Elizabeth Woodville: os percalços da rainha inglesa que morreu vítima de peste!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na manhã de 30 abril de 1464, a comitiva do rei Eduardo IV da Inglaterra rumava para o norte, em direção a Stony Stratford, para negociar com alguns dos apoiadores da Casa de Lancaster. O contexto político da época era marcado pelo conflito que ficou conhecido como “A Guerra das Duas Rosas” e Eduardo precisava desestabilizar as forças inimigas. Fazendo um pequeno desvio pela rota, o rei resolveu visitar Richard Woodville, em Grafton Regis. Na estrada que levava à propriedade, passando pela floresta de Whittlebury, uma viúva de 27 anos, loira e bonita, apareceu de repente atrás de uma árvore, acompanhada de seus dois filhos. Vinha falar com o rei em particular e humildemente lhe suplicar a herança do seu finado marido, John Grey, que morreu lutando pela Rosa Vermelha. A retidão e a beleza da mulher, desamparada e com uma criança em cada uma das mãos, comoveu de tal forma o coração de Eduardo, que ele decidiu não só lhe restituir os todos os bens, como também toma-la com esposa. A viúva em questão se tratava de Elizabeth Woodville, filha do dono da propriedade de Grafton. Passado algum tempo, ela se tornou a consorte do rei de Inglaterra e mãe de seus muitos filhos. A história, baseada em narrativas como a que acaba de ser contada aos leitores, se lembraria dela pelo título de “A Rainha Branca”.

Retrato de Elizabeth Woodville, pintado de 1471, por artista desconhecido.

Com efeito, esse encontro escondido na floresta, entre um rei e uma plebeia, foi usado por muitos novelistas e diretores para exagerar no romance entre Eduardo IV e sua esposa. Os fatos, porém, apontam para uma narrativa bem menos apaixonante. Elizabeth era a filha mais velha de Richard Woodville, barão de Rivers, com Jacquetta de Luxemburgo. Anteriormente, Woodville, um fidalgo de poucas fosses, havia servido como cavaleiro e criado na Casa Real de João, duque de Bedford e tio do rei da Inglaterra, Henrique VI. Após a morte do duque, em 1435, Richard tomou a viúva de seu antigo mestre como esposa, algo que foi considerado um ultraje para a família real. Afinal, Jacquetta era irmã do conde de St-Pol e descendia de uma das linhagens mais antigas da Europa. Aquele casamento, sem o consentimento do rei, resultou para Richard uma multa de 1000 libras, que certamente foi paga com o vultoso dote da noiva. Ela, que saiu de seu casamento com o duque de Bedford sem filhos, ficou rapidamente grávida de seu segundo marido e no final de 1437 deu à luz uma menina, a quem batizou de Elizabeth. Muitos outros filhos e filhas nasceriam daquela união, incluindo Antônio e Ricardo, que sucederiam ao pai no baronato e depois condado de Rivers. Porém, era a primogênita do casal quem estava destinada a ocupar o cargo mais importante para uma mulher no reino.

Muito pouco se sabe sobre a infância de Elizabeth. Como sua mãe tinha sido educada numa das cortes mais sofisticadas de seu tempo, é de se supor que as filhas fossem igualmente versadas em inglês e francês, no estudo dos livros, bem como na caridade e nas prendas domésticas, consideradas então virtudes do sexo feminino. Graças à posição de prestígio que tinha junto ao rei, malgrado seu segundo casamento, Jacquetta conseguiu introduzir Elizabeth no séquito da rainha Margarida de Anjou como demoiselle d’honnour, posição essa que ela ocupou até ano de 1449, quando o assunto de seu casamento começou a ser discutido pelos pais. A princípio, cogitou-se a possibilidade de uma união com Sir Hugh Johns, que contava com o apoio do duque de York e do conde de Warwick. Mas as negociações não foram adiante, em parte devido à rejeição do noivo por Elizabeth, em parte pelas reações negativas da rainha Margarida, que antagonizava abertamente com o duque de York. Foi só por volta de 1455, quando a jovem tinha 18 anos, que ela desposou John Grey, filho e herdeiro de Edward, Lorde Ferrers de Groby. Tanto John quanto seu pai eram apoiadores da Casa de Lancaster e, em decorrência disso, a família recebeu da Coroa diversas propriedades, entre elas uma esplêndida casa em Leicestershire, que John herdou após a morte do pai, em 1457, juntamente com o título.

