Olímpia de Épiro: a poderosa rainha da Macedônia que forjou Alexandre, o Grande – Parte II

Por: Renato Drummond T. Neto

Até hoje, não está claro se a rainha Olímpia da Macedônia teve ou não participação no assassinato de seu marido, Felipe II, em 336 a.C. Conforme os séculos se passaram e estes se transformaram em milênios, a espessura do tempo foi deixando cada vez mais opaca a interpretação dos acontecimentos. Já foi imputado a Olímpia o uso de venenos e poções para se livrar de seus rivais e se sabe que ela era uma árdua defensora dos direitos de Alexandre ao trono greco-macedônio (apesar de Felipe ter um filho mais velho). As evidências indicam que o regicídio foi um crime premeditado, uma vez que havia cavalos esperando o assassino do rei, que deveriam ser utilizados na sua fuga. Diz-se que o próprio soberano temia a esposa, por considerá-la uma mulher ligada ao sobrenatural. Mas, como esclarece Martha Robles, “em um ambiente regido pelos preconceitos, pelo destino e pelas traições, é bastante crível que a religiosidade se mesclasse ao manejo arbitrário de artimanhas, e que as conveniências ajudassem a suprir conchavos políticos mediante a força de predições domésticas” (2019, p. 149). Embora Olímpia tivesse razões de sobra para eliminar Felipe, deixando o caminho livre para seu filho se tornar rei, o fato é que muitos desejavam a morte do soberano, especialmente os gregos, que esperavam se ver livres do julgo macedônio.

Marfim da tumba III, em Vergina, possivelmente representando Filipe e Olímpia como deuses e o jovem Alexandre como Pã.

Na opinião de Plutarco, a rainha não teria sido a responsável direta pela morte do marido, embora ele considere a possibilidade de ela ter incitado Pausânias a cometer o regicídio. Assim que Alexandre se tornou rei da Grécia e da Macedônia, ele rapidamente conseguiu sufocar quaisquer tentativas de revoltas por parte dos gregos. Por segurança, ele também mandou executar Átalo, que certa vez ofendera sua legitimidade ao trono. Ele seguida, ele ordenou à mãe que eliminasse o filho recém-nascido de Felipe com Cleópatra Eurydice, para que não houvesse quem disputasse o trono consigo. Olímpia, por sua vez, foi ainda mais longe:

Olímpia, obedecendo muito de bom grado, também deu cabo da própria Cleópatra e de sua filha pequena. Este ato lhe rendeu uma severa reprimenda de Alexandre, sempre atento à sua imagem pública: nem Cleópatra nem Europa eram uma ameaça à sucessão, e o assassinato delas gerava, portanto, uma publicidade negativa desnecessária. Alexandre então rapidamente arrematou sua campanha de pacificação e fez uma marcha forçada para o sul, numa velocidade que abalou mesmo os veteranos de Felipe (GREEN, 2014, p. 41).

Em 334 a.C., Alexandre liderou uma força combinada de gregos e macedônios rumo à Ásia. Olímpia sempre incentivou o filho a acreditar que ele estava destinado a conquistar o Império Aquemênida, também conhecido como Primeiro Império Persa. Ele deixou o general Antípatro sobre o controle na península grega, enquanto Olímpia permaneceu na Macedônia. Já sua irmã, Cleópatra, residia em Molóssia, ainda casada com o tio. Em 331 a.C., Alexandre finalmente derrotou o rei Dario III na batalha de Gaugamela e marchou triunfante sobre a cidade da Babilônia, capital do Império.

