Amores “abaixo do equador”: paixão e erotismo nas cartas de Napoleão para Joséphine e Marie Walewska!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Não sou como os outros homens, e as leis gerais da moralidade e as regras da propriedade não se aplicam a mim”, disse Napoleão Bonaparte, lembrando assim o comportamento dos antigos reis que o precederam. A monarquia absolutista na França havia sido marcada pelos escândalos protagonizados por várias amantes reais que, com sua posição privilegiada, distribuíam favores e se interferiam na política. Um soberano que tinha vários casos com outras mulheres, por sua vez, dava testemunho público de sua virilidade e mostrava a todos de que era capaz de gerar herdeiros para o trono. Napoleão teve várias amantes, mas na primeira década do século XIX ainda não tinha um sucessor. “É o tormento da minha vida não ter um filho”, disse o então cônsul ao seu amigo Bourrienne. “Percebo claramente que meu poder nunca estará firmemente estabelecido até que eu tenha um”, completou (apud WILLIAMS, 2014, p. 260). Aos 30 anos, sua esposa Joséphine de Beauharnais já tinha dois filhos de seu primeiro casamento e era considerada uma mulher belíssima. Mas, por mais que ela e Napoleão tentassem, a consulesa não conseguia engravidar, gerando assim rumores de que seu marido planejava se separar dela para tomar uma esposa mais jovem e capaz de produzir herdeiros.

Napoleão e Joséphine.

Todavia, as cartas trocadas pelo casal entre os anos de 1795 a 1800 dão conta da intensidade com que eles trabalhavam na produção de um herdeiro. “O amor é uma paixão singular, que transforma os homens em bestas”, disse Napoleão. “Fico no cio como um cão” (apud WILLIAMS, 2014, p. 277). Até hoje são famosas as histórias de que o futuro imperador dos franceses se sentia estimulado pelo cheiro do suor feminino, tanto que orientava a esposa a não se banhar antes de se entregarem ao ato sexual. “Um beijo para o coração, depois mais abaixo, muito, muito mais abaixo” (apud WILLIAMS, 2014, p. 129), escrevia ele para a consorte, fazendo referência às partes de seu corpo que ficavam “abaixo do equador”. Apesar de ter mantido casos com outras mulheres, Napoleão se questionava sobre qual feitiço Joséphine teria lhe lançado para ter ficado tão obcecado por ela. “Meu marido não me ama, venera-me. Acho que vai ficar insano” (apud WILLIAMS, 2014, p. 139), disse ela à tia. Quando a consulesa estava indisposta, deixava claro o seu recado: “Essa noite não, Napoleão!”. Em 24 de abril de 1796, ele lhe escreveu, pedindo que viajasse de Paris a Milão:

Eu tenho vossas cartas dos dias 16 e 21. Há muitos dias em que vós não escreveis. O que fazes, então? Não, minha querida, não tenho ciúmes, mas às vezes me preocupo. Em breve; Eu aviso, se vos demorar, vais me encontrar doente. Fadiga e a vossa ausência me são demais. Vossas cartas são a alegria dos meus dias, e meus dias felizes não são muitos. Junot está trazendo vinte e duas bandeiras para Paris. Deveis voltar com ele, entendes? Tristeza sem esperança, miséria inconsolável, tristeza sem fim, terei a ponto de vê-lo voltar sozinho. Amigo adorável, ele ver-vos-á, ele respirará em vosso templo; talvez vós concedais a ele o sabor único e perfeito de beijar a vossa bochecha, enquanto eu ficarei sozinho e muito longe. Mas virás, não é? Vós estarás aqui ao meu lado, nos meus braços, no meu peito, na minha boca. Pegue as asas e venha, venha! Mas viaje com cuidado. A estrada é longa, ruim, cansativa. Suponha que sofrestes um acidente ou ficaste doente; suponha que a fadiga venha gentilmente, meu amor adorável, mas penso em vós com frequência. Recebi uma carta da Hortense. Vou escrever para ela. Ela é completamente encantadora. Eu a amo e em breve enviarei os perfumes que ela deseja. Leia o poema de Ossian “Carthon” com cuidado e durma bem e feliz longe de vosso bom amigo, mas pensando nele. Um beijo no coração, e um mais abaixo, muito mais abaixo!

Em suas cartas, Napoleão desnudava o corpo de Joséphine por meio das palavras: a bochecha que seu amigo, o general Junot, teria o privilégio de beijar, o mesmo ar que ele teria o privilégio de respirar; a vontade que ele tinha de tê-la ao seu lado, acarinhando-a em seus braços e peito e sorvendo o calor de seus lábios. Mandava-lhe beijos no coração e mais embaixo, “muito mais abaixo”.

