Na sombra da Coroa: Margaret Rose, a infância e a juventude da irmã da rainha Elizabeth II!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 21 de agosto de 1930, Elizabeth Bowes-Lyon, duquesa de York, entrava em trabalho de parto pela segunda vez. A esposa do príncipe Bertie (segundo na linha de sucessão ao trono britânico), estava no lar ancestral de sua família no castelo de Glamis, na Escócia, quando deu à luz mais uma menina, batizada de Margaret Rose. Seus avós paternos eram ninguém menos que o rei George V do Reino Unido e a rainha Mary de Teck. Margaret, ou Margot, como era chamada pelos seus familiares, pertencia a uma dinastia fundada sobre os destroços da Primeira Guerra Mundial, quando outras casas reinantes mais antigas sucumbiram aos ventos da reforma política que varreu a Europa após o ano de 1918. A situação da monarquia constitucional na Inglaterra era, portanto, delicada e aquela pequena princesa teria um importante papel a cumprir no jogo de dissimulações necessárias para manter as aparências desta instituição, que desmoronava aos poucos. No dia 30 do mesmo mês, ela foi batizada na capela privada do palácio de Buckingham pelo arcebispo de Canterbury. Dizem que seu registro de nascimento foi atrasado por alguns dias, para evitar que coincidisse com o 13º registro da paróquia.

A rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon, com suas duas filhas, as princesas Elizabeth (atual rainha) e Margaret.

Com efeito, a superstição do número 13 como um signo de azar demonstrava tanto um receio por parte dos pais da criança, como também lança uma sombra de dúvida quanto ao futuro dela. Afinal, quem poderia imaginar naquele ano de 1930 que a princesa Margaret causaria um verdadeiro frisson na monarquia durante as próximas décadas? Na época de seu nascimento, era então a quarta na linha sucessória ao trono, vindo logo atrás de sua irmã Elizabeth, quatro anos mais velha. A pequena família (“nós quatro”, como dizia o duque de York) vivia em uma casa vitoriana recém-reformada, conhecida como Royal Lodge. Situada no parque de Windsor, a residência era circundada por árvores frondosas e jardins. Foi nesse cenário idílico que Margaret passou os primeiros anos de sua vida, apartada da vida comum e sem amigos que não pertencessem ao círculo íntimo da realeza. Isso deu às princesas uma noção muito vaga do que acontecia para além dos muros de sua residência, embora algumas tentativas de as inserir no mundo real tivessem sido feitas. Viagens de metrô e de ônibus, idas a Museus e excursões foram incluídas nesse programa, mas tudo organizado de forma a evitar o contato com as multidões.

A infância de Elizabeth e Margaret foi esmiuçada pela sua antiga governanta, Marion Crawford, em um livro publicado em 1950 sob o título de The Little Princesses. O quadro que Crawford pinta para os seus leitores mistura cores alegres em tons pasteis de uma meninice feliz e segura, amparada pelo espirito alegre e vivaz da duquesa e do duque de York. Conforme ressalta Andrew Marr:

O livro de Crawford dá muitos detalhes convincentes para as traquinagens na hora do banho e de se vestir, das brincadeiras de cavalinho e os risos. George VI, como duque de York e como rei, era um pai fisicamente ativo, fã das lições de montaria e de jogar com suas filhas. Como outros já disseram, tinha mais gosto pela diversão do que senso de humor, mas para crianças pequenas, a primeira qualidade é muito mais importante. Ele gostava de jogos de carta, charadas, mímicas e teatrinhos, assim como suas filhas. Em seu livro, Crawford revelou que a duquesa certa vez escreveu um bilhete para ele ler caso ela falecesse, lembrando-o: “Não ridicularize suas filhas ou ria delas. Quando elas dizem coisas engraçadas, geralmente o fazem inocentemente… Tente sempre falar baixo com crianças… Lembre-se de seu próprio pai, que ao gritar com você e fazer você se sentir desconfortável, perdeu toda a sua verdadeira afeição. Nenhuma de nossas filhas é amiga dele” (MARR, 2012, p. 94).

