A filha dos césares: Dona Leopoldina, uma imperatriz nos trópicos!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Leopoldina de Habsburgo-Lorena é uma das personagens mais interessantes da história brasileira, graças aos papel que desempenhou no processo de emancipação política do país. Mais do que uma soberana consorte reinando em um país tropical, ela também promoveu um verdadeiro intercâmbio cultural entre a Europa e o Brasil. Por isso, sua figura pode se constituir em um elo entre o chamado velho e novo mundo. Interessada em botânica e mineralogia, a imperatriz contribuiu de forma decisiva para que a cultura, a fauna e a flora brasileira se tornasse mais conhecidas no exterior. Mas, apesar dos recentes esforços feitos para destacar sua importância no cenário histórico atual, poucos são aqueles que se lembram da esposa de Dom Pedro I como a mulher astuta que ela foi. Perto de outras arquiduquesas austríacas, Leopoldina é quase desconhecida, embora tenha sido uma pessoa dotada de muitas capacidades intelectuais, acompanhadas de sentimentos como o amor pela família, o carinho pela sua pátria de adoção e o respeito para com seus habitantes. Repensar a sua figura é, portanto, uma forma de compreender os eventos ocorridos na primeira metade do século XIX, que culminaram no 7 de setembro de 1822.

Retrato em miniatura da arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo-Lorena.

Nascida em Viena, no dia 22 de janeiro de 1797, Leopoldina de Habsburgo-Lorena descendia de uma das casas reinantes mais poderosas do período. Quando criança, a jovem arquiduquesa sentiu de perto todas as transformações que sacudiram a Europa naqueles anos, marcados pelas guerras napoleônicas. Esses eventos deixaram uma marca indelével no seu caráter e na sua forma de enxergar as coisas do mundo. Como filha do imperador Francisco I da Áustria, chefe da Santa-aliança, Leopoldina foi educada dentro dos princípios absolutistas, nutrindo verdadeiro pavor pelos ideais liberais, conforme podemos observar nas muitas cartas que ela escreveu aos membros de sua família. Seu destino, porém, já estava escrito desde o berço: servir aos interesses austríacos no jogo de alianças matrimoniais, da mesma forma como outras princesas europeias. O que a jovem talvez não esperasse é que seu futuro estaria bem distante da corte vienense, no longínquo e praticamente desconhecido Brasil, que era cede da corte portuguesa desde 1808. A curiosidade em torno daquele país era muito grande. Até mesmo Leopoldina chegou a confessar que “sempre tive singular pendor pela América e, quando criança, eu dizia que queria ir lá”.

Entretanto, uma viagem da Europa para o Brasil, naqueles anos, era muito perigosa, não apenas por causa das marés como também pelo tempo que durava a travessia. Leopoldina estava ciente de tais perigos e mesmo assim embarcou, sendo a primeira princesa austríaca a cruzar oceano Atlântico rumo ao continente americano. Levava consigo seu séquito de criados, objetos (incluindo três caixões para o caso de vir a falecer) e presentes para a nova família. Não obstante, fazia parte da comitiva da princesa uma equipe de famosos paisagistas e pesquisadores, como Johann Baptist Von Spix e Karl Philipp Von Martius, cuja missão era pesquisar e catalogar elementos da fauna e a flora brasileira. Tais registros seriam mais tarde compilados numa extensa bibliografia sobre o Brasil. Diversas espécies de plantas e animais foram enviados para museus e coleções de diversas, levando assim um pouco da cultura da América do Sul para a Europa. A comitiva de Leopoldina partiu então a três de junho de 1817, aportando na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, em cinco de novembro do mesmo ano. De seu navio, a princesa real escreveu muitas cartas para sua família em Viena, relatando seus medos e anseios. Embora pensasse o contrário, nunca mais veria a família outra vez.