À excessiva demonstração de afeto, misturava-se nas cartas de Napoleão a linguagem do erotismo. Quando estava fora em campanha militar, dizia pensar unicamente em Joséphine e na sua “floresta negra”. A quantidade de termos que ele utilizava para se referir aos órgãos genitais da esposa eram diversos. “Espero esmagar você em meus braços e cobri-la com um milhão de beijos queimando como se estivesse embaixo do equador”, disse ele. Em outra carta, a ação do desnudamento por meio das palavras era ainda mais explícita:

Quão feliz eu ficaria se pudesse ajudá-la com a vossa roupa, o pequeno peito branco, elástico e firme; o rosto adorável; o cabelo amarrado em um lenço à la créole – bom o suficiente para comer. Sabes bem que não esqueci as pequenas visitas [à sua] pequena floresta negra. Faço mil visitas e espero com impaciência o momento de estar lá … Viver dentro de uma Josephine é viver nos Champs-Élysées. Beijar a boca, olhos, ombro, peito, em toda parte, em toda parte.

A three-quarter-length depiction of Bonaparte, with black tunic and leather gloves, holding a standard and sword, turning backwards to look at his troops

Napoleão Bonaparte, por Antoine-Jean Gros, (c. 1801).

Segundo Georges Bataille, “toda a operação do erotismo tem por fim atingir o seu mais íntimo, no ponto em que o coração desfalece” (2017, p. 41). A ação decisiva dessa operação, conforme podemos observar nas linhas escritas logo acima por Napoleão a Joséphine, é a de desnudamento do corpo da amada, uma vez que “a nudez se opõe ao estado fechado, ou seja, ao estado de existência descontínua”. Assim, “os corpos de abrem à continuidade através desses canais secretos que nos dão o sentimento da obscenidade”, que significa “a perturbação que desordena um estado dos corpos conforme à posse de si, à posse da individualidade duradoura e afirmada” (BATAILLE, 2017, p. 41).

Naquela época, Napoleão esperava por Joséphine em Milão. O que ele não sabia, contudo, é que durante sua ausência ela havia arrumado um amante, um general de 23 anos chamado Hippolyte Charles, por quem ela ficara completamente fascinada. Os dois passavam a noite juntos quando o cônsul estava fora e, graças a esse relacionamento, Hippolyte conquistou muitos favores. “Só vós tendes meu carinho e meu amor”, escrevia a consulesa ao seu jovem amante. A imprudência dos dois em manter o caso escondido acabou por fazer a notícia se espelhar e chegar aos ouvidos do próprio Napoleão. Ele ficou devastado e cogitou a possibilidade do divórcio. “Não tenho qualquer intenção de me tornar alvo de chacota […] me divorciarei dela.” Gritou, “Divórcio – quero um divórcio público e sensacional” (apud WILLIAMS, 2014, p. 171). Ele não queria acreditar que sua esposa, “o único objeto do meu coração”, fora capaz de lhe trair: “Teria dado tudo para que o que me contou Junot tivesse sido mentira, de tanto que a amo” (apud WILLIAMS, 2014, p. 171). Por outro lado, as vantagens e conexões que o casamento com Joséphine lhe traziam eram grandes demais para serem postas de lado. Napoleão levou tudo isso em consideração e permaneceu ao lado dela ainda por alguns anos.

De sua parte, o cônsul resolveu fazer cada vez mais exibição de sua lascívia, na expectativa de humilhar a esposa. Podia ser visto se divertindo com dançarinas e concentrou sua atenção em particular numa mulher chamada Pauline Fourès, esposa de 20 anos do tenente Fourès. Os dois mantiveram um caso por muito tempo no final do século XVIII, enquanto o tenente era despachado numa campanha militar atrás da outra. Ao saber disso, Joséphine ficou desesperada, com medo de perder o afeto de Napoleão. Numa última cartada, ela se pôs a chorar diante dele, juntamente com seu filhos Hortense e Eugène. Àquela visão, o cônsul reconsiderou: “Não aguentei os soluços daquelas duas crianças”, declarou mais tarde. “Interrogo-me, terão eles de ser vítimas dos erros da mãe?” (apud WILLIAMS, 2014, p. 193-4). O general então levou a esposa aflita para a cama e a reconciliação se completou, para frustração da família Bonaparte, que não gostava de Joséphine. Ela passou a se dedicar mais e mais ao marido, esperando-o sempre bem vestida e perfumada. “Para com isso, Bonaparte”, dizia ela quando Napoleão lhe fazia cócegas e lhe despenteava os cabelos. Ela era a única pessoa autorizada a trata-lo pela forma pessoal de “tu”, ou apenas pelo sobrenome.