Buscando sempre mais poderes do que aqueles que lhe haviam sido concedidos, Olímpia começou a escrever cartas para o filho, aconselhando-o a confiar menos nos seus generais, especialmente em Antípatro. Este, por sua vez, também fez queixas ao rei sobre a ambição da rainha-mãe. Temendo que Olímpia pudesse emaranhar as teias políticas e militares que ele vinha cuidadosamente tecendo, Alexandre fez ouvidos moucos para as súplicas dela. Em vez disso, cumulava-a de presentes sempre que obtinha uma nova vitória. Diz-se que a casa de Olímpia, na Macedônia, era decorada com vários artigos de luxo, oriundos dos saques realizados pelo rei em cada território conquistado. Em homenagem ao filho, a rainha fazia várias oferendas ao oráculo de Delfos e em Atenas. Mas, quanto à queda de braço com Antípatro, Olímpia foi forçada a retroceder. Ela regressou até Molóssia, onde sua filha deu à luz um herdeiro para o trono. Em 334 d.C., o rei Alexandre de Épiro partiu para uma campanha militar na Itália, onde veio a falecer, deixando sua jovem esposa viúva. Assim, Cleópatra se viu na importante posição de regente durante a menoridade do filho. Para tanto, ela contou com o apoio incondicional de sua mãe, uma mulher experiente e versada na arte da política.

Olímpia apresenta seu jovem filho Alexandre, o Grande, a Aristóteles. Tela de Gerard Hoet, c. 1733.

Quando, em 325 d.C., o relacionamento de Antípatro com Alexandre se deteriorou em decorrência de rebeliões deflagradas por todo o império, Olímpia aproveitou a oportunidade para criar com Cleópatra uma facção contra o general. Como consequência, a rainha-mãe ficou com o controle da região do Épiro, enquanto sua filha permaneceu com o domínio da Macedônia. Segundo o relato de Plutarco, Alexandre teria parabenizado a matriarca por sua escolha, uma vez que os macedônios dificilmente tolerariam ser governados por ela. Antípatro, por outro lado, foi convocado pelo próprio rei a se juntar a ele na Babilônia, depois de sua malsucedida campanha na Índia. Com a moral do exército em baixa e motins ocorrendo em todas as partes, o poder de Alexandre minguava gradativamente. Poucos meses depois, em junho de 323 d.C., o soberano faleceu de forma repentina, aos 32 anos. Arrasada pela notícia, Olímpia teria responsabilizado Antípatro pela fatalidade, uma vez que vários de seus filhos serviam ao rei, a exemplo de Cassandro. Teria o maior líder militar da antiguidade sido assassinado com uso de veneno em uma conspiração envolvendo seus homens de confiança? Sua mãe assim parecia acreditar, bem como muitos de seus seguidores.

Todavia, da mesma forma como a trama por trás do assassinato de Felipe II permanece um mistério, o mesmo pode ser dito acerca da morte de Alexandre. Com a perda de seu filho, Olímpia se viu desprotegida e em uma posição extremamente precária. Como sua nora, Roxanne, estava prestes a dar à luz um herdeiro do monarca, foi decidido que a criança governaria ao lado de seu tio, Felipe III Arideu (que havia sido originalmente afastado como sucessor de seu pai devido a problemas mentais). Nos meses seguintes, Roxanne pariu um menino, nomeado Alexandre, como o pai. A sucessão parecia estar garantida, não fosse a ambição dos próprios generais do falecido soberano. Eles se dividiram em quatro facções rivais e lutaram ferozmente para estabelecer controle sobre o império. Como Antípatro recebeu o domínio sobre a Macedônia, Olímpia se manteve a uma distância considerável dele, no seu reino natal de Molóssia. Ela então convidou Roxanne e o bebê Alexandre IV para junto de si, onde estariam protegidos. Como precisava do apoio militar de sua família, a rainha concordou com que seu sobrinho, Aeacides, se tornasse co-rei com seu neto. Em 319 d.C., Antípatro morreu, nomeando o velho general Poliperconte como seu sucessor no governo da Macedônia, em vez do próprio filho, Cassandro.

Alexandre VI nos braços de sua mãe, Roxanne, por Alessandro Varotari.

