Kahina, a profetiza: a história da líder berbere que lutou contra a difusão do Islamismo no século VII!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No século VII da Era Cristã, o Islã deixava de ser uma religião exclusivamente árabe para se difundir pelo norte da África, chegando até o sul da Península Ibérica. O islamismo se adaptou às diferentes localidades, em meio a povos tão distintos quanto os camponeses do Egito, da Pérsia e da Espanha, incluindo os nômades berberes somalis e os turcos. Entretanto, o florescimento de uma nova cultura no interior de cada um desses territórios não se deu de forma pacífica e sem resistência. Nesse contexto, surge a figura de Kahina, a famosa líder berbere que lutou contra a expansão islâmica, unificando a região do Magrebe em prol da campanha contra os cavaleiros árabes. Adorada por seu povo, a Kahina eram atribuídos dons proféticos, cuja lenda foi enfatizada inclusive na tradição muçulmana, que associa sua imagem pejorativamente às alcunhas de “advinha” ou “bruxa”. Por outro lado, na cultura grega, seu nome é derivado de Karina, que significa “ser puro”. Já no hebraico, a palavra se aproxima de Cohen, que significa “sacerdote”. Assim, ela acabou entrando para a História como uma de suas primeiras rainhas guerreiras, celebrada tanto pela tradição popular do norte da África, em países como a Argélia, como também em França, na Europa.

“Mulher Berbere”, por Charles Emile Vernet-Lecomte.

Assim como ocorre com outras figuras de liderança feminina no contexto africano, muito pouco se sabe sobre a infância de Kahina ou as circunstâncias de seu nascimento. Ela era filha (ou sobrinha) do rei berbere Aksel, morto em 688 da Era Cristã. É possível supor que a futura rainha veio ao mundo em algum momento entre as décadas de 650 e 660, uma vez que no ano de 700 já era mãe de filhos adultos. Aksel, por sua vez, se tornou famoso na luta pela causa da liberdade do povo Imazighen, mais conhecido como berberes (do árabe berber, nome dado a um conjunto de comunidades situadas no norte da África que falam línguas derivadas da família afro-asiática). Com efeito, a história da difusão do islamismo através das diferentes “tribos berberes” também é nublada por falta de informações mais precisas. Não sabemos como e nem por que elas acabaram se convertendo. Porém, algumas características gerais nos levam a concluir que a primeira etapa desse processo foi marcada pela submissão de variadas tribos, que haviam oposto uma feroz resistência aos exércitos árabes. Conforme ressalta Valter Roberto Silvério, “as conversões alcançadas em tais circunstâncias possuíam um caráter puramente formal e provavelmente não concerniam senão aos chefes e aos anciãos dos diferentes clãs que assim reconheciam a soberania do vencedor” (2013, p. 296).

Contudo, assim que as forças árabes se retiravam (ou eram expulsas, como ocorreu frequentemente ao longo das guerras travadas no século I da hégira), os berberes logo retornavam às suas práticas e costumes tradicionais, uma vez que se consideravam livres de qualquer fidelidade política ou religiosa ao Islã. Foi nesse contexto que Kahina cresceu. Ela também é conhecida como Dihya al-Kahina, Dahlia, Daya e Dahia-al-Kahina. Seu nome de nascimento, porém, era Dihya (que significa “a bela gazela” na língua tamazight dos Imazighen). De acordo com Joselma Elena S. Silveira:

O nome e o seu significado tem diversas versões. Kahina, que foram os árabes que a chamaram, significa aquela que advinha, a profetisa, que conhece e evoca o futuro, podemos dizer a mágica. Teria um dom profético sabendo analisar os acontecimentos e predizer o futuro. Outros dizem que o nome verdadeiro é Diya (bela) ou Damya (aquela que advinha). Os berberes a chamavam de Diya Tadmut ou Diya Tadmayt, que significa gazela. Outro significado seria uma qualidade hereditária quase sacerdotal, que viria do hebreu (2017, p. 17).

Silveira esclarece que, embora tenha passado para a História como uma profetiza, não se sabe ao certo qual era a religião de Kahina. Alguns pesquisadores argelinos e tunisianos argumentam que ela era judia; já outros, como o historiador e arqueólogo Gabriel Camps, afirmam que ela era uma cristã. Além disso, há quem defenda a tese de que a soberana era uma pagã, adoradora do deus da Guerra Gurzil, representando pela figura de um touro, cujo culto era difundido na tradição berbere. Apesar de não existir indícios confiáveis de que Kahina fosse uma praticante desse culto, muitos líderes Imazighen colocavam um ícone de Gurzil esculpido em pedra na frente de suas tropas, quando em batalha.

Região do Magrebe, no norte da África.

