“Não passa um dia em que não te ame”: as ardorosas cartas de Napoleão para Joséphine!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Quando o general Bonaparte se apaixonou pela Madame de Beauharnais, foi amor em todo o poder e força do termo”, assim escreveu Auguste de Marmont, amigo de Napoleão, sobre quando o corsário se interessou por Joséphine no ano de 1795. O governo jacobino havia caído juntamente com a cabeça de Robespierre e a França vivia então a fase do Diretório, uma época em que as pessoas podiam respirar mais aliviadas, sem tanto medo de serem acusadas ou levadas à guilhotina. Os dois haviam se conhecido num dos salões de Madame de Stäel e Napoleão ficou completamente arrebatado por aquela graciosa viúva, 6 anos mais velha. A jovem mãe era considerada uma mulher de ótima aparência e fazia uma bela figura nos salões em que costumava frequentar. O interesse dé Bonaparte, porém, foi levemente correspondido, causando assim desconcerto entre os amigos de Joséphine, que se sentiu atraída pela ambição e inteligência do pretendente. Aos 26, o general já era rico e famoso. Mudou-se para uma belíssima casa na Place Vendôme e redobrou os apelos para a amada. Seu afeto por aquela a quem chamou de o “único objeto em meu coração” pode ser conferido numa série de cartas ele lhe dirigiu ao longo dos anos inciais de seu relacionamento.

Uma das cartas de Napoleão para Joséphine.

“Foi aparentemente sua primeira paixão e ele sentiu-a como todo o vigor de sua natureza”, completou Auguste de Marmont, fazendo uma reflexão sobre a natureza dos sentimentos do futuro imperador dos franceses para com Joséphine. Depois que Napoleão se tornou o herói do Termidor, a viúva de Beauharnais ficou cada vez mais tentada a permitir que ele lhe fizesse a corte e então lhe escreveu:

Já não vindes mais ver tua amiga que vos quer muito. Desertaste-a mesmo. Isso é um erro, pois ela está ternamente atraída por vós. Vinde almoçar comigo amanhã, septiti. Quero ver-vos e falar convosco sobre assuntos de vosso interesse. Boa noite, mon ami, je vous abrace. (apud WILLIAMS, 2014, p. 115).

Assim que recebeu essa carta, Napoleão rapidamente respondeu que: “Não posso imaginar a razão para o tom de sua carta. Imploro que acredite que ninguém deseja tanto sua amizade como eu, ninguém está mais ansioso por prova-lo” (apud WILLIAMS, 2014, p. 115). Logo no início, Joséphine resistiu aos pedidos do general por maior intimidade em seu relacionamento, embora não por muito tempo. Em dezembro de 1795, sua biógrafa Kate Williams acredita que eles já tinham se tornado amantes. Às 7 da manhã do dia 29, ele escreveu uma carta para a amante, extasiado depois de sua primeira noite juntos:

Acordo preenchido por pensamentos vossos. Vossa imagem, e os prazeres inebriantes da noite passada não dão descanso aos meus sentidos. Doce e emocionante Joséphine, que estranho poder tendes sobre meu coração! Estais zangada comigo? Estais infeliz? Estais incomodada? Minha alma está quebrada de desgosto e meu amor por vós nega-me repouso. Mas como posso descansar, quando cedo à sensação que me esmaga o ser, quando bebo dos vossos lábios e do vosso coração uma chama entorpecente? Sim! Uma noite ensinou-me quão aquém da realidade fica vosso retrato! Começais ao meio dia: em três horas irei ver-vos novamente. Até lá mil beijos, mio dolce amore, mas não me devolvais nenhum porque me incendeiam a alma (apud WILLIAMS, 2014, p. 116).

Diferentemente de outras cartas de amor trocadas no período entre amantes como Lorde Nelson a Emma (que dizia ama-la como “a um pudim”), as de Napoleão a Joséphine são consideradas uma obra-prima do amor-paixão. Naquela época, o amor romântico propalado pelas obras de Goethe, ou A Nova Heloísa de Rousseau, era expresso por meio desse correio sentimental. O general deu vazão ao desejo sexual na escrita de suas palavras, muitas vezes chegando a furar o papel, tamanha era a força e impaciência com que ele segurava a pena e cobria as palavras erradas com borrões. Vivia na expectativa de tê-la novamente entre os braços. Na cama, os dois se entregavam aos mais curiosos jogos de sedução, desde o uso de fantasias ao de espelhos estrategicamente posicionados no quarto para refletir seus corpos nus, iluminados pela chama das velas. Conforme Napoleão escreveria mais tarde, ele nunca “esqueceu essas visitas” à “pequena floresta negra”. Assim que se tornaram amantes, ele logo demonstrou interesse em toma-la por esposa e se jogava aos seus pés quando ela se recusava a aceitar. Chateado com as negativas de Joséphine aos seus pedidos, ele enviou o seguinte bilhete a ela:

