O Massacre de São Bartolomeu: como Catarina de Médici, Elizabeth I e Felipe II reagiram à chacina dos huguenotes na França?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na madrugada do dia 24 de agosto de 1572, Diego de Zúñiga, embaixador espanhol na corte de França, escrevia freneticamente ao seu rei, Felipe II. Católico fervoroso, tal como seu amo, o diplomata emitia um despacho em que notificava com entusiasmo os terríveis assassinatos que aconteciam pelos bairros de Paris naquele momento: “Enquanto escrevo, eles estão matando todos, desnudando-os, arrastando-os pelas ruas, saqueando suas casas, e não poupam nem sequer as crianças. Louvado seja Deus que converteu os franceses à Sua causa” (apud FRIEDA, 2009, p. 343). Com essas palavras, Zúñiga dava conta de um dos maiores massacres cometidos em nome da religião na Idade Moderna, em que a fé católica foi usada como bandeira para chacinar milhares de protestantes huguenotes e suas famílias, que haviam comparecido à capital da França para participar dos festejos de casamento do rei Henrique de Navarra com a princesa Margarida de Valois. O matrimônio, que tinha por objetivo selar a paz entre as duas facções religiosas, cujos desentendimento inflamaram as chamas das guerras de religião na segunda metade do século XVI, acabou tendo o efeito oposto. Por volta das cinco horas da manhã, Paris era um verdadeiro cemitério, com milhares de corpos ensanguentados espalhados por todos os lugares.

Catarina de Médici, por François Clouet,

As tensões entre católicos e huguenotes já se arrastavam na França há pelo menos duas décadas, insufladas pelas disputas familiares entre Henrique de Guise e o almirante de Coligny. Mas, o que era para ser apenas uma execução das principais lideranças protestantes na França, acabou fugindo ao controle dos seus articuladores, mergulhando o reino em um onda de ódio e assassinatos que atingiu até o sul do país, palco para a derradeira crueldade iniciada pela chacina do dia 24 de agosto. Para justificar aqueles terríveis acontecimentos, o rei Carlos IX afirmou que havia uma conspiração arquitetada por Coligny para derrubar a família real do trono. Dois dias depois do atentado, o monarca emitiu uma declaração ao Parlamento, na qual assumia toda a responsabilidade pelos crimes: “Desejo que seja do conhecimento geral que as severas execuções dos últimos dias foram realizadas por minha expressa ordem, a fim de evitar os resultados dessa abominável conspiração” (apud FRIEDA, 2019, p. 348). O historiador Jacques-Auguste de Thou, que era filho do presidente da sessão parlamentar, condenou a “deplorável” reação dos deputados, que elogiaram o rei por um ato “abominável”, com a “falsa convicção de que as circunstâncias atuais e o bem do Estado exigiam que falassem do modo que o faziam” (apud FRIEDA, 2019, p. 349).

Por sua vez, Catarina de Médici, que certamente teve alguma influência na decisão do filho sobre executar os líderes huguenotes, acreditava que, eliminando os principais bastiões da oposição, estaria assim salvando a Coroa para seus filhos. O que ela não demorou a perceber, contudo, é que a verdadeira vítima do massacre foi a reputação da monarquia, bem como a dela própria. À medida em que a notícia se espalhava pela Europa, a rainha se viu como foco das atenções como governante católica. Quando finalmente soube do ocorrido na França, Felipe II da Espanha não conseguiu esconder seu sorriso e dançava em passos largos, enquanto a novidade era lida em voz alta. De acordo com seu biógrafo, Henry Kamen:

Felipe estava absolutamente aliviado e não escondia o fato. A ameaça dos líderes protestantes franceses, que desde o início da década de 1560 tinha sido o obstáculo principal para a política da Espanha, agora fora eliminada. […] A matança, um corolário da eliminação dos líderes, nunca foi a coisa mais importante em sua mente. Era irrelevante para seu “contentamento”. Ele estava pensando nos Países Baixos. Sua confiança na nova situação era tão imensa que, uma semana depois de ter recebido a notícia de São Bartolomeu, tomou a iniciativa sem precedentes de propor o transporte do ouro e da prata através da França, dada a insegurança da rota pelo canal. “O dinheiro que está sendo levado irá servir para dar cabo daqueles meus rebeldes que também são seus inimigos”, informou ele a Carlos IX (KAMEN, 2013, p. 211).