O entusiasmo de Leopoldina pela vegetação brasileira já podia ser averiguado na carta que ela enviou ao seu pai assim que chegou ao Rio. Ao avistar a baía de Guanabara, disse que “que nem pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro; basta dizer-lhe que é a Suíça com o mais lindo e suave dos céus”. Porém, a terra prometida, tão distante da Viena natal, fazia muito calor e apresentava condições insalubres para uma moradia nos padrões a que ela estava acostumada. Tão logo sua lua de mel com o príncipe Dom Pedro chegou ao fim, a princesa percebeu com certo temor que os ventos políticos não sopravam de uma forma favorável para o rei Dom João VI. Em 1821, o monarca foi forçado a retornar para Portugal devido a uma revolução liberal ocorrida um ano antes, deixando seu primogênito como regente no Brasil. De sua parte, a futura imperatriz demonstrava nas cartas à irmã Maria Luísa o medo de que uma revolução como a que devastara a França três décadas antes também ocorresse no país. Temia principalmente o pendor do marido aos princípios liberais, em contraposição ao que denominava como “bons e velhos” preceitos, ou seja, as bases do regime monárquico.

O príncipe D. Pedro e a princesa Dona Leopoldina.

Tendo presenciado de perto os efeitos causados na Europa durante o império Napoleônico, Leopoldina percebeu que era o momento de agir. Decidida a se sacrificar pelos interesses da nação, passou a adotar o Brasil como sua segunda pátria, chegando até a denominar-se “brasileira” em algumas cartas. Uma vez nomeada regente e exercendo os mesmos poderes do marido enquanto ele estava em São Paulo, precisou tomar medidas urgentes, embora não sem que lhe causassem certo sacrifício pessoal. Amiga de José Bonifácio, Leopoldina tinha uma visão muito mais clara do futuro político do país do que o cônjuge e sabia que, caso D. Pedro acatasse a ordem das Cortes de Lisboa e retornar para Portugal, acabaria perdendo o trono do Brasil. Ao seu lado, contava com o apoio das províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, cujos habitantes eram em sua maioria adeptos do regime monárquico. Era preferível ver o príncipe ocupando o trono que antes pertencera ao pai, a quem se dizia prisioneiro dos facciosos portugueses, do que um desconhecido eleito por facciosos. Assim sendo, em 2 de setembro de 1822, à frente do Conselho de Estado, a princesa regente ouviu calmamente a opinião dos ministros e, juntos, decidiram pela independência do Brasil. Foi após essa reunião que a futura Imperatriz teria enviado ao marido em São Paulo uma carta contendo a frase emblemática: “O Brasil vos quer como monarca. Com vosso apoio ou sem vosso apoio ele fará a sua separação. O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece”.

Depois de ler essa carta, D. Pedro selou para sempre o destino do Brasil, ao proclamar, diante de poucos espectadores a emancipação política do país. Era o dia 7 de setembro de 1822! O ministro José Bonifácio, a respeito da participação da imperatriz Leopoldina, disse que “ela deveria ser ele!”. A filha dos césares provou em solo brasileiro que era uma autêntica descendente de Maria Tereza, a Grande (sua bisavó). Em seguida, ela trabalhou incansavelmente pelo reconhecimento da Independência do Brasil. Como era fluente em mais de um idioma e representava os interesses da casa d’Áustria em território nacional, D. Leopoldina enviou várias cartas às cortes europeias, para reconhecerem a soberania do Estado brasileiro. Por outro lado, Leopoldina também desempenhou as funções de uma agente cultural. enviando para a Europa muitos itens da cultura brasileira, especialmente artigos produzidos pelos índios, além de algumas espécies de plantas e animais empalhados. De Parma, sua irmã Maria Luísa enviava outros tantos objetos e livros, para fazer parte da pequena coleção que a Imperatriz estava montando. Até hoje existem alguns desses itens, preservados por instituições brasileiras, como o Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro).