De sua união com Lorde John, Elizabeth deu à luz dois meninos: Thomas, nascido em 1455, e Richard, nascido em 1457. Em fevereiro de 1461, o novo Lorde Ferrers lutou ao lado da forças de Henrique VI na Segunda Batalha de St. Albans contra as forças de Eduardo, filho mais velho do falecido duque de York. Gravemente ferido no conflito, John não resistiu e morreu no dia 28, deixando sua esposa e filhos numa situação muito grave. Dois meses depois, o exército York derrotou o rei na batalha de Towton. Henrique e Margaria se tornaram fugitivos e Eduardo se proclamou o novo soberano da Inglaterra. A partir de então, o falecido Lorde Ferres foi considerado traidor e todo o seu patrimônio, confiscado. Elizabeth teve que buscar refúgio na casa de seus pais, em Grafton, onde ela e os filhos passaram a viver sob a proteção do barão. Apesar de seu apoio à casa de Lancaster, tanto Richard quanto Jacquetta mantiveram boas relações com Eduardo IV e “por especial favor real”, receberam um subsídio de 100 libras. É possível que nessa ocasião o rei já conhecesse Elizabeth e demonstrado alguma espécie de interesse por ela. Na época, o monarca de 22 anos era o jovem mais cobiçado da Europa. Negociações para seu casamento com Madalena da Borgonha, com a rainha-mãe da Escócia e com a princesa Isabel de Castela chegaram a ser feitas, mas nenhuma obteve êxito.

Retrato póstumo de Eduardo IV, por artista desconhecido.

Naquele mês de abril de 1464, enquanto visitava Richard e Jacquetta em Grafton, Eduardo ouviu as súplicas de Elizabeth Grey. Como resultado das conversações, Thomas foi reconhecido como herdeiro de Lorde Ferrers de Groby e o rei decidiu tomar a mãe do rapaz como esposa. Se casaram numa cerimônia secreta, com a presença de Jacquetta, do padre e de meia dúzia de testemunhas. Não foi uma decisão imponderada, tomada no calor do momento, como os que insistem na versão romântica gostam de sugerir. Eduardo já conhecia Elizabeth, sabia de sua boa educação e, principalmente, de sua capacidade em gerar herdeiros masculinos. Apesar disso, o casamento foi mantido em segredo por algum tempo, até que em setembro, quando foi pressionado para se casar com Bona de Saboia, o monarca revelou todo o sucedido. A corte ficou estupefata e Charles Ross descreveu aquela união como “a primeira grande asneira de sua carreira política [de Eduardo]” (apud LOADES, 2010, p. 58). Por outro lado, a atitude do rei pode ser vista também em termos de estratégia: ao se casar com uma viúva e filha de apoiadores da Rosa Vermelha, ele poderia estar buscando uma conciliação também com outros partidários dos Lancaster. Além disso, se desposasse uma mulher da antiga aristocracia, incorria no risco de ofender as demais famílias que se achavam igualmente merecedoras de tal honra.

Com efeito, a família de Eduardo também não viu a união do rei com bons olhos, especialmente Cecília, duquesa-viúva de York, e o duque de Gloucester. Mesmo assim, a nova rainha foi apresentada à corte pelo conde de Warwick. Em 26 de maio de 1465, Elizabeth foi solenemente coroada na abadia de Westminster, como parte dos esforços do rei para elevar a estima do povo pela sua esposa. Na ocasião, os arautos foram vestidos com tecido de ouro e também foram criados 40 novos cavaleiros da ordem de Bath. O tio da rainha, Jacques de Luxemburgo, também estava presente, para enfatizar o seu status nobre. É possível que durante a coroação, Elizabeth já estivesse nos estágios iniciais de uma gravidez, pois em 26 de fevereiro do ano seguinte ela deu à luz uma menina, batizada em sua homenagem. As madrinhas foram as avós, Cecília e Jacquetta. Embora o nascimento de uma garota fosse recebido com algum desapontamento pela família real, que esperava um herdeiro varão, o fato de a rainha ter gerado uma criança saudável era sinal de que meninos viriam logo em seguida. Elizabeth recebeu como rendimentos terrenos no valor de 4541 libras, além do ducado de Lancaster. Com uma administração ponderada, a soberana conseguia manter sua Casa de forma organizada e luxuosa, além de fornecer patronato para criados, parentes afastados e instituições de caridade.

