Subvertendo o conto de fadas: Margaret Rose, os anos dourados de uma princesa rebelde!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Margaret Rose do Reino Unido entrou para a História como o epítome da princesa rebelde, cujo comportamento irreverente rendeu pano pra manga entre os tabloides mais sensacionalistas do mundo. Com sua beleza sensual e charme hollywoodiano, ela incorporou diante dos olhos públicos a mistura entre a leveza dos contos de fadas e o glamour das celebridades dos anos 1950. Porém, sua história está mais para uma grande desventura! Nesse enredo, não há heróis salvando donzelas em perigo ou princesas transformando sapos em príncipes, mas a narrativa de uma jovem forçada a abdicar dos seus sentimentos em nome dos protocolos arcaicos que davam sustentação ao regime no qual ela nasceu. Por ser a irmã mais nova da rainha Elizabeth II, Margaret passou muito de sua vida sob a sua sombra, estigmatizada como a herdeira suplente. Mas, a partir do momento em que sua subjetividade se torna alvo de interesse coletivo, aos poucos ela foi se emancipando dessa imagem e construindo seu nome como uma verdadeira marca. Seu estilo de vida extravagante, marcado pelo brilho das festas e pelo luxo das roupas caras, imprimiu o modelo para toda uma geração de jovens aristocráticas, cansadas do confinamento sexual pregado pelos padrões morais de etiqueta.

A princesa Margaret Rose usando um modelo Christian Dior, para as lentes de Cecil Beaton em 1951.

Nos anos do pós-guerra, a ideia de que a família real era uma Instituição que inspirava estabilidade era amplamente aceita pela maioria dos britânicos. Os Windsor estavam então no auge de sua popularidade e Margaret encarnava o conceito da princesa encantada. A construção dessa imagem foi feita coletivamente, por matérias jornalísticas e pelas fotografias. Aqui, a fantasia ficava ainda mais evidente. Cecil Beaton, fotógrafo oficial da Casa Real, vez diversos registros da filha do rei usando alta costura, em um cenário de flores e natureza folclórica. Seu corpo esbelto, com uma cintura de 18 polegadas, vestia elegantemente os trajes desenhados por Christian Dior e Norman Hartnell. Este último foi o responsável por muito do estilo das mulheres da realeza entre as décadas de 1950 a 1970. Aos 21 anos, Margaret deveria representar um ideal para todas as moças de sua geração, assim como uma noiva em potencial. Elizabeth já estava casada com Philip e era mãe de 2 filhos, mas a mão de sua irmã ainda estava disponível. A mídia apresentava nomes de possíveis namorados, como Collin Tennant, futuro barão de Glenconner e John Turner, futuro Primeiro-Ministro do Canadá. A roda de amigos com os quais a jovem se cercava continha personalidades do calibre de Sharman Douglas, filha do embaixador americano Lewis Williams Douglas.

Com efeito, a presença da princesa Margaret passou a ser cada vez mais requisitada em bailes, premières de cinema e teatro, festas e boates. Todo o mundo da alta sociedade londrina abria as portas para a glamorosa filha de George VI, cuja aparição era um chamariz para inúmeros espectadores. Consequentemente, seus compromissos com a Coroa aumentaram, incluindo tours pela França, Suíça e Itália. Ela também se tornou patrona de várias instituições beneficentes, atraindo assim a participação de outros investidores. Quando em tempo livre, costumava visitar sua irmã em Malta, onde ela vivia seus primeiros anos de casada como Elizabeth, duquesa de Edimburgo. Suas aparições tinham o poder de excitar a mente dos solteiros locais:

“Malta tem apenas noventa milhas quadradas de área, e a chegada da princesa Margaret foi grandiosa, grandes notícias para os homens, que ficaram loucos com isso”, recordou Roland Flamini, um correspondente diplomático da revista Time. “Eu era adolescente então, e como meu pai estava a redigir a Constituição de Malta, acabei por conhecer a princesa Elizabeth. Não fazia a menor ideia do que lhe dizer, então proferi algo abruptamente sobre a princesa Margaret, e disse que esperava que ela tivesse passado um bom bocado – ‘Não faço a mínima ideia’ – disse a princesa Elizabeth no seu tom de voz muito elevado. – ‘A pequena cadela ainda não me escreveu, nem me agradeceu’” (KELLER, 1997, p. 96-7).

