Os Romanov: a saga de uma família imperial – Parte I

Por: Giovanna Rodrigues

Os Romanov nos trazem inúmeras imagens e pensamentos românticos. Neles, somos capazes de visualizar personalidades dignos de contos de fadas: uma família composta por um casal apaixonado, quatro lindas e imaculadas princesinhas e um menino em trajes de marinheiro. Mas, por trás dessa imagem temos uma família moderna e unida. Os Romanov de certa forma ficaram presos no tempo, causando uma fascinação duradoura pelas inúmeras fotografias que mostram uma família feliz, se divertindo e se amando. O que nos atrai nessa família não é a tragédia, e sim a felicidade, o amor, a união e a admirável fé entre eles.

Foto oficial do noivado entre Nicolau e Alexandra, feita em Coburg, no ano de 1894 (colorização: Kilmbim).

No dia 14 de novembro de 1894, uma jovem princesa tímida e obscura se unia em matrimonio com o tzarevich Nicolau Alexandrovich Romanov. Este era como um príncipe dos clássicos contos de fadas, dotado de beleza, inteligência e gestos gentis. O amor compartilhado pelo casal era admirável, de um doce e terno sentimento que foi se transformando em algo mais avassalador e devoto. A felicidade de ambos parecia não ter fim e o futuro supostamente os destinava a uma vida cheia de felicidade e amor.

Nicolau, o jovem tzar da Rússia Imperial, era um homem altura mediana, dotado de notória beleza e charme. Seus dotes intelectuais eram grandes: dominava o inglês, russo, alemão e francês; possuía uma memória aguçada; era um grande leitor e estudioso. Sem dúvidas, um príncipe digno de contos de fadas! Em contrapartida, a nossa princesa (agora Alexandra Feodorovna) era alguém difícil de decifrar, mas por trás da grande timidez se encontrava uma jovem amável, inteligente e religiosa. O casal realmente se completava. Viviam um relacionamento terno, estreito e apaixonado. Seus sentimentos estão imortalizados pelas inúmeras cartas escritas entre ambos. Alexandra anotou o seguinte no diário de Nicky:

Finalmente unidos, ligados para toda a vida, e quando esta vida acabar, nos encontraremos no outro mundo e ficaremos juntos pela eternidade… Jamais acreditei que pudesse haver tão absoluta felicidade nesse mundo, tamanho sentimento de unidade entre dois mortais. Eu amo você, essas três palavras têm nelas a minha vida (apud MASSIE, 2014, p.66-7).

Com efeito, Nicolau também compartilhava do amor pela sua esposa. Em seu diário datado no último dia de 1894, ele menciona: “Deus me enviou uma felicidade com que nunca ousei sonhar, ao me dar Alix” (apud MASSIE, 2014, p.67).

Ambos tiveram suas próprias experiências ao longo de suas vidas, que os fizeram tomar a decisão de ter um verdadeiro lar apenas deles. Sendo assim, partiram da agitada São Petersburgo e se refugiaram em Tsárksoe Seló, mais especificamente no Palácio Alexandre. Por de trás desta bela construção neoclássica, estava um lar familiar quase burguês. Tanto Nicolau como Alexandra rejeitavam o luxo excessivo dos palácios e preferiram algo mais simples e prático; a mobília era tipicamente inglesa, vinda do fornecedor Maples; cada cômodo da residência estava coberto por inúmeros retratos familiares, quinquilharias baratas e variados ícones ortodoxos; os papeis de parede eram simples. Para muitos, o interior do Palácio se assemelhava a um hotel de segunda categoria.

A rotina do casal era quase como a de um casal burguês inglês, algo muito surpreendente para os tzares que governavam aproximadamente 1/6 da superfície da Terra.  Nicolau se dedicava aos compromissos e negócios do Estado em uma pequena sala, que ficava ao lado do cômodo em que Alexandra tentava aprender russo. Entre os compromissos, ele tentava arrumar tempo para ficar ao lado dela. Durante a noite, Nicky lia em francês para Alix. Inicialmente liam os contos de Alphonse Daudet e sobre Napoleão em Santa Helena.

A felicidade de ambos pareceu aumentar quando Alix apresentou sintomas de uma gravidez. Seu mundo se iluminou. Alix estava muito animada com a ideia de ser mãe e o bebê se mostrava cada vez mais agitado e ativo em seu ventre. A própria Alix descreve essa sensação em uma carta para seu irmão, Ernie:

Que alegria deve ser ter um doce bebezinho todo seu… Não vejo a hora de Deus nos agraciar com um também- será uma tal felicidade para meu estimado Nicky […] ele carrega tantas tristezas e preocupações que a chegada de um bebezinho todo seu o alegrará […] Meu pequenino pula como louco, às vezes, e me deixa com vertigem, e me dá pontadas quando vou passear lá embaixo (apud RAPPAPORT, 2016, p.52).