Todavia, tanta luta política, aliada às desilusões amorosas sofridas por causa do marido, incluindo as gravidezes sucessivas (nove no total), cobrou seu preço ao aspecto físico e psicológico da Imperatriz. Alguns anos antes, afirmando estar imersa em profundo estado de melancolia, ela escreveu à irmã Maria Luísa que “nós, pobres princesas, somos tais quais dados, que se jogam e cuja sorte ou azar depende do resultado”. Analisando a trajetória dessa personagem, é interessante perceber o quanto ela excedeu as expectativas de sua família, desempenhando um papel significativo na política brasileira. Ao contrário de outras arquiduquesas da casa d’Áustria, Leopoldina foi muito bem sucedida em seus propósitos, sendo uma mulher admirável para o seu tempo. Dedicou-se a trabalhos e filantropia e contraiu dívidas vultosas para socorrer os mais carentes. Infelizmente, sua vida foi curta, tendo falecido aos 29 anos, mas legou aos brasileiros o testemunho de sua alma caridosa, sua competência e poder feminino. Apesar disso, nem todos se lembram de suas qualidades intelectuais e políticas, preferindo a narrativa da princesa triste e traída. Esse é um aspecto bastante lamentável da história de Leopoldina, visto que ela foi uma mediadora entre duas culturas diferentes e uma das responsáveis pela introdução da pesquisa científica no Brasil.

Letícia Colin como Dona Leopoldina em “Novo Mundo” (2017)

No dia 11 de dezembro de 1826, o Diário Fluminense apareceu com a sua primeira página tarjada de preto, dando aos seus leitores a notícia que eles mais temiam: às 10 horas e um quarto daquela manhã, faleceu Maria Leopoldina da Áustria. Depois de vários dias de preces públicas, destinadas à saúde da soberana, a doença finalmente venceu aquela que ficou conhecida como a Paladina da Independência. Por parte de toda a polução, vigorava o pesar pela perda de uma mulher que abraçou a nova pátria como se nela tivesse nascido. Era uma mulher querida por todas as classes sociais, incluindo a dos escravizados, de cuja condição de cativos ela sempre se horrorizou. Da boca deles, Maria Graham, amiga e confidente de Leopoldina, registrou o lamento: “quem tomará o partido dos negros? Nossa mãe se foi”. Conforme registrou o embaixador austríaco Mareschal: “uma dor muda de desespero tomava todas as fisionomias; negros, mulatos, portugueses, ingleses, italianos, alemães todos choravam em comum a morte da imperatriz”. Ela partiu pouco antes de completar 30 anos, deixando corações arrasados e cinco crianças órfãs no Paço de São Cristóvão. Para o Brasil, a herança de uma luta que se arrastaria por toda a posteridade.

Em 2013, Leopoldina foi assunto em diversas revistas e matérias de telejornais, graças ao excelente trabalho feito pela arqueóloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel que, junto com sua equipe, estudou e ajudou a conservar os remanescentes humanos de D. Pedro I e das suas duas esposas. Atualmente, eles estão sepultados na cripta imperial, dentro do Monumento ao Centenário da Independência. Nos últimos anos, a primeira Imperatriz do Brasil foi tema debates e exposições organizadas por instituições brasileiras como a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional. Contudo, a celebração da figura da filha dos césares não parou por aí. Novas biografias têm sido lançadas e Leopoldina já foi personagem de peça de teatro e até de novela, interpretada pela  talentosíssima Letícia Colin, na trama das 18h00 da Rede Globo, “Novo Mundo” (2017). A partir de então, o público entrou em contato mais estreito com a vida da primeira soberana do Brasil. Embora essas produções abusem da licença poética, criando situações que nunca existiram para deixar o enredo mais atrativo aos olhos do grande público, elas certamente contribuíram para que mais e mais telespectadores se interessassem pela vida e a obra de uma mulher tão singular quanto Dona Leopoldina.

Referências Bibliográficas:

AMBIEL, Valdirene Do Carmo. Estudos de Arqueologia Forense Aplicados aos Remanescentes Humanos dos Primeiros Imperadores do Brasil Depositados no Monumento à Independência. 2013. 235 f. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – MAE, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2013.

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

MAGALHÃES, Aline Montenegro; MARINS, Álvaro; BEZERRA, Rafael Zamorano. (Orgs.). D. Leopoldina e seu tempo: sociedade, política, ciência e arte no século XIX. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2016.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

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