Em outros tempos, Poliperconte havia servido ao próprio Felipe II e ofereceu proteção à rainha-viúva e ao seu neto, Alexandre IV, convidando-os a retornar para a Macedônia. De sua parte, o general experiente sabia que uma aliança militar com Olímpia e sua família poderia ajudá-lo a minimizar a ameaça representada por Cassandro. Conforme ressalta Peter Green: “Embora estivesse correto na sua suposição de que esta vingativa matriarca faria qualquer coisa para ver seu neto no trono da Macedônia, ele quase sempre subestimou até que ponto ela estava disposta a chegar” (2014, p. 64). Um fator decisivo na aliança entre Poliperconte e Olímpia era o medo que o general tinha de que Felipe III Arideu e sua esposa Adea Eurídice, que apoiava Cassandro, assassinassem Alexandre IV. No outono de 317, a rainha-viúva apareceu à frente de um exército marchando sobre a Macedônia, com seu sobrinho Aeacides e o general Poliperconte no seu encalço. Diante da visão da mãe de Alexandre, as tropas de Eurídice abaixaram suas armas e Olímpia prontamente ordenou a execução de Felipe III, enquanto sua esposa foi forçada a cometer suicídio. O historiador grego Duris de Samos, escrevendo na época em que esses eventos transcorreram, batizou esse episódio de a primeira guerra entre mulheres.

Soberana destemida e consciente de seu poder e influência, Olímpia estava disposta a lutar pelos direitos de seu neto como certa vez fizera pelos de seu filho. Porém, seu sucesso não foi duradouro. Cassandro, que derrotou Poliperconte na região do Peloponeso, marchou em seguida até ao norte para fazer um cerco contra Olímpia em Pidna. Sitiada pelo exército inimigo por todos os lados e com seus soldados morrendo de fome, ela foi forçada a se render em maio de 316 d.C. Durante as negociações de rendição, tentou-se um acordo no qual a rainha-viúva sairia com vida, mas esse termo foi ignorado. Ardiloso, Cassandro convocou para o julgamento da mãe de seu antigo suserano todos os parentes das vítimas que morreram por suas ordens. Ela deveria, portanto, pagar por seus crimes com a própria vida. Segundo os registros, Olímpia se entregou à morte com a mesma coragem com que sempre travou suas batalhas. Como os antigos soldados de Alexandre se recusaram a executar a sentença, Cassandro então deu ordem para que as famílias das vítimas da rainha apedrejassem-na até morrer. A Olímpia, que sempre foi uma mulher religiosa e devotada ao deus Dioniso, estava reservada uma última humilhação: foram-lhe negados até mesmo os ritos funerários dignos de uma pessoa na sua posição.

Cassandro e Olímpia. Pintura de Jean Joseph Taillasson (1745-1809).

Em contrapartida, a Felipe III Arideu e a Aeda Eurídice foram concedidos funerais com honras de Estado. Cassandro tomou sob sua proteção a guarda de Roxanne e Alexandre IV, mantendo-os bem afastados, em Anfípolis. Após ordenar a reconstrução de Tebas, ele se casou com uma das filhas de Felipe II, fruto da união do antigo rei com uma tessália. Assim, ele pretendia reforçar sua reivindicação ao império construído por Alexandre através do matrimônio com um membro da família real. Em 310 d.C., seis anos após a execução de Olímpia, Cassandro também ordenou a morte de Roxanne e de seu filho de 13 anos, o verdadeiro herdeiro do império. Dois anos depois, Antígono, outrora general de Alexandre e governante da Ásia Menor, ordenou que um grupo de mulheres assassinassem Cleópatra, irmã do finado monarca. Assim, a dinastia Argéada, da qual pertenciam Felipe II e seus sucessores, terminou. Com a morte de Olímpia, acabou-se qualquer possibilidade de sobrevivência da Casa Real. Mas, graças ao seu exemplo, uma longa tradição de mulheres passou a disputar o poder nas monarquias helenísticas, liderando exércitos e participando ativamente no palco dos principais acontecimentos políticos que marcaram a antiguidade clássica greco-romana.

Referências Bibliográficas:

CARNEY, Elizabeth. Olympias, the mighty mother of Alexander the Great. 2019 – Acesso em 21 de abril de 2021.

GREEN, Peter. Alexandre, o Grande: e o período helenístico. Tradução de Rafael Mantovani. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

PLUTARCO. Alexandre e César: as vidas comparadas dos maiores guerreiros da antiguidade. São Paulo: Nova Fronteira, 2016.

ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. Tradução de William Lagos e Débora Dutra Vieira. 3ª ed. São Paulo: Aleph, 2019.

WASSON, Donald L. Olympias. 2013 – Acesso em 21 de abril de 2021.

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