A rotina da futura mamãe se baseava quase sempre no repouso e às vezes ela caminhava ou passeava de carruagem com Nicolau. No meio-tempo, estava sempre tricotando roupinhas, costurando colchas, pintava e/ou desenhava.

Da esquerda para a direita: Maria, Tatiana, Anastásia e Olga.

Na manhã de 3 de novembro de 1895, uma colossal menina de 4,5 quilos nasceu. Era a primeira e adorada filha de Nicky e Alix, a pequena Olga, que foi um raio de sol para o casal. O recém papai se mostrou muito feliz: “Um dia de que me lembrarei para sempre” (apud RAPPAPORT, 2016, p.54). Ambos os pais não se decepcionaram pelo fato de a criança não ser um menino, sendo que a própria Alexandra escreveu sobre isso: Para nós, o sexo não faz diferença, nossa filha é simplesmente um presente de Deus.” (apud RAPPAPORT, 2016, p.55). Tanto Nicolau como Alix estavam decididos a cuidar de sua pequena filha: davam banho, cantavam canções de ninar e quando a pequena dormia, Alix se sentava ao lado do berço para tricotar roupinhas. Nicolau registrava detalhadamente todos os acontecimentos da vida da filha, como quando ele ajudou a dar comida e banho, quando ela dormiu a noite toda, o nascimento dos primeiros dentinhos, as primeiras fotos dela, as roupinhas que vestia.

Alexandra, por sua vez, se mostrou uma mãe muito cuidadosa e amável. Ela própria amamentava a filha (embora sempre com uma ama de leite russa de reserva), tinha algumas babás para lhe auxiliar (sendo uma delas enviada pela própria rainha Vitória). Pouco tempo depois, outra menina estava a caminho. Em Peterhof, nasceu Tatiana, uma linda menina parecida com a mãe, pesando 3,9 quilos. Nicolau se mostrou feliz com a filha: O segundo dia luminoso e feliz em nossa vida familiar […] Deus nos abençoou com uma filhinha- Tatiana” (apud RAPPAPORT, 2016, p.67).

O boudoir malva de Alexandra se tornou o quarto em que passava maior parte de seu tempo, agora com duas filhas para cuidar. O cômodo era repleto de vasos de flores, como rosas, frésias, orquídeas e lírios-do-vale. A mobília era bastante modesta, sendo pintada de branco. Havia também painéis de madeira creme, cortinas de seda opalescente cinza, almofadas de renda; o divã ficava escondido atrás de um biombo de madeira. Alexandra sempre tinha à mão um cesto com brinquedos e jogos para suas filhas. As duas meninas eram a vida de seus pais, conforme o próprio Nicolau revelou para sua mãe, a imperatriz-viúva Maria Feodorovna:

Nossas filhinhas estão crescendo e se transformando em garotinhas deliciosamente alegres…Olga fala igualmente em russo e inglês e adora a irmãzinha. Achamos Tatiana, compreensivelmente, uma criança muito linda, seus olhos ficaram escuros e grandes. Ela está feliz e chora apenas uma vez por dia, infalivelmente, após o banho, quando lhe dão de comer (apud RAPPAPORT, 2016, p.69).

No início de novembro de 1898, Alexandra mostrava sinais de uma terceira gravidez. Ela ficou bastante debilitada, mas seu esposo cuidava dela de forma carinhosa e devotada. Nicolau a empurrava em sua bath chair e lia diariamente para ela romances como Guerra e Paz e uma biografia de Alexandre I.

A vida das duas menininhas era simples e alegre. Elas brincavam no andar de cima e depois faziam uma ceia nos aposentos infantis. Em seguida, eram levadas para ver seus pais, um momento de grande felicidade para Alexandra, que recebia suas filhas aos beijos. Os quartos das meninas eram bem modestos, iluminados e espaçosos, com enfeites de cretone florido e a mobília de madeira clara e polida. Em 14 de junho de 1899, por volta do início de tarde, uma linda menina de 4,5 nasceu, batizada de Maria. O pai se mostrou um pouco decepcionado depois de uma longa caminhada solitária. Após isso, mandou um bilhete para sua esposa:

Não ouso me queixar nem um pouco, conhecendo tamanha felicidade no mundo, tendo um tesouro como você, minha adorada Alix, e agora meus três querubins. Do fundo do coração, agradeço a Deus por todas as suas bênçãos em me trazer você. Ele me deu o paraíso e tornou minha vida tranquila e feliz (apud RAPPAPORT, 2016, p.75).

