adoptada por um dos médicos da família real britânica

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