O rei parabenizou Catarina pelo que ele chamou de o “glorioso acontecimento” e acrescentou: “Tive um dos maiores momentos de satisfação em toda a minha vida, e terei outro se você continuar me escrevendo sobre o que está acontecendo em outras partes deste reino. Se as coisas continuarem como hoje, deixarão uma marca em toda a situação” (apud KAMEN, 2003, p. 211). O entusiasmo do rei da Espanha também era compartilhado por outros líderes católicos no continente. O cardeal Orsini, por exemplo, que estava de partida para a França como novo núncio apostólico, levou consigo os elogios e agradecimento do papa Gregório XIII, que reconhecia Carlos IX e Catarina de Médici como defensores da contrarreforma religiosa.

Catarina de Médici contemplando as vítimas do Massacre de São Bartolomeu, nos portões do Louve. Tela de Édouard Debat-Ponsan (1880).

Todavia, quando a notícia de que o massacre fora resultado de um plano mal orquestrado pela Coroa chegou aos ouvidos tanto de Felipe II quanto do papa, e de que as verdadeiras razões para o assassinato de Coligny foram políticas e não religiosas, os dois manifestaram a sua frustração com relação à procedência família real e, principalmente, sobre a rainha-mãe. De Veneza, o embaixador de Catarina, Arnaud du Ferrier, escreveu que a notícia do massacre não havia sido recebida de forma complacente naquela região italiana:

Madame, a verdade certa e indubitável é que os massacres que ocorreram por todo o reino da França, não só contra o almirante e outros importantes líderes da religião, mas contra muitas pessoas pobres e inocentes, comoveram e alteraram aqui tão profundamente o sentimento daqueles que têm amizade pela sua Coroa, apesar de serem todos católicos, que não conseguem mais se satisfazer com qualquer escusa, e lhe atribuem tudo o que foi dito exclusivamente à senhora e a monsieur d’Anjou (apud FRIEDA, 2019, p. 351).

Naquela época, ninguém ignorava a influência que Catarina de Médici exercia nas decisões de seu filho. Imediatamente, a rainha-mãe se tornou um bode expiatório para o massacre do dia 24 de agosto, apesar das alegações do rei Carlos IX de que fora ele o seu autor. Os huguenotes, agora em menor número, vivendo expatriados nos Países Baixos, responsabilizaram-na pelos crimes e deram início a uma massiva propaganda negativa contra a mulher a quem eles zombeteiramente chamavam de Santa Catarina. O mais virulento dos libelos, intitulado “Discurso Maravilhoso da vida, ações e conduta de Catarina de Médici”, impresso no verão de 1575, dizia que ela era a senhora de todos os pecados e lhe atribuíam comportamentos depreciativos, tais como a intriga, a duplicidade e a traição. “Mãe desnaturada, não hesitara em corromper os filhos, recusando-lhes uma boa educação, encorajando a sua passividade, para quebrar a sua energia e governar em vez deles”, eram essas algumas das acusações feitas pelo panfleto, conforme acrescenta Jean-François Solnon (2004, p. 224). Em vez de reagir de forma enérgica contra tais boatos, Catarina se limitou a emitir uma lacônica resposta em nome de si e do seu filho: “Lamentamos profundamente que, no meio do tumulto, várias outras pessoas pertencentes à religião tenham sido mortas por católicos” (apud FRIEDA, 2019, p. 351).

Felipe II, por Sofonisba Anguissola (1573).

Com efeito, nas cortes protestantes a notícia do massacre foi recebida com choque e indignação. A rainha Elizabeth I, que soube do acontecimento enquanto caçava, se recusou a receber o embaixador francês por vários dias e se vestiu totalmente de preto em sinal de luto pela morte de seus correligionários. O diplomada La Mothe-Fénélon disse que a reação da rainha da Inglaterra foi bastante hostil, quando ela finalmente aceitou lhe conceder uma audiência em Woodstock. A soberana temia que aquele massacre fosse o primeiro passo para uma grande guerra contra o protestantismo, em que sua vida também estaria correndo perigo. O embaixador, por sua vez, não tentou justificar a chacina, insistindo na versão contada por Carlos IX de que havia um suposto complô huguenote para assassinar a família real. Sendo uma mulher bastante pragmática, Elizabeth aparentemente demonstrou algum alívio com essa explicação, mas não ficou totalmente convencida. Apesar dos esforços do embaixador em lhe assegurar que o rei desejava manter boas relações com a Inglaterra, a soberana sabia por experiência própria o quão dúbia eram as garantias dos franceses em termos de guerra e paz. Após seu encontro com La Mothe-Fénélon, ela ordenou que medidas defensivas fossem tomadas contra uma possível invasão estrangeira.

