A Rainha Elizabeth II e sua luta de 70 anos para salvar a casa de Windsor – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

O casamento de uma princesa de sangue real é um assunto extremamente importante para uma instituição como a monarquia. No período absolutista, as filhas dos reis eram usadas como moeda de troca no jogo de alianças diplomáticas estabelecidas pelas antigas casas reais. Mas, com a ascensão dos valores do burgueses, com o crescimento do individualismo e a difusão dos ideais românticos pela literatura, aos poucos essa noção arcaica deixou de ser regra nos casamentos reais. Concluída a viagem da família real pela África do Sul, o matrimônio da herdeira do trono passou a ser o assunto principal nos jornais. O candidato podia não ser um nobre de estirpe tão elevada, mas demonstrou grande patriotismo lutando pelos ingleses na Segunda Guerra Mundial. Assim, o noivado da princesa Elizabeth com Philip Mountbatten foi anunciado no dia 10 de julho de 1947. Ele renunciou a todos os seus títulos estrangeiros e recebeu em troca a Ordem da Jarreteira e o título de duque de Edimburgo, com tratamento de Sua Alteza Real. Aquele casamento foi visto por muitos como um lenitivo para a baixo ânimo que a Inglaterra enfrentava após o término da Guerra.

Fotografia do casamento de Elizabeth e Philip, tirada em 20 de novembro de 1947.

Portanto, a cerimônia deveria ser algo espetaculoso e que chamasse a atenção dos súditos. Para o vestido da noiva, o estilista Norman Hartnell se inspirou na Primavera de Botticelli, com várias flores bordadas no tecido cor de marfim que Elizabeth usou para entrar na abadia de Westminster, em 20 de novembro. Muitos enxergavam a jovem herdeira como um símbolo nacional, que representava a juventude e o nascimento de uma nova Grã-Bretanha. Já os parentes alemães do noivo, incluindo suas irmãs casadas com homens ligados ao partido nazista, não foram convidados. Apesar disso, a cerimônia atingiu seu objetivo e lançou nacionalmente a imagem de Elizabeth como a futura soberana. Apenas três meses depois da cerimônia, ela anunciou que esperava seu primeiro filho. Charles Philip Arthur George, ou simplesmente Charles, nasceu em 14 de novembro de 1948. Pouco depois, sua mãe foi morar com o duque em Malta, onde ele servia como oficial naval. Segundo amigos próximos, Elizabeth descreveu essa fase entre o casamento e a ascensão ao trono como a mais feliz de sua vida. Dois anos depois, em 15 de agosto de 1950, nasceu a princesa Anne, que imediatamente ocupou o terceiro lugar na linha de sucessão ao trono, atrás de sua mãe e do irmão.

É possível que a nova Elizabeth Mountbatten esperasse aproveitar ainda por muitos anos sua vida de esposa de dona de casa. Mas a situação do rei George VI ia nada bem. Após uma cirurgia delicada para remover um pulmão, o monarca ficou bastante debilitado e aos poucos foi delegando para a filha o cumprimento dos deveres oficiais. Foi durante uma viagem ao Quênia, quando ela estava representando o pai numa turnê pela África, que a jovem soube através do marido que o rei George VI havia falecido enquanto dormia, no dia 6 de fevereiro de 1952. Ele tinha 56 anos quando deu seu último suspiro, enquanto sua sucessora apenas 25 quando assumiu seu lugar como monarca reinante. Assim, Elizabeth II se tornou a primeira soberana aclamada fora da Inglaterra desde 1714, quando o rei George I, eleitor de Hanôver, foi convocado para suceder a falecida rainha Ana no trono. O reino que a nova soberana herdou ainda era um território imerso no patriotismo do pós-guerra e a monarquia tinha um papel fundamental na vida pública. Muito diferente das décadas seguintes, quando movimentos republicanos ameaçaram a estabilidade do regime.

Em benefício da jovem rainha, ela tinha como mentor e guia ninguém menos que o Primeiro-Ministro Winston Churchill, reeleito apenas um ano antes. Embora ciente das tentativas dos membros mais jovens do Partido Conservador para tira-lo do poder, Churchill se agarrou à nova monarca como uma espécie de bote salva-vidas, conquistando a sua confiança para assim permanecer no cargo. Afinal, Elizabeth trazia consigo a promessa da continuidade das políticas de seu pai e avô. Sempre discreta e cautelosa, a soberana aprendeu que seus gestos, por mais ínfimos que pudessem parecer, eram motivo de debate público. Seu trabalho consistia em apoiar as políticas dos Premiês, ser consultada, aconselhar e advertir. Definição essa que foi estipulada pelo jornalista Walter Bagehot no século XIX, quando a tataravó de Elizabeth, a rainha Vitória, reinava sobre o maior império do mundo. Entre uma e outra, existem diferenças consideráveis. Enquanto Vitória era mais assertiva, sua sucessora sempre deu preferência a uma abordagem mais cautelosa. Suas aparições tem o poder de fortalecer as conexões emocionais e sentimentais entre a Coroa e os seus súditos. Um bom exemplo disso foi a cerimônia de coroação, ocorrida em 2 de junho de 1953.

Fotografia oficial da coroação da rainha Elizabeth II.