Joséphine, por Andrea Appiani.

“Joséphine possui o conhecimento preciso da complexidade do meu caráter”, explicou Napoleão (apud WILLIAMS, 2014, p. 208). Mas o carinho não era mais o mesmo. É certo que ela descobriu outras formas de se encontrar com Hippolyte clandestinamente, enquanto Napoleão ostentava suas amantes diante de toda a sociedade. À amiga Madame de Krény, ela disse que estava muito infeliz, pois “todos os dias há discussões com Bonaparte, por razão nenhuma. Isto não é viver” (apud WILLIAMS, 2014, p. 242). Depois de Pauline Fourès, ele se encantou pela estrela da ópera italiana, Giuseppina Grassini, além de manter casos com outras atrizes e aristocratas. Para os que testemunhavam esse comportamento, só havia uma desculpa: a obsessão sexual pela esposa havia chegado ao fim. Percebendo isso, a família Bonaparte começou a explorar a suposta incapacidade de Joséphine em conceber um filho do marido. Por outro lado, Napoleão sabia que seria motivo de chacota caso contraísse segundas núpcias e não conseguisse engravidar a nova consorte. Nessa fase, o cônsul mantinha a esposa ao seu lado apenas por conveniência, tanto que ela exclamou que “sou a sua superstição e não o seu amor”, disse a uma amiga. “Ele considera-me um dos raios da sua estrela” (apud WILLIAMS, 2014, p. 263).

Com efeito, quando os dois estavam em Saint-Cloud costumavam dormir juntos todas as noites, mas assim tomava conhecimento de mais uma aventura amorosa do marido, Joséphine fazia cenas de ciúme. Nomes como os das atrizes Mademoiselle Duchesnois e Mademoiselle Georges foram algumas das conquistas efêmeras do futuro imperador dos franceses. Na opinião de Alain Corbin, o comportamento de Napoleão pode se justificar pelo fato de que, no século XIX, o homem que almejava a uma imagem viril deveria “ter mulheres, deve possui-las, no sentido pleno da palavra, ou seja, deve gozar e usufruir delas, mantê-las na sua mão” (2013, p. 154). Diante disso, agora era Joséphine que, temendo perder o marido, lhe escrevia cartas devocionais, na esperança de reter sua atenção:

Toda a minha tristeza desapareceu ao ler tua sentida carta e as expressões dos teus sentimentos por mim. Estou muito grata por teres tirado tempo para escrever à tua Joséphine. Não podes imaginar a alegria que deste à mulher que te ama […] Manterei sempre a tua carta junto do coração. Vai consolar-me na tua ausência e guiar-me quando estiver perto de ti, pois quero estar sempre aos teus olhos como tu quer que eu seja, a tua doce e terna Joséphine, a minha vida devotada só à tua felicidade. Quando estás feliz, ou triste por um momento, que recaia sobre o meu peito a alegria ou a tristeza que emanas; que não tenhas nenhum sentimento que eu não partilhe. Todos os meus desejos se resumem a agradar-te e a fazer-te feliz […] Adieu, Bonaparte, nunca vou esquecer a última frase da tua carta. Tenho-a encerrada no meu coração. Quão profundamente lá está enraizada e com que êxtase o meu próprio lhe responde! Sim, oh, sim, esse também é o meu desejo – agradar-te e amar-te – ou melhor, adorar-te (apud WILLIAMS, 2014, p 283-4).

À medida em que Napoleão demonstrava cada vez menos interesse por sua esposa, ela redobrava suas atenções para com ele, assumindo a postura que o próprio general tinha adotado no início do casamento, quando a venerava “como se fosse uma deusa”. Não obstante, ela tinha razões para ficar preocupada. Em 1806, quando já eram imperador e imperatriz dos franceses, Napoleão iniciou um caso duradouro com a polonesa Marie Walewska, uma bela jovem casada com quem teve um filho em 1809, batizado de Alexandre Joseph.

Documento da anulação do casamento de Napoleão e Joséphine.

