Seria Charlotte de Mecklenburg a primeira soberana de ascendência africana na história do Reino Unido?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 19 de maio de 2018, quando o príncipe Henry da Grã-Bretanha se casou com a atriz americana Meghan Markle, um dos assuntos mais comentados nos tabloides mundiais foram as origens étnicas da noiva. Pela primeira vez na história moderna, uma mulher negra se casava com um membro da família real inglesa. O fato acabou gerando um questionamento mais aprofundado sobre a ancestralidade dos Windsor. Especialistas conseguiram estabelecer um link entre a rainha Elizabeth II e o profeta Maomé e até com o famoso conde Drácula. Contudo, a chegada de Meghan apontou para a possibilidade de haver outro membro da realeza cuja linhagem poderia remontar a algum antepassado negro: a rainha Charlotte de Mecklenburg-Strelitz. Em seu tempo de vida, a soberana foi descrita com “cara de mulata” (na opinião do médico real barão Christian Friedrich Stockmar) e chamava atenção pela cor de sua pele e suas características físicas, “com seu nariz e lábios muito grossos”. Recentemente, o assunto voltou para o topo dos mais comentados pela mídia, devido à série da Netflix “Bridgerton”, novo drama de época escrito por Shonda Rhimes, que traz a atriz Golda Rosheuvel no papel da esposa do rei George III.

Golda Rosheuvel no papel da esposa do rei George III na série da Netflix “Bridgerton”, novo drama de época escrito por Shonda Rhimes.

Com efeito, a escolha de Golda para a rainha Charlotte evidenciou como negros e mestiços estiveram presentes na sociedade inglesa no início do século XIX (e mesmo antes, se pararmos para analisar). Ou, na opinião do crítico de televisão Hank Stuever: “uma personagem negra para explicar, grandiosamente, como e por que essa sociedade veio a ser integrada”. Nascida em 19 de maio de 1744, Charlotte era a filha mais nova do duque Carl Ludwig Friedrich de Mecklenburg-Strelitz e da princesa Elisabeth Albertine de Saxe-Hildburghausen. De origem germânica, ela tinha apenas 17 anos quando viajou por mar até a Inglaterra, onde se casou com o rei George, em 8 de setembro de 1761 (apenas seis horas após desembarcar no país). Na época, ela não sabia sequer uma palavra em inglês e teria se atirado em reverência aos pés do marido de 22 anos assim que o viu. Em 12 de agosto de 1762, a nova rainha deu à luz ao primeiro filho do casal, o príncipe de Gales e futuro rei George IV. Mais 14 crianças se seguiriam ao nascimento do primogênito, fazendo de Charlotte uma das soberanas mais prolíficas da história inglesa. Assim, ela teria passado uma dose de sangue mouro aos seus descendentes.

Retrato de coroação da rainha Charlotte de Mecklemburgo-Strelitz, por Sir Allan Ramsay.

Tendo o palácio de St. James como residência oficial, o casal de monarcas, entretanto, preferia passar mais tempo em Buckingham. Ali, a soberana teve quase todos os seus filhos e o lugar foi então apelidado de “a casa da rainha”. Charlotte era uma verdadeira botânica amadora e adorava música, especialmente a de compositores alemães, como Handel. Infelizmente, seu longo casamento caminhou para um desfecho triste, quando o rei começou a sofrer com suas crises mentais. Declarado insano em 1811, o príncipe de Gales foi então apontado como regente em nome do pai. A rainha Charlotte permaneceu como uma fiel guardiã de seu marido até a sua própria morte, em 1818. Muitos historiadores, como Mario De Valdes y Cocom, argumentam que a soberana era descendente direta de um ramo bastardo da família real portuguesa, proveniente do rei Alfonso III e de sua amante Madragana Ben Aloandro, uma moura de pele escura. No século XIII, o monarca havia conquistado uma pequena cidade moura chamada Faro e exigiu do alcaide local sua filha como tributo. De acordo com os registros, Alfonso teve três filhos com Madragana. Os descendentes de um desses filhos, chamado Martín Alfonso, por sua vez, se casaram fidalgas da família Sousa, que também possuía ancestralidade negra.

Árvore genealógica ligando o rei Alfonso III de Portugal à rainha Charlotte.

