A família real no Castelo de Balmoral: o tradicional lar escocês da rainha Elizabeth II.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em setembro de 1848, a rainha Vitória e o príncipe Albert fizeram sua primeira visita ao “belo castelinho” de Balmoral, localizado nas Terras Altas da Escócia. O local parecia ideal para criar sua família em rápida expansão, com seus montes agrestes e solitários, habitados apelas pelos ghillies (ou moradores locais). O príncipe tinha um carinho especial pelo lugar, pois lhe trazia memórias agradáveis de sua infância na Alemanha. “Era maravilhoso não ver um ser humano, não ouvir um som, a não ser o vento ou o chamado do galo silvestre ou do tetraz. Enchia-me de especiais sentimentos de admiração e solenidade”, escreveu Vitória. Ali, a soberana podia andar tranquilamente entre a população local, conversando com as moradoras e oferecendo saias às inquilinas de seus chalés. “Vivem lá sem nenhuma pompa; vivem não só como fidalgos comuns, mas como pequenos fidalgos, e bem pequenos; casa pequena; aposentos pequenos; renda pequena”, notou o escritor Charles Greville. Contudo, o “belo castelinho” logo se transformaria numa imponente mansão campestre. À medida que a rainha dava à luz um novo filho, mais e mais pedras eram adicionadas à construção de Balmoral, que acabou se tornando a residência de verão da família real inglesa.

O Castelo de Balmoral.

O príncipe Albert comprou a propriedade de 17.400 acres iniciais, banhados pelo rio Dee, das mãos dos curadores conde de Fife em 1852. Desde então, passou a se dedicar ao projeto de construção do castelo. Os arquitetos escoceses John e William Smith (pai e filho) assumiram a missão de dar forma às ideias de Albert para a nova “casa de veraneio” de sua família. Os Smith utilizaram granito extraído de uma pedreira local para erguer duas seções, ligadas por um pátio central, incluindo uma Torre do Relógio. O príncipe ainda solicitou o acréscimo de edificações menores anexas ao prédio principal, como uma casa de fazenda. A rainha Vitória, por sua vez, ordenou a construção de uma série de chalés, que seriam alugados quando a família real estivesse ocupando o castelo (os mesmos estão em uso até os dias de hoje). Enquanto o novo edifício estava em processo de edificação, a família real se acomodava em um menor, que foi demolido assim que as obras foram concluídas. Em 1856, a rainha anotou no seu diário que chegou em Balmoral e encontrou “a torre construída assim como os escritórios, e as pobres casas antigas se foram”. Ali, a soberana passaria os dias mais felizes de sua vida, conforme registrou no livro Leaves from the Journal of Our Life in the Highlands.

Litogravura do Salão de Baile do Castelo de Balmoral no século XIX.

Em Balmoral, a rainha e seus familiares viviam como típicos escoceses, usando os famosos kilts, aproveitando a companhia dos moradores locais, a comida e o vinho produzidos nas Terras Altas. Uma das inovações que a soberana introduziu no novo castelo foram os chamados bailes ghillies, promovidos em um belíssimo salão que ela mandou construir para ocasiões como essa. As pessoas vinham das proximidades para dançar por algumas horas, enquanto eram atendidos pela família real e por seus convidados. A rainha adorava essas ocasiões e não raro tomava parte nas danças. Por outro lado, as visitas a Balmoral poderiam ser um verdadeiro desafio para o restante da corte residente em Londres. Segundo Gillian Gill:

Tomava um dia de viagem ininterrupta – dois dias numa escala – para chegar ao castelo, e chegando lá, não havia nada que você pudesse fazer. A margem do Dee poderia ser estatisticamente a parte mais ensolarada da Escócia, mas mesmo assim podia-se ver chuva por dias a fio. Durante as visitas de outono da rainha, o frio era frequentemente assustador quando o sol se punha, com gelo na grama, neve nas montanhas e um vento uivante nos corredores vazios. Quanto à decoração, parecia-se mais com uma residência de classe média para uso de qualquer pessoa, do que com os esplendores de Woburn Abbey e do Palácio de Blenheim. Todas aqueles cardos gigantes, conforme Lord Clarendon sabiamente recordou, matariam o apetite de um asno (2009, p. 241).