Tanto Nicolau como Alexandra não pareciam ter se despido de suas vestes imperais para assumir as roupas de pai e mãe. Mesmo com uma equipe de babás, Alexandra cuidava pessoalmente de suas filhas e em seu quarto malva era comum vê-la balançando uma das meninas em um joelho ou acalmando a segunda no berço, enquanto com a outra mão ela assinava documentos oficiais.

Maria e Alexei Romanov, em foto tirada no ano de 1910.

Pouco tempo depois, uma nova criança estava por vir. Nesse tempo, Nicolau sofreu um ataque de febre tifoide, que o deixou confinado na cama por cerca de cinco semanas. Desde o início, Alexandra cuidava pessoalmente cuidava do marido, certificando-se de que ninguém chegasse perto dele. Nicolau se mostrou muito feliz e agradecido pelo cuidado de sua esposa: “Minha querida Alix me assistiu e cuidou de mim como a melhor de todas as irmãs da misericórdia. Não sei descrever o que ela foi para mim durante minha enfermidade. Que Deus a abençoe” (apud RAPPAPORT, 2016, p.80). Durante esse período, as meninas ficaram bem longe do palácio para não correr o risco de serem contaminadas. Sendo assim, ficaram acomodadas na residência de um membro do séquito imperial que, por sorte, também tinha filhas. Alexandra observava diariamente suas filhas através de uma janela.

No quarto mês de gravidez, a imperatriz sofreu um duro golpe em sua vida. Sua amada avó, a rainha Vitoria, acabara de falecer e os médicos não permitiram que ela pudesse comparecer ao enterro da soberana inglesa.

Durante as três da manhã do dia 5 de junho de 1901, uma enorme menina de 5,2 quilos nasceu. Tudo foi tão rápido, que nem o próprio Nicolau teve tempo para apresentar algum desapontamento. A menina recebeu o nome de Anastásia, que em grego significa “ressureição”. Nicolau e Alexandra tinham agora quatro lindas e saudáveis menininhas, porém, por mais que as adorassem, era necessário um menino. As pressões vinham de todos os lados, o que consequentemente afetou Alexandra em termos físicos e psicológicos.

No dia 30 de julho de 1904, o canhão da Fortaleza de Pedro e Paulo disparou a salva dos tão esperados 301 tiros sobre o rio Neva. Finalmente havia chegado o naslednik (herdeiro). Era um menino, Alexei. Cerca de seis semanas após o nascimento da criança, Alexandra chamou uma de suas amas, totalmente desorientada e chorando, e lhe disse: “Se ao menos você soubesse com que ardor tenho orado a Deus para proteger meu filho de nossa maldição hereditária” (apud RAPPAPORT, 2016, p.104). O pior medo da tzarina estava se concretizando: o menino era hemofílico. Isso foi comprovado após a criança ter apresentado uma hemorragia no umbigo, sendo necessário quase dois dias para a controlar. Alexandra esperou por esse menino por quase dez anos, agora sabendo que ele possuía essa terrível doença, seu mundo caiu e ela passaria a viver sob a sombra da doença do filho.

Toda a estrutura familiar mudou quando descobriram que Alexei era hemofílico. As adoradas meninas ficariam em segundo lugar, uma vez que toda a atenção e cuidado deveriam ir para aquela criança frágil e valiosa. Sendo assim, Alexandra se certificou de ensinar suas filhas a cuidar, proteger e mimar o irmão mais novo.  Depois do nascimento de Alexei, a imperatriz começou a tratá-las de forma coletiva, vestindo-as em estilo de pares idênticos e as apelidou de forma carinhosa o “grande par” e o “pequeno par”. Mesmo sendo algo carinhoso, apenas fortalecia esse sentimento de coletivo e as meninas contribuíram com isso quando elas criaram a sigla OTMA- inicial de cada um de seus nomes. Enquanto isso, quatro personalidades diferentes estavam tomando forma.

 Olga era a mais sentimental das irmãs e seu comportamento podia ser caprichoso ou até explosivo. Mas também havia nela muito charme, gentileza, solidariedade e timidez. Ela carregava consigo uma personalidade séria, pensativa e melancólica. Adorava música e poemas, era uma grande sonhadora e, além disso, era a mais inteligente entre as irmãs, destacando-se pela sua independência e determinação pelas coisas. Tatiana possuía uma beleza clássica e aristocrática. Era alta e dotada de grande beleza e personalidade, assim como sua mãe. Com certeza, Tatiana era a favorita de Alexandra. Como a imperatriz, ela era muito reservada, inescrutável, mais séria, era ótima em termos de organização e trabalhos manuais e por isso foi apelidada pelas irmãs de “a governanta”.