Com efeito, a maior parte das informações de que dispomos sobre a vida de Kahina provém de escritores árabes, que documentaram a conquista muçulmana no norte da África. Tais fontes, entretanto, são muito controversas, uma vez que descrevem a rainha como uma feiticeira de origem judia, descendente da comunidade Beta de Israel (formada por judeus etíopes). Outras dão conta de que ela foi um membro realeza da tribo Jarawa, que pertencia a uma confederação maior chamada Tribo Zenata, da Mauritânia. Esses registros parecem concordar com o fato de que ela foi uma princesa, que mais tarde se tornou rainha e então governou um estado autônomo, localizado na região montanhosa dos Aurès, no nordeste da Argélia. Por outro lado, foi dito também que ela professava uma religião oriunda da Numídia, que adorava ao Sol, à Lua e venerava o poder dos ancestrais. De acordo com essa crença, os deuses ou os espíritos dos mortos, podiam transmitir mensagens para algumas pessoas que possuíam o dom da profecia. Kahina seria um desses sujeitos com o poder místico de se comunicar com o divino. Muitas lendas sugerem que ela podia falar com os pássaros, que lhe transmitiam mensagens sobre o avanço das tropas inimigas. Embora seja comumente conhecida como “rainha berbere”, o termo mais preciso para a intitular seria Imazighen, como seus súditos a chamavam.

As descrições feitas acerca da aparência física de Kahina indicam que ela pode ter sido uma mulher alta para seu tempo, bela e com cabelos longos, que eram mantidos presos. Seu tom de pele certamente era negro, como o de outras soberanas africanas da época, e ela se vestia de acordo com a moda da realeza da Antiga Numídia: usava uma túnica ou vestido longo, que podia ser atado à cintura por um cinto, e sandálias. Os artistas franceses, porém, a embranqueceram em retratos póstumos, que em nada representam a soberana. Nessas imagens, como na tela de 1870 do pintor Charles Emile Vernet-Lecomte, intitulada “Mulher Berbere”, Kahina aparece empunhando uma espada, para simbolizar seu status de mulher guerreira, vestida com um manto vermelho, que deixava à mostra seus braços ricamente adornados com braceletes. Já em outras, observamos também uma profusão de tatuagens espalhadas pelo seu corpo, cada uma com um significado específico. Conforme ressalta Silveira:

Os objetivos das tatuagens podem ser: indicar a tribo, a qual a mulher pertence; proteção de mau olhado e das doenças; proteger determinada zona do corpo; aumentar sua fertilidade; e realçar sua beleza. Eram feitas também nas mãos, pés e a parte anterior das pernas. Os símbolos podem ser de culto e devoção aos ancestrais e também expressar a dor por perdas. Pode-se citar alguns mais usados: o ponto, representa a casa; o crescente da lua, o processo de nascimento, vida e morte; a espiral, a harmonia eterna; o círculo, representa o absoluto; a palmeira, a deusa-mãe; dois traços, a dualidade entre o bem e o mal; uma rosácea formada por triângulos com o vértice para cima, significa o fogo e a virilidade, enquanto, se o vértice for virado para baixo, significa a água e a feminilidade (2017, p. 38).

Retrato póstumo de Kahina, pintado no século XIX. Os artistas ocidentais a embranqueceram nesse tipo de tela, que em nada representam a soberana.

Em meados do século VII da Era Cristã, o Islã se propagou pelo norte da África a partir do Egito, atravessando o deserto do Saara e alcançando toda a região do Magrebe. Após a conversão de Gana, os berberes de Banü Tänmak foram islamizados juntamente com os chefes da cidade comercial de Tädmekka. Dessa forma, a fé em Alá foi imposta a um povo que tinha suas práticas culturais e religião próprias. O rei Aksel, que era pai ou tio de Kahina, organizou uma ferrenha resistência aos soldados árabes, expulsando-os de suas fronteiras. Em um determinado momento, o soberano chegou a se converter ao islamismo, mas, quando percebeu que sua autonomia aos poucos foi sendo limitada, retornou para sua antiga religião. Em seguida, uma verdadeira guerra de conquista foi travada entre as forças de Aksel e as dos muçulmanos. Depois de ter sido feito prisioneiro pelo inimigo e posto em liberdade com a condição de converter os seus súditos, o soberano conseguiu derrotar as forças de Uqba ibn Nafi, matando-o em 683 d.C. Cinco anos depois, o líder árabe Hassan ibn al Nu’man matou o rei em batalha. Askel foi então sucedido por sua esposa, Koceila, que reinou até o ano de 690, quando passou a liderança dos Imazighen para Kahina, em circunstâncias desconhecidas (não se sabe se por morte ou de forma voluntária).