Com efeito, o status da monarquia popular criada por Elizabeth II foi confirmado durante esse evento, cujo processo litúrgico, que remonta ao ano de 973 d.C. com o rei Edgar, foi televisionado pelas câmeras da BBC. O marido da rainha ficou encarregado de planejar todos os preparativos. Alguns dias antes, ela podia ser vista ensaiando os pormenores do cerimonial, com a Coroa de Santo Eduardo na cabeça e uma toalha servindo como manto. Para a ocasião, todos os soldados desertores da Guerra foram anistiados e mais de 40 mil pessoas dormiram nas ruas de Londres para ver o cortejo passar em direção à velha abadia de Westminster, onde os soberanos eram geralmente coroados. Fazia um frio cortante no dia, mas nem a baixa temperatura ou a chuva que caia a intervalos regulares diminuiu o entusiasmo do povo. Em toda a Comunidade de Nações, o dia 2 de junho foi declarado feriado. As pessoas se aglomeravam nas casas de vizinhos que tinham um aparelho de rádio ou TV para assistir a jovem rainha, ricamente paramentada, seguir em procissão até o prédio de construção medieval. Em termos de sucesso midiático, podemos considerar a transmissão da coroação de Elizabeth II como o acontecimento que inaugurou a Era da TV. A partir de então, quase todos eventos da família real, desde casamentos, batismos, jubileus e funerais, seriam televisionados.

Dessa forma, a televisão teve um papel importantíssimo na construção da imagem da família real inglesa, transformando-os em verdadeiras celebridades. Por ser um rosto internacionalmente conhecido, a rainha é o maior trunfo diplomático do governo inglês. Não é ela quem escolhe os destinos de suas viagens pelo mundo e muitos acordos diplomáticos já foram firmados graças à sua presença, a exemplo dos tratados com os Emirados Árabes. Atualmente, ela serve de guia para Premiês mais jovens, devido à sua experiência de quase 70 anos como soberana reinante. Como esposa, Elizabeth deveria ser um exemplo de obrigação nupcial, fidelidade e união familiar. Como monarca, sua função é aceitar sem reservas os conselhos dos Primeiros-Ministros e jamais se envolver em política partidária. Caso contrário, ela estaria colocando toda a instituição em perigo. A rainha, por exemplo, não compartilha suas malas diplomáticas com o príncipe Philip e tampouco permite que o marido participe de suas reuniões com os Premiês. De acordo com o protocolo, ele deve sempre andar quatro passos atrás da esposa, para evidenciar que ela é a autoridade máxima na instituição, ou a “Firma”, como o próprio Philip se refere à monarquia.

Entretanto, o fato de ser casada como um príncipe de ascendência grega e dinamarquesa gerou algumas complicações para a jovem monarca no ano de sua ascensão. Foi dito que Louis de Mountbatten, tio de Philip, brindou à nova dinastia de “Mountbatten” (originalmente Battenberg) um dia depois do funeral do rei George VI. Horrorizada com essa notícia, a rainha-viúva Mary de Teck se queixou com Winston Churchill, lembrando-lhe do decreto de 1917 que estabelecia a casa de “Windsor”. Assim sendo, em 9 de abril de 1952 Elizabeth anunciou que não pretendia mudar o nome da casa reinante e que, doravante, seus filhos seriam conhecidos pelo sobrenome de Windsor. Sem dúvidas, esse foi um golpe duro para as pretensões de Mountbatten e para a masculinidade de Philip. Ele sequer recebeu o título de príncipe consorte, uma honra que foi concedida ao marido da rainha Vitória, o príncipe Albert. Apenas em 1957 lhe foi dado o título de príncipe do Reino Unido, equiparando-o ao seu filho, o príncipe de Gales, e ao duque de Windsor, o antigo rei Eduardo VIII. Este, por sua vez, assistiu à cerimônia da coroação na casa da americana Margaret Thompson Bidle, em Paris. Quem também conferiu o evento foi a futura Primeira-Dama dos Estados Unidos, Jacqueline Bouvier, enviada de Washington para fazer a cobertura jornalística pelo Times Herald.

Em 1952, a revista Times elegeu a rainha como A Mulher do Ano

Na época, a coroação de Elizabeth II foi o espetáculo mais caro da história britânica e a rainha estava no auge de sua popularidade. Em 1952, a revista Times a elegeu como A Mulher do Ano. Mas seus poderes eram mais representativos do que qualquer outra coisa. De acordo com os dispositivos que regem a conduta política da Coroa com relação aos comuns, o monarca tem o direito de dissolver o governo, de declarar guerra, de licenciar o exército, vender todos os navios da marinha, dissolver a função pública, ceder territórios a uma potência estrangeira, conceder um título nobiliárquico a qualquer pessoa, declarar estado de emergência, perdoar infratores ou fundar universidades. Mas, por questão de cautela, Elizabeth se abstém de usar a maioria desses poderes. Ela reina, mas não governa. A rainha também é chefe de duas Igrejas: a Igreja Anglicana, que é episcopal, e a Igreja da Escócia, que é presbiteriana. Pouco depois de sua coroação em Londres, ela foi novamente sagrada com a coroa escocesa, em Edimburgo. Em seguida, ela e Philip saíram em turnê pelos países que fazem parte da Comunidade de Nações, para apresentar a nova soberana aos seus súditos. Parecia o começo glorioso para uma difícil jornada que Elizabeth II encontraria pela frente.

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

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