Por mais bem intencionadas que tivessem sido as intenções de Marion Crawford, ou “Crawfie”, como as meninas a chamavam, a publicação de The Little Princesses expôs um lado muito íntimo da família real, abrindo assim precedente para que outras obras do mesmo gênero (e bem menos respeitosas) fossem lançadas. Apesar disso, seu relato lança luz sobre a vida das filhas do casal de York, quando a perspectiva de um dia herdarem o trono pareciam bastante remotas. Isso tudo mudou quando, em 20 de janeiro de 1936, o rei George V faleceu. 11 meses depois, seu filho mais velho e herdeiro, Edward VIII, abdicou do trono em favor de seu irmão, Bertie. A partir desse momento, as vidas de Elizabeth e Margaret mudariam completamente.

De acordo com o relato de Marion Crawford, foi ela quem disse às duas princesas que seu pai seria rei. “Quando eu dei a notícia a Margaret e Lilibet de que elas se mudariam para o palácio de Buckingham, elas me olharam estarrecidas. ‘O quê?’, disse Lilibet. ‘Você quer dizer, para sempre?’”. No dia da proclamação, o novo soberano saiu de casa com um semblante abatido, vestindo seu uniforme da esquadra. “Tive então de explicar a elas que, quando papai viesse almoçar a uma da tarde, ele seria o rei de Inglaterra e elas teriam de fazer reverência para ele. Os filhos da realeza sempre fizeram reverência para seus avós desde seus primeiros anos de vida”. Elizabeth, que tinha então 10 anos, lhe perguntou: “E você está dizendo que agora temos de fazer isso para papai e mamãe também?”. Como a governanta confirmasse, a princesa continuou seu inquérito: “‘A Margaret também?’ Eu lhe disse: ‘A Margaret também, e cuidado para não caírem para frente’”. Quando o rei voltou, elas fizeram a reverência”. Diante da mesura das filhas, George VI ficou paralisado por um tempo. Em seguida, ele dobrou os joelhos e as beijou carinhosamente. Era o início de uma nova fase. Deixariam de viver no confortável Royal Lodge para o mais frio e grandioso palácio de Buckingham.

A família real na sacada do palácio de Buckingham, depois da coroação de George VI. Da esquerda para a direita: a rainha Elizabeth Bowes-Lyon, a princesa Elizabeth, a rainha-viúva Mary de Teck, a princesa Margaret e o rei George VI.

Com efeito, quando se deu conta de que sua irmã mais velha era a presuntiva herdeira da Coroa, a pequena Margaret teria a confrontado, perguntando-lhe se aquilo significava que ela seria rainha uma dia. “Suponho que sim”, respondeu Elizabeth. As duas estavam presentes na cerimônia de coroação, em 12 de maio de 1937 e depois foram vistas na sacada do palácio de Buckingham, acenando para uma multidão de súditos. Segundo Bertrand Meyer-Stabley:

Margaret sofreu muito por ser apenas a segunda. Na festa da coroação, em 12 de maio de 1937, queixa-se por ter uma diadema menor do que a da irmã. Esta, irritada, deixa escapar: “Margaret quer sempre tudo o que eu tenho…”. Um pormenor protocolar volta a melindrá-la, no fim desse dia memorável: “por que é que na abadia rezaram em voz alta para Elizabeth e por mim não?”. Mas não exageremos. Não foi Margaret quem pronunciou a reflexão da futura Elizabeth I, que teria desabafado, no reinado da irmã Mary: “sei bem o que é ser a segunda…” (MEYER-STABLEY, 2002, p. 196).