O único retrato de Elizabeth Woodville como rainha consorte data de 1471 e dele foram feitas várias cópias, cada uma das quais apresentando certa variação. A tela, pintada por artista desconhecido, mostra a rainha no auge dos seus 34 anos, usando um vestido de veludo preto com brocado dourado. Seu cabelo está penteado para trás, preso por um toucado de formato cônico coberto com véu transparente, revelando assim uma testa alta e sobrancelhas finas. No rosto, uma expressão austera, condizente com o porte altivo dos braços e das mãos, levemente pousadas uma sobre a outra. Nos dedos e no pescoço, ricas joias em ouro, adornadas com pérolas e rubis. Apesar da riqueza nos detalhes, a família de Elizabeth não recebeu tratamento real ou status de alteza, o que não os impedia de conseguirem alguns favores graças às suas conexões com a Coroa. Tal posição também rendeu aos Rivers alguns inimigos, como o próprio conde de Warwick, Ricardo, amigo e mentor do rei Eduardo. Os dois tiveram fortes desentendimentos em decorrência desse antagonismo e o conde acabou sendo afastado da corte. No verão de 1469, as forças de Warwick, apoiadas pela rainha exilada, Margarida de Anjou, invadiram a Inglaterra e derrotaram os exércitos do rei. Muitos parentes de Elizabeth foram assassinados, incluindo seu pai, seu irmão John, bem como o conde de Devon e Sir Thomas Herbert.

Os Príncipes na Torre, por John Everett Millais (1878).

Henrique VI, que até então vinha sendo mantido prisioneiro, foi reinstalado no trono como um rei fantoche para as pretensões de sua esposa, Margarida, e do conde de Warwick. Enquanto isso, Elizabeth Woodville se refugiou na Torre de Londres. Em 1470, estava em adiantado estado de gravidez, quando soube que seu marido havia conseguido fugir do cativeiro. Em 1 de novembro, ela deu à luz um filho, que foi postumamente batizado de Edward, em homenagem ao pai. Com a ajuda financeira do rei da França, Eduardo desembarcou em Ravenspur e seguiu em direção ao sul do país, angariando apoio à sua causa. Contudo, Warwick ainda não havia sido derrotado. Em 14 de março, os dois exércitos se enfrentaram em Barnet e os Lancaster foram massacrados pelos apoiadores da Rosa Branca. Tanto o conde quanto Lorde Montague foram mortos em batalha e seus corpos exibidos na Catedral de São Paulo. No dia 11 de abril de 1471, Eduardo entrou vitorioso em Londres e reencontrou a esposa, suas filhas e conheceu seu pequeno herdeiro de seis meses. Em seguida, o monarca liderou um ataque contra as tropas da rainha Margarida, derrotando-as em Tewkesbury em 4 de maio. O príncipe de Gales, filho de Henrique VI, foi assassinado e sua mãe feita prisioneira. Para acabar com qualquer pretensão dos Lancaster, Eduardo mandou executar Henrique 17 dias depois.

Com o rei Lancaster morto, a última esperança dos partidários da Rosa Vermelha recaiu sobre Henrique de Richmond, que se mantinha afastado por segurança. Pelos próximos 15 anos, a Inglaterra gozou de relativa paz nas disputas entre as duas facções. Em agosto de 1473, a rainha Elizabeth deu à luz outro menino, que foi chamado de Richard. Seguiram-se a ele Ana (1475), George (1477), Catarina (1479) e Brígida (1480), dos quais apenas George morreu em tenra idade. As gravidezes ininterruptas da esposa deu ao rei oportunidade para manter relações com outras mulheres, tais como Jane Shore, que lhe renderam uma grande quantidade de filhos bastardos, embora Eduardo só viesse a reconhecer a paternidade de dois. Nesse meio tempo, o irmão do rei, o duque de Clarence, que havia anteriormente apoiado Warwick e depois retornado para o lado dos York, desafiou as leis da Coroa e supostamente se envolveu com um grupo de necromantes que, entre outras coisas, tentaram prever a morte de Eduardo. Como isso era considerado um crime de alta traição, o grupo foi condenado e o duque passou a ser investigado. Devido ao seu apoio ao conde de Warwick, entre outros indícios de má conduta, Clarence foi julgado em fevereiro de 1478 pela Câmara dos Lordes.

Com efeito, acredita-se que a rainha Elizabeth estivesse por trás da trama contra o cunhado, uma vez que o considerava responsável pelas mortes de seu pai e irmão. A Câmara dos Lordes o acusou de traição, cabendo a Eduardo a decisão da pena. Em vez de absolver o irmão, o rei optou por uma execução privada (o duque foi afogado numa tina de vinho). Depois desse episódio, os monarcas se preocuparam em arrumar bons casamentos para o seus filhos e em preencher a corte com arte e literatura. Mas, até o ano de 1483, nenhum desses planos havia se concretizado. Em 9 de abril, o rei morreu subitamente aos 40 anos, em decorrência de um abuso excessivo de vinho, comida e sexo. Elizabeth ficou em uma situação extremamente difícil, principalmente quando o irmão mais jovem de Eduardo, Ricardo, duque de Gloucester, reivindicou o título de regente. O filho mais velho do finado rei, agora proclamado Edward V, foi mandado para a Torre de Londres, com a desculpa de que deveria esperar lá o tempo que fosse necessário para que os arranjos de sua coroação fossem feitos. Temendo as verdadeiras intenções de Ricardo, Elizabeth reuniu seus outros filhos e se refugiou na abadia de Westminster. Poucos dias depois, o príncipe Richard, duque de York, foi tirado de seus braços e mandado igualmente para a Torre, onde estava seu irmão.