Atrás da princesa Margaret, quase sempre podia ser visto o capitão Peter Townsend, cuja companhia era requisitada pelo rei e pela rainha, como medida de segurança. Afinal, George VI tinha razões para temer. Em setembro de 1951, poucos dias depois do aniversário de 21 anos da filha mais nova, o monarca se submeteu a uma delicada cirurgia de câncer de pulmão. Nos últimos três anos, ele havia passado por três operações e sua situação era nenhum pouco animadora. O hábito de fumar compulsivamente (algo que acabaria passando para Margaret), acompanhado da fadiga e do estresse causados durante os anos da Segunda Guerra Mundial, comprometeram-lhe demasiadamente a saúde. Debilitado por sua condição, o rei delegou parte de suas funções à presuntiva herdeira, como uma viagem de cinco meses pela assim chamada “Colônia do Quênia”. Elizabeth e Philip partiram em 31 de janeiro de 1952.

Fotografia da princesa Margaret Rose tirada por Cecil Beaton, em 1951.

Enquanto isso, Margaret ficou na Inglaterra ao lado dos pais, onde assumiu um posto no Conselho de Estado. A situação estava nesse pé quando, na madrugada do dia 6 de fevereiro, em Sandringham, George VI sofreu um enfarte nas coronárias e faleceu durante o sono. Quando o dia clareou, Sir Harold Campbell entrou apressadamente nos aposentos da rainha, no momento em que ela tomava seu dejejum, para avisar que o monarca havia partido. Desesperada, Elizabeth Bowes-Lyon correu aos prantos até o quarto do marido para lhe dar um último beijo de despedida. Em seguida, deu ordens para que fosse feita uma vigília em torno do cadáver do rei e para que avisassem à Elizabeth o quanto antes: “Lilibet tem que ser informada.”, disse a viúva do rei George VI, rapidamente reformulando sua frase. “A Rainha tem que ser informada”. A notícia caiu como uma bomba em todo o palácio, especialmente para Margaret, que tinha estado na companhia do pai um dia antes. Transtornada, ela precisou de sedativos para dormir naquele dia. A jovem princesa o considerava “uma pessoa maravilhosa, o coração e o centro de nossa família feliz”. Em meio à dor do luto, ela foi forçada a admitir para si mesma que o “nós quatro” agora se resumia a ela e a mãe.

Com a entronização de Elizabeth II e a mudança de sua família para o palácio de Buckingham, Margaret e Elizabeth Bowes-Lyon tiveram que deixar seus aposentos e fixar residência na Clarence House. Peter Townsed, por sua vez, foi nomeado controlador dos recursos da rainha-mãe, um posto que o deixava bastante próximo da princesa. Os fotógrafos já haviam capturado sua presença ao lado de Margaret no seu aniversário de 21 anos, em Balmoral. Mas, 12 dias após a coroação da nova soberana, ocorrida em 2 de junho de 1953, o jornal britânico People publicou uma foto da jovem acariciando ligeiramente a lapela do capitão Peter depois da cerimônia na abadia de Westminster. Não demorou muito e a mídia começou a especular se a irmã da rainha estaria envolvida com aquele homem divorciado, 16 anos mais velho do que ela. O editorial do People comentou de maneira hipócrita que “é totalmente impensável que uma princesa da realeza, terceira na linha de sucessão ao trono, sequer contemple o casamento com um homem que já passou por um divórcio”. Essa questão era muito delicada para os Windsor, uma vez que em 1936 o rei Edward VIII havia abdicado do trono para se casar com a socialite americana Wallis Simpson, duas vezes divorciada, causando assim uma forte crise na Instituição.