Segundo os relatos, Napoleão e Marie teriam se conhecido em Blonie. Na ocasião, os dois se cumprimentaram brevemente e depois se viram novamente num baile oferecido pelo conde Stanislaw Potocki na sua residência, em Varsóvia. Apesar de parecer não nutrir qualquer sentimento pelo imperador, Walewska aceitou a tarefa de se tornar sua amante, para garantir o apoio da França à Polônia contra a Prússia, a Rússia e o Império Habsburgo. Em 1807, ele começou um correio amoroso com Marie, onde dizia não ver “ninguém além de ti, não admiro ninguém além de ti, não quero ninguém além de ti”. Quando ela parecia não corresponder a todo esse afeto, ele se queixava:

Não gostais de mim, madame? Eu tinha motivos para esperar que vós pudesses … Ou talvez eu estivesse errado. Enquanto meu ardor está aumentando, o vosso está diminuindo o ritmo. Vós estais minando meu repouso! Ah! conceda alguns momentos de prazer e felicidade a um coração pobre, que apenas espera adorar-vos. É tão difícil me deixar ter uma resposta? Vós me devestes duas.

Assim como nas suas primeiras cartas a Joséphine, um Napoleão de quase 40 anos utilizava palavras parecidas para dar voz à linguagem do desejo, quando diz que o ardor que sentia pela amada estava “minando meu repouso” e insistia com ela por mais alguns momentos de prazer e felicidade. Nas suas Memórias, Marie escreveu que “convencer Napoleão a apoiar o movimento de independência da Polônia” era seu único objetivo e apenas isso “poderia desculpar minha posição degradada”.

As cartas do imperador, porém, não paravam de chegar. Numa delas ele dizia que “seu país será mais querido por mim, depois de ter pena do meu pobre coração” e insistia para que ela viesse ao seu encontro. A expectativa de vê-la novamente era a única coisa capaz de “satisfazer as necessidades de um coração ferido, que deseja se jogar aos vossos pés”. Depois de um breve encontro, ele lhe escreveu a seguinte mensagem:

Marie, minha doce Marie, meu primeiro pensamento está em vós, meu primeiro desejo é ver-vos novamente. Voltarás, não vais? Vós prometestes que faria. Caso contrário, a águia voará até vós! Vos vejo no jantar – nosso amigo me diz isso. Quero que aceites este buquê: quero que seja um elo secreto, estabelecendo um entendimento particular entre nós no meio da multidão ao redor. Poderemos compartilhar nossos pensamentos, apesar de todo o mundo estar olhando. Quando minha mão pressionar meu coração, saberás que não estou pensando em ninguém além de vós; e quando vós pressionar vosso buquê, terei vossa resposta de volta! Ame-me, minha linda, e segure vosso buquê apertado!

Marie Walewska, por François Gérard.

Napoleão Bonaparte ofereceu para a posteridade algumas das cartas mais românticas (e eróticas) já escritas. Tanto Para Joséphine de Beauharnais quanto para Marie Walewska, suas letras expressam o ardor de seus sentimentos. Com Josephine, porém, sua relação foi mais intensa do que com todas as outras. Mesmo no exílio em Santa Helena, enquanto ditava suas Memórias, ele se recordava com carinho dos momentos que passaram juntos, das noites “quentes como o equador” entre as quatro paredes de Malmainson. Tento provado para si mesmo de que era capaz de gerar um sucessor com Marie Walewska, o imperador conseguiu então a anulação de seu primeiro casamento para desposar uma arquiduquesa Habsburgo, Maria Luísa, com quem teve um herdeiro nascido em 1811, proclamado Napoleão II e rei de Roma. Quanto a Joséphine, ela suportou o divórcio de cabeça erguida, retendo consigo a maioria de suas joias e propriedades, incluindo o belíssimo Château de Malmaison. Ela não viveu o suficiente para ver o marido definitivamente derrotado por seus inimigos em 1815, tendo falecido um ano antes, no dia 29 de maio. Napoleão, porém, jamais a esqueceu. À beira da morte, em março de 1821, ele tinha alucinações com a amada: “acabo de ver minha boa Joséphine”, disse ele em meio aos seus delírios. “Ela me disse que estávamos prestes a nos ver novamente, e nunca mais seríamos separados”.

Referências Bibliográficas:

ANDREWS, Stefan. The Love Letters Napoleon Sent Josephine got Pretty Hot and Steamy. 2018. – Acesso em 12 de junho de 2020.

BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

CORBIN, Alain. (Org.). História da virilidade: o triunfo da virilidade no século XIX. Tradução de João Batista Kreuch e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

Love Letters of Napoleon. – Acesso em 12 de junho de 2020.

WILLIAMS, Kate. Josefina: desejo, ambição, Napoleão. Tradução de Luís Santos. São Paulo: LeYa, 2014.

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