Foto digitalmente colorida de Anastásia Romanov.

Quanto a Maria, possivelmente ela era a favorita de Nicolau. Tinha uma beleza e personalidade encantadoras, era a mais simpáticas entre as irmãs, simples, obediente e com um ótimo humor. Tinha dom para pinturas e desenhos e foi apelidada pela família como “totozinho gorducho” (le bom gros tutu). Em Anastásia não havia nada de gracioso, era muito desinibida e rebelde. Vivia em seu próprio mundo, cheio de amigos e personagens imaginários cômicos. Era uma menina um tanto desastrada, barulhenta e bagunceira, mas era dotada de inteligência, bom humor e cheia de autocontrole. Ela também se mostrava muito observadora e até altruísta.

 As meninas foram criadas com modéstia e simplicidade. Dormiam em camas de acampamento, não usavam roupas luxuosas, seus quartos tinham apenas uma mobília simples e necessária, tomavam banho frio e foram ensinadas desde cedo a tricotar, bordar e costurar. Tinham uma mesada de cerca de 9 dólares (equivalente a R$ 51,80 atuais) para comprar perfumes e bloquinhos; iam com frequência aos aposentos das empregadas para brincas com os filhos delas e eram chamadas apenas pelo nome e o patronímico (ex: Olga Nicolaievna). Quanto à sua educação, incialmente Alexandra lhes dava aulas de ortografia básica pessoalmente. Ensinava-as a bordar, a falar o inglês e francês. Com o passar do tempo, a imperatriz contava com o apoio de tutores e governantas. Trina Schneider (lectrice de Alexandra/acompanhante de OTMA) ficou responsável por ensinar Olga e Tatiana temas gerais; Piotr Vassílievitch lecionava Literatura e língua russa; aulas de inglês com Sydney Gibbes; francês com Pierre Gilliard, além das aulas de Desenho, Matemática e Instrução Religiosa. Tudo era monitorado e aprovado de perto por Alexandra.

Alexei, com efeito, era o coração da família Romanov e o próprio tutor Pierre Gilliard relembra isso: “Alexei era o centro dessa família unida, o foco de todas as esperanças e afeiçoes… Suas irmãs o idolatravam. Ele era o orgulho e a alegria de seus pais. Quando ele estava bem, o palácio se transformava. Tudo e todos pareciam banhados por raios de sol” (apud MASSIE, 2014, p.154). O pequeno herdeiro era o mundo para sua mãe. Após seu nascimento, ela o levava para passear de carruagem e adora mostrar seu filho para as pessoas. Até Nicolau gostava de exibi-lo, sendo que uma vez o levou para uma revista ao Regimento Militar. Alexandra se certificou de ensinar suas filhas a cuidar, proteger e mimar o irmão mais novo. O pequeno menino era dotado de beleza e charme, possuía uma grande inteligência natural, sendo que em alguns aspectos superava suas irmãs. Ele era bastante parecido com Anastásia, um menino travesso e cheio de vida, que tocava balalaica e adorava música.

Com cerca de 5 anos, Nicolau e Alexandra contrataram dois marinheiros para cuidar de Alexei, que ficariam conhecidos como dyadki (“tios”). Eram Andrey Derevenko e Klementy Nagorny. Sufocado pelo excesso de amor e carinho feminino de casa, Alexei gostava de fazer brincadeiras infantis de mau gosto, como por exemplo bater com a cabeça nos outros, engatinhar embaixo das mesas e tirar os sapatos das damas da corte, apresentava péssimas maneiras à mesa e gostava de debochar de Derevenko pela questão do seu peso. Muitas das vezes, ele levava os empregados e tutores ao desespero. Seu próprio pai o apelidou de “Alexei, O Terrível”. Sua mãe tentava sem sucesso controlar o comportamento do filho, mas o único que tinha autoridade com a criança era o pai. Por outro lado, ele não se gabava pelo fato de um dia herdar 1/6 da Terra. Em casa, o menino obedecia às irmãs e usava as camisolas que um dia foram delas. Na maioria das vezes, era amável e gentil. Diferentemente das irmãs, Alexei cresceu como um verdadeiro príncipe e tinha inúmeros brinquedos sofisticados e vários animais, como forma de o compensar pela sua doença.

Czarina Alexandra e o czarevich Alexei, aos 2 anos de idade.