Educadas em casa, as princesas desde cedo foram criadas como se fossem gêmeas, vestindo roupas de modelos iguais até a adolescência. Nas fotos de jornais e documentários, a imagem transparente é a de duas jovens cujas identidades foram moduladas pela casa real, servindo como uma espécie de exemplo para outras garotas de sua geração. Quando Margaret também quis ter aulas de História com o tutor de Eton que ensinava a Elizabeth, disseram-lhe que “isto não é necessário para si”. Chateada, a princesa retorquiu: “Nasci tarde demais”. Os criados do palácio a consideravam uma criança mimada e “terrível”, “absolutamente impossível”. Porém, aos olhos indulgentes dos pais ela era sempre espontânea e engraçada. Como era menos cobrada do que a irmã mais velha, Margaret fazia troça de sua situação: “Eu não preciso ser tão rígida e cumpridora dos deveres como Lilibet. Posso ser tão brutal quanto quiser”.

Relegada ao papel de herdeira suplente, a princesa se queixava: “Eu costumava ser Margaret Rose de York, agora sou Margaret Rose de nada”. Em 1939, porém, a Europa entrou em outra Grande Guerra, mais sangrenta e potencialmente danosa do que a primeira. Temendo pela vida das filhas, o rei e a rainha as mandaram para a segurança do castelo de Windsor, onde estariam protegidas dos bombardeios alemães. Enclausuradas naquele reduto medieval que emprestava seu nome à nova dinastia, as duas princesas passavam o tempo montando teatrinhos para uma seleta audiência. Enquanto Elizabeth geralmente interpretava os papeis masculinos, Margaret ficava com personagens como a Bela Adormecida ou Cinderela. Conforme cita Bertrand-Meyer:

Um parente da rainha-mãe presta testemunho acerca desta época: “recordo-me de uma cena bastante engraçada. Uma tarde, Margaret, então com 10 anos de idade, fazia o papel de querubim, numa pantomima representada em Buckingham. Um alto dignitário perguntou-lhe se, ao vestir aquela máscara, ela se sentia com uma alma angélica: ‘eu!’, exclamou a criança, indignada com semelhante suposição, ‘eu sou o terror da família’”. Para uma princesa real, as suas atitudes são de fato pouco habituais: aos quatro anos, vai para debaixo da mesa, para fazer cócegas nos pés dos convivas; aos sete, boceja ruidosamente durante a coroação do pai; aos onze, semeia cenouras no meio das dálias plantadas pela princesa herdeira (MEYER-STABLEY, 2002, p. 196-7).

Algumas anedotas sobre disputas entre as irmãs sobreviveram dessa fase. Dizem que a mais nova mordia de vez que quando a mais velha, que por sua vez revidava com comentários maldosos sobre o peso e falta de jeito da outra. “Margaret sempre quer o que eu quero”, reclamava Elizabeth, enquanto sua irmã choramingava pelos cantos, dizendo: “Eu não sou ninguém”. Outras histórias afirmam que a herdeira presuntiva do trono costumava repreender a menor por sua falta de educação e por não ser “bondosa” com as pessoas. “Margaret quase esqueceu de dizer ‘Obrigada’, Crawfie”, disse Elizabeth à sua governanta. “Mas eu lhe dei uma cotovelada, e ela o disse perfeitamente”. Quando a irmã mais velha se tornou chefe da sua patrulha de escoteiras, não olhou com indulgência até mesmo para a mais nova: “Aqui eu não sou tua irmã e não permito qualquer negligência”. Contrariada, Margaret teria lhe mostrado a língua e dito: “Tu tomas conta do teu império e eu tomo conta de mim mesma”.

Elizabeth e Margaret numa pantomina de Aladin, em 1943.