A partir de então, Elizabeth I tentou fazer o possível para manter a Espanha e a França ocupadas com os problemas religiosos que enfrentavam nos seus respectivos domínios. Enquanto isso, ela dava seu apoio de forma sutil aos protestantes que lutavam contra Felipe II nos Países Baixos e aos huguenotes franceses. Internacionalmente, a rainha da Inglaterra era vista como uma defensora da religião reformada, embora ela nunca tenha demonstrado essa intenção. Conforme esclarece Lisa Hilton:

De início, a estratégia de Elizabeth em relação à Espanha e aos Países Baixos durante a década seguinte parece contraditória, quando não contraproducente, um jogo de “Mãe, posso ir?”, com tentativas de apaziguamento de cada lado proferidas e logo depois retiradas. Gostasse a rainha deles ou não (e em geral não gostava), o fato era que descartar os protestantes holandeses era inconcebível. Não se podia permitir que a Espanha os suprimisse de todo, embora isso tivesse de ser feito, ao mesmo tempo que se evitava um confronto direto com Felipe – que faria a agressão progredir até o ponto em que nenhum dos lados poderia escapar. Com relutância, Elizabeth continuou a drenar recursos para os Países Baixos, enquanto alegava “neutralidade” para os espanhóis, na esperança de um acordo que preservasse tanto a autoridade monárquica quanto um conceito vago de “antigas liberdades” (HILTON, 2016, p. 258).

Dessa forma, a rainha da Inglaterra fazia um jogo duplo, ajudando secretamente a causa do protestantismo no continente. Uma tese, apoiada tanto por seu conselheiro William Cecil, lorde Burghley, quanto pelo seu mestre de espionagem, Francis Walsingham (que abrigava huguenotes em fuga na sua casa), parecia ganhar crédito: a de que o São Bartolomeu era um indício de que o tempo das negociações e da diplomacia estava chegando ao fim e de que a ofensiva era o único meio viável para salvar a fé protestante. Não obstante, havia o fato de que Mary Stuart, pretendente ao trono inglês, era tanto uma católica quanto uma Guise e vivia na Inglaterra como uma prisioneira da prima. Preocupado, o bispo de Londres escreveu uma carta a Cecil, na qual dizia: “Estes maus tempos perturbam a cabeça de todos os homens bons e fazem seus corações doerem, temendo que essa bárbara perfídia não cesse na França, mas venha a se estender a nós” (apud DUNN, 2004, p. 406). A Carlos IX, Elizabeth escreveu: “Aquelas mulheres, rapazes, donzelas e bebês de peito, foram ao mesmo tempo assassinados e jogados ao rio; e deu-se essa liberdade à espécie mais baixa do populus [povo] sem punição ou vingança de igual crueldade aplicada depois pela lei” (apud DUNN, 2004, p. 405).

Elizabeth I, por artista desconhecido (século XVI).

Com efeito, a rainha da Inglaterra tinha razão para ficar perturbada, pois aquele “era um terrível e perigoso exemplo”, dado pela Coroa francesa, conforme ela ressaltou na sua missiva ao rei. No final outubro de 1572, a “temporada de assassinatos do São Bartolomeu” estava encerrada, embora suas repercussões históricas ecoem até os nosso dias. Em tempos de intolerância religiosa, como os que ainda testemunhamos, o assassinato de quase 24 mil pessoas (até hoje é impossível calcular o número exato de vítimas) se constitui no exemplo mais nítido de como o fanatismo religioso, aliado a interesses políticos, foi capaz de fomentar tão violenta chacina. Apesar de ter assumido publicamente a culpa, Carlos IX acusou a mãe como a verdadeira artífice do massacre: “Madame, vós sois a causa disso tudo” (apud GOLDSTONE, 2016, p. 191), teria dito o rei para Catarina de Médici. Dada à ausência de um esforço organizado para explicar o que aconteceu, a rainha-mãe permitiu que a sua lenda obscura germinasse em terreno fértil, não apenas na mentalidade do século XVI, como também através das páginas de romancistas e historiadores, que até hoje associam a imagem da soberana florentina da França a um dos maiores assassinatos em massa da história daquele país, superado em número de mortos apenas pela Revolução Francesa, ocorrida quase 200 anos depois.

Referências Bibliográficas:

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FRIEDA, Leonie. Catarina de Médici: poder, estratégia, traições e conflitos – a rainha que mudou a França. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.

GOLDSTONE, Nancy. The Rival Queens. Nova Iorque: Back Bay Books, 2016.

HILTON, Lisa. Elizabeth I: uma biografia. Tradução de Paulo Geiger. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

KAMEN, Henry. Filipe da Espanha. Tradução de Vera Mello Joscelyne. Rio de Janeiro: Record, 2003.

SOLNON, Jean-François. Catarina de Médicis (1519-1580). Tradução de Inês Castro. Lisboa: Bertrand, 2004.

 

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