A rainha Isabel de York, por artista desconhecido.

No final de maio ou início de junho de 1483, Ricardo decidiu se apoderar do trono. Em 26 de julho, foi coroado com grande pompa na abadia de Westminster. Quanto aos príncipes na Torre, seu paradeiro permanece até hoje um dos maiores mistérios da história inglesa. Teria seu tio os assassinado, ou essa versão foi inventada pelos Lancaster para criar a lenda maligna que até hoje recai sobre a figura de Ricardo? A despeito das muitas teorias que dizem que um dos jovens teria sobrevivido, o fato é que, séculos depois, dois esqueletos de crianças foram encontrados na Torre quando o edifício passava por reforma e uma análise prematura das ossadas concluiu que se tratavam dos filhos de Eduardo IV. Em janeiro de 1484, o Parlamento decretou que Elizabeth nunca tinha sido casada com o rei, com base na existência de um suposto pré-contrato nupcial de seu marido com outra mulher. Em consequência disso, todos os filhos do segundo matrimônio da rainha foram declarados bastardos e seus títulos e rendas, confiscados. Um ano depois, Elizabeth cedeu às pressões de Ricardo e aceitou receber uma modesta pensão. Como parte do acordo, sua primogênita, Isabel, foi mandada para a corte, para compor o séquito da nova rainha, Anne Neville. Mas, por baixo dos panos, Elizabeth Woodville e Margaret Beaufort, mãe de Henrique de Richmond, conspiravam para derrotar o inimigo.

Em agosto de 1485, Ricardo III foi morto na batalha de Bosworth Field e Henrique se proclamou o rei da Inglaterra. Para honrar o acordo feito entre Elizabeth e Margaret, ele tomou a jovem Isabel de York como esposa, pondo assim um fim à Guerra das Duas Rosas. Surgia a dinastia Tudor, que produziu 5 monarcas e durou por 118 anos. Sendo novamente um membro da família real, a viúva de Eduardo IV recebeu seus títulos e rendimentos de volta. Em 1486, nasceu Arthur, príncipe de Gales e a mãe da rainha foi escolhida para madrinha do neto. Depois disso, Elizabeth Woodville viveu de forma reclusa na abadia de Bermondsey, até a sua morte, em 1492, aos 55 anos. Uma carta encontrada recentemente nos Arquivos Nacionais, datada de julho de 1511, afirma que ela foi vítima de peste, razão pela qual não foi organizado um funeral com honras dignas de sua posição. Seu sepultamento, que ocorreu de forma rápida e modesta, confirma a veracidade do documento, uma vez que nenhuma outra causa para a morte de Elizabeth foi registrada na época. Ela passou para a história como uma mulher fria e pouco escrupulosa, apesar do relativo patrocínio que concedeu à caridade durante seus anos como soberana consorte. Recentemente, sua história foi resgatada por romancistas e produtores de televisão, que passaram a denomina-la de “A Rainha Branca”, epíteto pelo qual é mais lembrada nos dias de hoje.

Imagem da capa: retrato realista da rainha, com a cosplayer Elif Unutmaz, fotografado por Yasemin Karaca para  grinningsun, no DeviantArt.

Referências Bibliográficas:

EVANS, Tom. Royal mystery solved: Richard III ‘cleared of killing Princes in Tower’ by historic theory. 2020. – Acesso em 25 de julho de 2020.

FLOOD, Alison. ‘White Queen’ died of plague, claims letter found in National Archives. 2019. – Acesso em 25 de julho de 2020.

LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. Portugal: Caleidoscópio, 2010.

Segredos da Torre de Londres. In: Os Grandes Mistérios do Passado. Rio de Janeiro: Seleções, 1996, p. 23-25.

TAPIOCA NETO, Renato Drummond. Os Príncipes na Torre: teria Ricardo III assassinado os filhos da rainha Elizabeth Woodville? 2020. – Acesso em 25 de julho de 2020.

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