Para a pequena Margaret, contrariar as regras do decoro era como sair da sombra da irmã mais velha. Dizem que quando tinha 11 anos, em Windsor, ela molhava a ponta dos biscoitos na xícara de chá, dizendo maliciosamente que “a mamã não gosta que eu faça isto, diz que não é bonito”. Um ano depois, pregou uma peça na sua guia escoteira, arrancando os pregos de uma tábua do píer para que ela tropeçasse e caísse na água. Já aos 14, foi encontrada na adega do castelo, saboreando um espumante. Apesar dessas traquinagens, ela e Elizabeth se tornariam praticamente inseparáveis na maioridade. O confinamento no castelo de Windsor forjou um elo inquebrável entre ambas. Enquanto seus pais atuavam na linha de frente do cenário político durante a guerra, as princesas eram mantidas afastadas dos olhos públicos. O palácio de Buckingham chegou a ser bombardeado oito vezes e em uma dessas ocasiões o cômodo onde estavam o rei e a rainha quase foi atingido. Longe dali, em seu esconderijo em Amsterdã, a jovem judia Anne Frank colecionava nas paredes do seu quarto fotos de Elizabeth e Margaret, a quem ela admirava. Destino mais diferente não poderia separar essas três jovens. Enquanto as princesas sobreviveram incólumes ao conflito, a infortunada Anne terminou seus dias em um campo de concentração, pouco antes da guerra chegar ao fim.

No dia da vitória, Elizabeth e Margaret tiveram autorização para tomar parte nas comemorações, se misturando às pessoas em celebração pelas ruas. Foi a primeira e única vez que as jovens tiveram um contato mais estreito com o mundo para além dos muros do palácio. Elas caminharam de braços dados em pequenos grupos pelo Hyde Park, com capas e gorros, cantando alegremente com a multidão. Na época, Margaret tinha 15 anos e desabrochava aos poucos em uma jovem linda e intrépida. De acordo com Andrew Marr:

O temperamento é um misterioso ingrediente, e Margaret – com 15 anos quando a guerra acabou – era a queridinha insolente de seu pai. Ela era engraçada, esperta e musical, e, enquanto Elizabeth era treinada para ocupar o trono, Margaret tinha certas liberdades. Não há dúvida de que a natureza de Margaret foi consideravelmente moldada pelo lugar que ocupava na família, mas seus talentos para o humor mordaz, para o mimetismo e para a música sugerem uma mulher que teria florescido em outras circunstâncias (MARR, 2012, p. 112).

O término da Segunda Guerra Mundial colocou em cena também outro indivíduo, que teria um papel importante na vida da princesa: Peter Townsend, membro da Real Força Aérea que foi empregado como escudeiro do rei. Margaret acabou desenvolvendo um interesse particular por ele. Com o passar dos anos, essa curiosidade acabou evoluindo para um romance secreto. A descoberta do caso abalaria sistematicamente a imagem da monarquia.

Princesa Margaret fotografada por Cecil Beaton, em 1951.

Com efeito, esperava-se que as princesas se casassem com algum herdeiro de uma família rica e aristocrática, como os Westmorland, os Rutland ou os Blandford. Mas enquanto as atenções de Elizabeth já estavam voltadas para seu primo em terceiro grau, o príncipe Philip da Grécia e da Dinamarca, o futuro matrimonial de Margaret pairava na incerteza. Em 1947, durante uma viagem da família para a África do Sul, ela fez sua primeira apresentação oficial após a Guerra. Townsend ficou responsável pela princesa durante a travessia marítima. Mas, ao que tudo indica, ele a achou uma garota bastante mimada. Mais tarde naquele ano, a jovem atendeu como dama de honra no casamento de sua irmã com Philip. Após o nascimento de seus sobrinhos Charles e Anne, em 1948 e 1950, respectivamente, ela foi empurrada novamente para o quarto lugar na linha de sucessão do trono. Apesar disso, seu brilho junto aos holofotes não esmoreceu. Pelo contrário! Com a ebulição dos anos dourados da década de 1950, a subjetividade da princesa Margaret aflorou de forma surpreendente. Logo, a impressa a estaria chamando de “a solteira mais cobiçada do mundo”. No entanto, seus vívidos olhos azuis estavam apontados apenas para o perfil de uma única pessoa: o escudeiro de seu pai!

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

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