Por esses motivos, nem todos achavam as visitas a Balmoral agradáveis, exceto a rainha Vitória e seu marido, que adoram a paisagem e a tranquilidade que o local inspirava. Acompanhado de alguns Highlanders, entre os quais era muito popular, Albert gostava de caçar e fazer excursões. Um desses companheiros era John Brown, que após a morte do príncipe consorte se tornou um amigo inseparável para Vitória.

A rainha Vitória ao lado de uma de suas damas de companhia em Balmoral.

Muitos dos moradores pobres que viviam nas proximidades do castelo de Balmoral eram surpreendidos pelas visitas do casal real, que gostava de viajar incógnito pelas montanhas e geralmente se hospedava em simples estalagens. Em certa ocasião, sua identidade foi revelada pelo emblema da coroa no cabriolé que usavam para se transportar e pelos monogramas reais bordados nos lençóis que levavam consigo. A rainha e o príncipe adoravam esse jogo de anonimato, pois assim podiam passear mais livremente entre as pessoas. Retornando ao castelo, havia o já mencionado salão de baile, com seus lustres gigantescos, corredores e cômodos decorados com os “troféus de caça” do príncipe Albert (cabeças de veados abatidos) e desenhos em trevo. Nos tempos da rainha Vitória, o estofo da mobília era decorado em padrão xadrez, os armários eram entalhados na madeira e uma proliferação de paisagens emolduradas enfeitavam as paredes. Como era uma necessidade básica da época, havia também uma abundância de candelabros. O príncipe Albert acreditava que o interior de sua sala de estar em Balmoral deveria fazer referência à vida típica nas Terras Altas, com carpetes xadrez, tecidos de linho branco estampados com padrões florais e paredes forradas com papel verde salpicado de flores brancas.

A sala de estar do príncipe Albert em Balmoral.

Após a morte do príncipe consorte, em 14 de dezembro de 1861, Balmoral se tornou para a rainha Vitória um lugar de alegres recordações, onde podia evocar com maior facilidade a memória de seu finando marido. Seus dias nas Terras Altas da Escócia renderam dois livros, compilados a partir das anotações da soberana em seus diários. Suas estadias no castelo eram parte de seu roteiro anual de viagens e Vitória chegou a cancelar compromissos importantes com políticos para não perder sequer um momento de seu tempo na propriedade. Com a rainha passando parte do ano em Balmoral, a Escócia voltou a ser a sede da casa reinante, mesmo que por uma temporada. Isso permitiu à realeza estreitar mais os laços com seus súditos escoceses e até mesmo adotar parte de seus costumes. O hábito de viajar para as Terras Altas entre o final do verão e o início do outono passou da rainha Vitória para os seus descendentes, em especial para a rainha Elizabeth II. Existem diversas fotografias da atual soberana ao lado de sua família, tiradas ao longo das décadas do século passado e nas primeiras décadas do século XXI. Infelizmente, nem todos os membros de sua família compartilham de seu entusiasmo pelo lar ancestral de Vitória e Albert.

Fotografia da rainha Elizabeth II e sua família nos jardins de Balmoral, em 1960.