Quando jovem, Kahina lutou lado a lado com Askel, provando seu valor e discernimento em combate. Antes mesmo de ter se tornado soberana, ela havia derrotado as tropas do líder árabe muçulmano, Hassan ibn al Nu’man (falecido por volta de 710 d.C.), cujos exércitos faziam campanha no norte da África. A lenda criada em torno da personagem dá conta de que ela teria desenvolvido uma tática de guerra perspicaz, que muito tempo depois foi aproveitada por outros povos de origem asiática e europeia: arrasar o solo, destruindo plantações e esvaziando moradias, para privar os invasores dos saques e butins de guerra. É interessante notar como, quase um milênio depois, os russos fizeram o mesmo com Napoleão I na campanha de 1812. É possível que essa atitude tenha angariado para Kahina a antipatia de alguns dos seus súditos, culminando na falta de apoio para muitas de suas políticas. Em 698, depois de ter tomado a cidade de Cartago, Hassan se dirigiu novamente para a região do Magrebe, sendo mais uma vez derrotado pela soberana. A tradição oral passada adiante diz que Kahina teria usado o seu dom da profecia para adivinhar a formação das tropas de seu inimigo e assim formular um plano de defesa. Desmoralizado, o líder árabe recuou para a Líbia ou o Egito.

Na Idade Moderna, o suposto poder espiritual da líder berbere foi comparado ao de Joana d’Arc, ou com os dons da nativa americana e guerreira, Lozen (c. 1840-1889 d.C.), que teria sido capaz de derrotar as tropas de cavalaria dos Estados Unidos graças à sua vidência. Mas, à medida em que as forças árabes aumentavam seu número de seguidores, Kahina se viu forçada a recuar, não sem antes deixar atrás de si um rastro de fogo, cujas chamas, insufladas pela direção favorável dos ventos, impediu que as tropas de Hassan seguissem ao seu encalço. Em seguida, a soberana ordenou que fortificações fossem destruídas, cidades e vilas demolidas, o ouro e a prata derretido. Caso os árabes conseguissem alcança-la, levariam nada consigo. Por outro lado, aqueles que viviam na cidade e dependiam do comércio e da agricultura, ficaram bastante ressentidos com essa atitude e se voltaram contra a sua soberana. A essa altura, é possível que os Imazighen considerassem a vitória de Hassan com uma coisa inevitável, algo que foi acentuado pela rendição dos filhos de Kahina às forças do inimigo, por volta de 705 d.C. A última batalha contra os muçulmanos, travada por volta desse período, terminou com a morte da líder berbere. Sua cabeça foi decepada e enviada como troféu para Hassan. Seu triste desfecho marcou a conquista definitiva do Magrebe pelos árabes, no século VIII.

Estátua de Kahina, na Argélia.

Na cultura popular, a memória de Kahina sobreviveu por muitos séculos, não apenas nos escritos árabes, como também na tradição oral de escritoras magrebinas, em cantigas e até na dramaturgia. Na peça “Kahina ou Dihya”, escrita pelo poeta argelino Kateb Yacine, a personagem diz: “O único Deus que nós conhecemos/ Eu o abraço diante de vós/ É a terra que nos faz viver/ A terra livre Amazigh!” (apud SILVEIRA, 2017, p. 33). No século XIX, durante a fase do imperialismo francês na Argélia, sua figura foi utilizada como bandeira para legitimar a ação do colonizador contra os árabes. Os Imazighen, que ainda habitavam naquela região, por sua vez, reivindicaram-na como a sua heroína, enquanto os muçulmanos tentaram fazer o mesmo, embora sem sucesso. Na opinião da professora Cynthia Becker, da Universidade de Boston: “ao longo da história, árabes, berberes, muçulmanos, judeus e escritores coloniais franceses, desde o historiador medieval Ibn Khaldūn até o escritor argelino moderno Kateb Yacine, reescreveram a lenda do Kahina”, expressando nesse processo a “sua própria visão da história do norte da África” (apud MARK, 2008). No ano de 2001, uma estátua da soberana foi erguida no Parc de Bercy, em Paris. Dois anos depois, na Argélia, outro memorial foi esculpido na cidade de Baghai, província de Khenchela. Hoje, seu nome está associado à causa da luta pela liberdade, não apenas entre os povos do norte da África, como em todo o mundo.

Referências Bibliográficas:

BECKER, Cynthia. Dihya: the female face of amazing history. 2015. – Acesso em 23 de agosto de 2020.

KHELIFI, Ghania. Kahina, The Woman They Don’t Love. 2012. – Acesso em 23 de agosto de 2020.

LE PETIT JOUNAL. HISTOIRE – La Kahena, reine berbère. 2020. – Acesso em 23 de agosto de 2020.

MARK, Joshua J. Kahina. 2018. – Acesso em 23 de agosto de 2020.

SILVEIRA, Joselma Elena Serpa. Kahina: uma rainha berbere do século VII vista por escritoras magrebinas contemporâneas. 2017. 51 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Bacharelado em História, Porto Alegre, BR-RS, 2018.

SILVÉRIO, Roberto Valter (Coord.). História Geral da África: pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, 2013.

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