Segundo o Royal Marriages Act, conjunto de leis que regem os casamentos da realeza, os príncipes e princesas da Casa Real precisam da autorização expressa do soberano para se casar até completarem 25 anos, idade em que não mais necessitariam da aprovação real. Nesse caso, Margaret teria que esperar até 1955 para dispensar o consentimento de sua irmã e se unir a Peter em matrimônio. Os dois se conheceram quando a princesa tinha 14 anos e desde então ele agira como uma espécie de guarda-costas. A relação entre ambos evoluiu para um discreto romance quando Margaret completou 20 anos. Até a publicação do People, poucas pessoas tinham conhecimento desse caso. A amiga da princesa, Evelyn Prebensen, filha do embaixador norueguês, se lembra de um natal em particular no qual “o rei prometera a Peter algum tempo livre para estar com a família. A Margaret meteu a cabeça que queria jogar cartas e insistiu que Peter jogasse com ela. Por isso Peter foi obrigado a desistir de passar a folga junto da família e acompanhar Margaret a uma baile”. Conforme os dois passavam cada vez mais tempo juntos, os rumores sobre o affair circulavam pela corte. Em 1952, Townsend obteve o divórcio devido ao adultério da esposa, conseguindo a guarda dos dois filhos do casal. Apesar disso, o casamento de um membro da realeza com uma pessoa divorciada ainda era algo inconcebível para as autoridades eclesiásticas da época.

A presença da princesa Margaret passou a ser cada vez mais requisitada em bailes, premières de cinema e teatro, festas e boates.

Em 1953, quando o caso amoroso da princesa Margaret se tornou público, teve o poder de abalar as estruturas da monarquia, da igreja e do governo. Para aquele mundo de rígidos protocolos, habitado por uma nobreza apegada a velhos títulos e status, a entrada de um plebeu como Peter na Instituição era considerada uma afronta ao estabelishment. “O coronel Townsend tem de partir”, bradou o Primeiro-Ministro Winston Churchill. A solução a curto prazo para acabar com as esperanças de Margaret era demitir o seu amado do serviço real e envia-lo para longe. E assim foi feito. Antes que ele pudesse acompanhar a princesa e a rainha-mãe em uma viagem pela Rodésia, Peter foi transferido para a Embaixada de Bruxelas como comandante aéreo. Aos jornalistas, ele disse: “Vim para cá porque estávamos ambos numa posição muito difícil. Não posso responder a perguntas porque não sou o elemento motor desta situação. A minha lealdade para com a princesa Margaret é indiscutível. Por essa lealdade, eu passaria por quaisquer dificuldades”. Desesperada com essa notícia, a princesa teria implorado à irmã para que reconsiderasse. Mas o assunto estava fora de questão. É possível que as duas tivessem protagonizado uma cena bastante tensa por causa disso.

Conforme a princesa Margaret se recordou anos mais tarde em seu depoimento para a historiadora Elizabeth Longford: “Só discuti com a rainha duas vezes. O mais provável é que tenham sido homens a causa das nossas discussões. Na nossa família não existe rupturas – de tempos em tempos uma discussão, mas nunca uma ruptura”. Quando o ano de 1955 chegou e com ele o aniversário de 25 anos da princesa, o tema voltou à pauta diária. Um dos líderes da cúpula anglicana, Salisburgo, bradou para seus colegas de gabinete que jamais aceitaria o matrimônio da irmã da rainha com um homem divorciado. Caso contrário, ele renunciaria ao cargo. Como o gabinete teria que aprovar o casamento, seu pares preferiram passar por cima dos sentimentos de Margaret, para não permitir que o problema se tornasse uma questão pública. A imprensa, entretanto, ficou dividida. O que valia mais: o amor ou a religião? Por que outras pessoas podiam se casar com quem desejavam, mas não uma princesa? O Primeiro-Ministro da época, Anthony Eden, foi mais radical no seu jeito de tratar a situação toda. Colocando as cartas diante Margaret, ele disse que se o matrimônio fosse concretizado, ela deveria abrir mão de sua posição na linha de sucessão do trono, bem como de seus rendimentos. Teria também que viver no exílio, assim como seu tio Edward, duque de Windsor.