Sendo assim, Charlotte teria sangue africano correndo nas veias através dessas duas famílias. Em 1967, Valdes descobriu um registro do barão de Stockmar, que descrevia a rainha como “pequena e torta, com um verdadeiro rosto de mulata”. Já o famoso romancista Sir Walter Scott a chamou de “mal-colorida”, enquanto o Primeiro-Ministro disse que “seu nariz é muito largo e seus lábios muito grossos”. Embora essas descrições transportem consigo um profundo cunho pejorativo e racista, uma vez que a aparência da rainha foi desqualificada pelo seu “rosto de mulata” e pele “mal-colorida”, por outro lado, nos dão um bom indício acerca da linhagem de Charlotte. Muitos habitantes das colônias britânicas na África celebravam a esposa do rei por considerarem-na uma semelhante. Convencidos por seus retratos pintados e efígies cunhadas em moedas, eles acreditavam que ela tinha ascendência africana. Em 1999, o jornal London Sunday Times publicou a seguinte matéria:

REVELADO: OS ANCESTRAIS NEGROS DA RAINHA. Havia rumores sobre a conexão, mas nunca foi provada […] A família real escondeu credenciais que tornam seus membros líderes apropriados da sociedade multicultural britânica. Existem ancestrais reais negros e mestiços que nunca foram reconhecidos publicamente. Um genealogista americano estabeleceu que a rainha Charlotte, esposa de George III, era descendente direta de filho ilegítimo de uma amante africana na casa real portuguesa.

Para mapear a ascendência da soberana até o ramo mestiço da família real portuguesa, Valdes disse que fez “uma busca genealógica sistemática”. Em um retrato pintado em 1764 por Sir Allan Ramsay, Charlotte aparece usando um vestido de seda rosa e segurando duas crianças. Seu cabelo em tons castanho-escuro está preso no alto. O pintor, por sua vez, era um abolicionista casado com a sobrinha de Lord Mansfield (juiz que determinou que a escravidão deveria ser abolida em todo o Império Britânico em 1772) e não disfarçou os traços africanos do rosto da esposa do rei, como fizeram outros artistas.

Charlotte e seus dois filhos, por Allan Ramsay.

Depois que a notícia foi publicada no Times, o Boston Globe reconheceu a pesquisa de Mario De Valdes y Cocom como inovadora. Mas alguns estudiosos, como David Williamson, ex-co-editor do Debrett’s Peerage (o guia dos barões, duques e duquesas, marqueses e outras pessoas nobres da Grã-Bretanha), torceram o nariz: “É realmente tão remoto”, disse. “Em todo caso, todas as famílias reais europeias em algum lugar estão ligadas aos reis de Castela. Há muito sangue mouro na família real portuguesa que se espalhou pelo resto da Europa. A questão é: quem se importa?”. Mas, para muitos, o fato de existir na história do Reino Unido uma soberana com características africanas, que foram passadas adiante para suas descendentes, como a rainha Vitória e a rainha Elizabeth II, é bastante relevante. Que ela tenha se casado na maior nação colonizadora dos séculos XVIII e XIX, irônico! Afinal, evidencia como a família real, com seu antigo preconceito étnico e forte dose de sangue germânico, recebeu através dele algumas gotas de sangue negro. “Bridgerton”, a nova série Netflix, só fez renovar o interesse na possível ascendência africana dos Windsor.

Fonte: Washington Post – Acesso em 30 de dezembro de 2020.

4 comentários sobre “Seria Charlotte de Mecklenburg a primeira soberana de ascendência africana na história do Reino Unido?

  1. Na serie BRIDGTON fiquei surpresa com a autora da obra não ser Julia Quin ,pois ela e autora de outros livros sobre os BRIDGTONS Também gostaria de saber se realmente existiram outros nobre negros na qualidade de inclusive duques no reinado de George III .
    Sou uma leitora constante e seguidora de seu blog RAINHAS TRAGICAS

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  2. A rainha Charlote de Mecklemburg descendia da moura Mandragona,por sua vez,amante do Rei Afonso III de Portugal.Ela era filha de Aloandro Ben Bekar,Alcaide de Faro(Algarve).

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