A rotina dos Romanov era rigidamente estabelecida. Nicolau acordava cedo, bem antes de sua esposa, que levantava por volta das nove da manhã. As crianças tomavam seu dejejum nos aposentos infantis (normalmente era um mingau de cereal acompanhado por pão com manteiga, leite e mel). Geralmente, Nicolau as acompanhava antes de ir ao seu escritório tratar de assuntos do Estado e se reunir com ministros. Após o almoço, as crianças voltavam aos seus estudos enquanto Alexandra passava a tarde bordando, pintando ou escrevendo cartas. As crianças viam sua mãe sempre que tinham um motivo particular ou fossem chamadas para tomar chá com seus pais no quarto malva. A ceia da família era bastante simples e depois passavam o resto da noite brincando e bordando, com seu pai lendo em voz alta para todos. Nas ocasiões em que os pais tinham que viajar ou fazer visitas oficiais, Alexandra enviava bilhetes para suas filhas se comportarem: “Seja muito boazinha e não se esqueça: cotovelos fora da mesa, sente direito e coma sua comida com educação” (apud RAPPAPORT, 2016, p.114). Normalmente, durante os intervalos entre as aulas das crianças, Alexandra tinha o costume de caminhar ou ir de carruagem até o parque com elas, acompanhada de uma das damas. No inverno, todos iam de trenó, sendo que era comum as meninas cantarem e brincarem durante o passeio.

Entretanto, a imperatriz já não era a mesma após dez anos de casada. Inúmeros fatores, tanto físicos como psicológicos, contribuíram para sua extrema exaustão física. Ela sofria de dor ciática, dores no peito, dificuldade para respirar, tinha cianose (lábios azuis), pernas inchadas, dores de cabeça somadas ao seu corpo bastante desgastado por ter passado por cinco gestações cansativas, que produziram crianças enormes. Não obstante, ela sofreu um aborto espontâneo, uma gravidez psicológica, sem contar com a extrema preocupação de perder seu filho para a hemofilia. Como consequência, a família inteira foi afetada, principalmente Nicolau e as quatro meninas. As garotas necessitavam de sua mãe, mas nos períodos em que ela estava doente quase não a viam e Alexandra acabou deixando uma governanta para cuidar das meninas.

As princesas, por sua vez, tentavam se comunicar com a mãe por meio de bilhetes. Olga escreveu em uma dessas ocasiões: “É tão triste nunca poder vê-la mamãe. Então devo tentar escrever para você…”. Tatiana também demonstrava saudades: “Espero que você não esteja tão cansada hoje e possa comparecer ao jantar. Sempre fico muito triste quando você está cansada e não pode se levantar”. Em contrapartida, Alexandra não queria ser incomodada, então criou algo muito incomum e particular junto às filhas: desenvolveu um código para suas dores, com uma escala de 1 até 3. As meninas sabiam disso e então mandavam bilhetes até a escala 2, pois se mãe estivesse na terceira nenhuma das filhas deveria a incomodar. Maria revelou um pouco disso: “Sinto muito que seu coração esteja no número 2. Lamento tanto não vê-la hoje, mas certamente será melhor você descansar. Mil beijos de sua amada Maria”.

Além das inúmeras doenças de Alexandra, a família também vivia sob a sombra da hemofilia de Alexei. Quando o pequeno estava bem, a vida dos Romanov era cheia de alegria e paz. Mas, quando ele tinha suas crises, tudo mudava. Nicolau e, principalmente, Alexandra, ficavam desesperados por ver seu filho sofrer. Além da excessiva preocupação, havia o fator da culpa que ela carregava consigo por transmitir a doença para seu filho. Então ficava por horas sentada ao lado de Alexei, tentado lhe dar apoio e calma, só que em muitas das vezes a criança sofria dores terríveis, chorava e gritava por sua mãe. Cada gota de sangue, lágrima, gemido e grito de Alexei era como espada entrando em seu coração. Nicolau era o melhor dos maridos e tentava ao máximo dar apoio e carinho para Alexandra e seu filho nessas ocasiões. Com isso, a imperatriz se entregou ao conforto da religião e ficava por horas rezando na capelinha ou em seu quarto, implorando a Deus pela saúde do filho. Alexandra deixou de acreditar na medicina e nos médicos e depositou toda sua esperança em um homem, Gregori Rasputin. Para a imperatriz, ele era o único que podia aliviar o imenso sofrimento de seu filho.

Referências Bibliográficas:

MASSIE, Robert. K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda da dinastia Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

 RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: as vidas das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

_.Os últimos dias dos Romanov. Tradução de Luís Henrique Valdetaro. Rio de Janeiro: Record, 2020.

Texto revisado por Renato Drummond Tapioca Neto

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