Sabe-se, por exemplo, que a princesa Margaret achava as visitas a Balmoral bastante tediosas, passando seu tempo ali organizando fotografias antigas em álbuns. Mas, como as viagens ao castelo faziam parte do roteiro anual da família real, ela quase sempre acabava acompanhando sua irmã, embora algumas vezes tenha preferido o ensolarado Sul da Itália às gélidas Terras Altas da Escócia. Outra que também não gostava das estadias no castelo era a princesa Diana. Charles a levou para lá no último estágio da sua lua de mel, em outubro de 1981. No seu depoimento para a biografia escrita por Andrew Morton, Diana disse:

Todos os convidados que vieram a Balmoral para se hospedar simplesmente olhavam para mim o tempo todo, me tratavam como se eu fosse de vidro. […] Charles costumava querer dar longas caminhadas por Balmoral o tempo todo quando estávamos em lua de mel. Sua ideia de diversão era sentar no topo da colina mais alta de Balmoral. É lindo lá em cima. Entendo perfeitamente. […] Estava muito mal. Chovia muito, e voltei antes do previsto para procurar tratamento, não porque odiasse Balmoral, mas porque eu estava muito mal (MORTON, 2013, p. 51).

Para uma iniciante, Balmoral podia ser um verdadeiro campo minado. Existem lugares onde o visitante precisa tomar especial cuidado, como a poltrona da rainha Vitória, cujo assento é proibido para qualquer um. A formalidade da rotina deixou Diana quase em desespero. “Quando não era uma marcha forçada para um piquenique familiar com o príncipe Philip cuidando da churrasqueira, era um jantar formal com a rainha e quem quer que fossem os augustos e idosos visitantes que estivessem na companhia de Sua Majestade”, explica a biógrafa Tina Brown (2007, p. 158). Os tocadores de gaitas de foles da soberana precisam vibrar as tradicionais melodias escocesas, para que as mulheres tenham permissão de deixar a mesa, ficando apenas os homens fumando charuto e tomando vinho. Porém, ninguém tem autorização para se retirar até que Elizabeth II saia, o que ocorre pouco antes da meia-noite (embora possam ficar encurralados até as 2 da manhã, em algumas ocasiões). Foi quando a rainha estava em Balmoral, no verão de 1997, que ela soube da trágica morte de Diana na madrugada do dia 31 de julho. Em seguida, ela foi vista na companhia de seus netos, os príncipes William e Harry, ouvindo o serviço religioso em memória da princesa de Gales na Igreja local de Crathie.

A rainha Elizabeth II em seu estúdio do Castelo de Balmoral, em 1972.

Com efeito, cada membro da família real deixou suas marcas no lugar. Atualmente, o verde escuro predomina na decoração do interior do castelo. Lareiras de mármore com tampo espelhado, cadeiras forradas com saias plissadas e estantes com livros encadernados em couro completam o conjunto. Embora os relógios de parede antigos e luminárias sejam predominantes, eles coexistem com televisores em tela plana. A rainha Elizabeth II tem o seu próprio estúdio, que nos anos 1970 era acarpetado com um distinto padrão xadrez e preenchido com elegantes móveis de madeira e cortinas de tecidos florais, cobrindo as grandes janelas. A avó da soberana, a rainha Mary de Teck, criou belíssimos jardins no exterior, que dividem espaço com a paisagem acidentada, que cobre 50.000 acres de área. O príncipe Philip, por sua vez, plantou uma horta, um jardim aquático, uma passarela florida e um campo repleto de frondosos carvalhos. Dessa forma, Balmoral serve especialmente como um retiro de férias para a família real, embora devido à pandemia de COVID-19 a rainha tenha interrompido suas viagens ao castelo. Enquanto a soberana vive em isolamento no castelo de Windsor, Balmoral tem sido o lar do príncipe Charles e Camilla, duquesa da Cornualha.

Referências Bibliográficas:

BROWN, Tina. Diana: crônicas íntimas. Tradução de Iva Sofia Gonçalves e Maria Inês Duque Estrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

GILL, Gillian. We two: Victoria and Albert: rulers, partners, rivals. New York: Ballantine Books, 2009.

LUCKEL, Madeleine. All the Design Details You Need to Know About Balmoral Castle. 2020. – Acesso em 23 de março de 2021.

MORTON, Andrew: Diana – sua verdadeira história em suas próprias palavras. Tradução de A. B. Pinheiros de Lemos e Lourdes Sette. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

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