Diante de tamanha pressão, a princesa se curvou ao protocolo e abriu mão de sua paixão. Em um pronunciamento oficial escrito para a rádio BBC, ela dizia: “Gostaria que fosse de conhecimento público que decidi não me casar com o Coronel Peter Townsend… Em obediência ao ensinamento da Igreja de que o casamento cristão é indissolúvel e consciente de meus deveres perante a Commonwealth, resolvi pôr estas considerações acima de outras”. Por fim, ela reiterava que “cheguei a esta decisão inteiramente sozinha”. Assinado, “Margaret”. Por fora, ela parecia resoluta, mas por dentro seu coração estava sangrando. Aos amigos, confessou que aquela situação fora causada por Winston Churchill e Tommy Lascelles, secretário da rainha. Quando soube do que aconteceu com a sobrinha, o duque de Windsor ficou indignado. O antigo rei escreveu para a esposa, Wallis, que “a hipócrita e untuosa beatice e piedade que a renúncia de Margaret e Townsend suscitou no Times e no Telegraph, têm sido difíceis de aceitar”. Na sua opinião, “a Igreja de Inglaterra ganhou novamente, mas desta vez apanhou a sua mosca, enquanto eu fui suficientemente ardiloso para escapar à teia de uma instituição obsoleta que se transformou unicamente num departamento governamental…”.

Margaret e Peter Townsend deixando o castelo de Windsor, em abril de 1952.

Ao fim e ao cabo, Margaret não quis abrir mão de seu papel como membro da realeza para viver seu romance com o Capitão Townsend no exílio. Dizem que essa escolha a deixou infeliz pelo resto de seus dias. Quanto à rainha Elizabeth II, muito já se especulou sobre seu papel nessa situação toda. Na opinião do biógrafo Andrew Marr:

Elizabeth decidiu reagir primeiramente como rainha, depois como irmã. Apenas dois anos antes, em seu juramento da coroação, prometera à Igreja e ao mundo que apoiaria os valores mais elevados da vida familiar cristã – e ela não estava fingindo. Ademais, não podia ignorar seus bispos e ministros. Se ela se sentia inclinada pela afeição natural, também era arrastada pelo dever e vez após outra em sua vida o dever provou ser o mais forte. Ainda assim, esse episódio não deixa de ser um primeiro sinal dos problemas que a versão “família ideal” da monarquia moderna enfrentaria. Famílias reais são problemáticas. Nem sempre as emoções podem ser convenientemente trancafiadas. O moralismo público e o vulgarismo da imprensa tornam ainda mais difícil essa contenção dos aspectos mais insubordinados da vida privada (MARR, 2021, p. 190-1).

Devastada pela separação de Peter, Margaret mergulhou em uma existência entorpecida pelo consumo exagerado de álcool e pelo efeito dos sedativos. Ao seu biógrafo, Christopher Warwick, ela disse: “Compus uma elegia, palavras e música. Foi depois de Peter Townsend, quando eu percebi que não podíamos nos casar”. Amargurado com toda essa situação, Peter se demitiu da Força Aérea Britânica e regressou para Bruxelas. Anos mais tarde, em 1959, ele voltou a se casar com uma jovem chamada Marie-Luce Jamagne. Nas suas Memórias – uma fonte valiosa sobre os últimos anos do reinado de George VI – ele disse que jamais voltaria a pisar em solo inglês. Mas, em 1992, quando o cancro consumia aos poucos sua vida, ele teve um encontro secreto com Margaret em um almoço no palácio de Kensington. “Foi uma espécie de adeus”, disse uma amiga da princesa. Uma triste despedida para o romance que não puderam viver, quando foram forçados a se separar em nome da sobrevivência da Casa Real.

 

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

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