Eu não te amo, nem um pouco; pelo contrário, eu te detesto. Tu és uma Cinderela nada, bizarra e tola. Tu nunca me escreve; Tu não ama teu próprio marido; Tu sabes quais prazeres tuas cartas me dão e, no entanto, ainda não me escreveste seis linhas, casualmente! O que fazes o dia todo, senhora? Qual é o caso tão importante que não te deixa tempo para escrever para teu amante dedicado. Que afeto sufoca e põe de lado o amor, o terno e constante amor que tu me prometeu? De que tipo pode ser esse ser maravilhoso, aquele novo amante que tiraniza teus dias e impede que tu dê atenção ao teu marido? Joséphine, tome cuidado! Uma boa noite, as portas ficarão abertas e lá estarei. De fato, estou muito inquieto, meu amor, por não receber notícias tuas; escreva-me rapidamente para páginas, páginas cheias de coisas agradáveis ​​que encherão meu coração com os sentimentos mais agradáveis. Espero em breve esmagá-la em meus braços e cobri-la com um milhão de beijos, como se estivesse embaixo do equador.

Napoleão Bonaparte

Arrebatado pela visão das lágrimas da amada frente a palavras como essas, Napoleão dizia que “continuo recordado vossos beijos, vossas lágrimas, vosso ciúme amoroso”. “Não nasci com um coração que suporta a visão e o som do choro” (apud WILLIAMS, 2014, p. 118-9). De sua parte, Joséphine ficava espantada com toda aquela demonstração de afeto: “Bonaparte passa o dia em adoração diante de mim como se eu fosse uma deusa”, escreveu ela (apud WILLIAMS, 2014, p. 119). Depois das crueldades que passou nas mãos do primeiro marido, Alexandre, ela havia se tornado mais cautelosa quanto ao amor, passando a ver no romance com outros homens apenas uma forma de garantir status e segurança. Já para Napoleão, um casamento com a viúva de Beauharnais era vantajoso, devido ao cículo de amizades poderosas e influentes que ela acumulou após o Termidor, tanto entre o antigo regime quanto entre o novo. Ela então consultou amigos e depois de muito deliberar acabou concordado com a proposta de casamento e de assumir o papel de esposa de um militar. Foi uma cerimônia simples, sem a presença de familiares, incluindo os dois filhos dela, Hortense e Eugéne. Para o general Bonaparte, esse era o início de uma nova vida, uma nova escalada rumo aos seus maiores desejos e ambições.

Carta de Napoleão Bonaparte para Joséphine, escrita em Nice.

No dia 11 de março de 1796, ele precisou viajar em direção à Itália por questões militares, mas enviava constantemente cartas à sua esposa, nas quais dizia que ela era “o objeto constante dos meus pensamentos” e que não via a hora de estar novamente com ela e tocar o seu corpo “abaixo do equador”. Enquanto viajava, pensava sempre nela:

Não passa um dia em que não te ame, em que não te aperte nos meus braços. Sempre que bebo uma xícara de chá, amaldiçoou a glória e a ambição que me mantém afastado da alma da minha existência. No meio de negócios, na liderança das tropas, na revista aos acampamentos, minha maravilhosa Joséphine é o único objeto em meu coração, a única ocupação da minha alma, absorve-me os pensamentos (apud WILLIAMS, 2014, p. 127).

As respostas de Joséphine, porém, eram mais curtas e espaçadas, o que deixava seu marido bastante decepcionado. Quando chegavam às mãos de Napoleão, estas cartas deixavam-lhe em estado de euforia. Em 3 de abril de 1796, ele escreveu:

Recebi todas as tuas cartas, mas nenhuma me deixou tão impressionado quanto a última. Como, minha amada, tu podes me escrever assim? Tu não acha que minha posição é cruel o suficiente, sem acrescentar minhas mágoas a esmagar meu espírito? Que estilo! Que sentimentos tu mostra! Eles são fogo e queimam meu pobre coração. Minha única Joséphine, além de ti, não há alegria; longe de ti, o mundo é um deserto onde estou sozinho e não posso abrir meu coração. Tu tomaste mais do que minha alma; Tu és o único pensamento da minha vida. Quando estou cansado da preocupação com o trabalho, quando sinto o resultado, quando os homens me incomodam, quando estou pronto para amaldiçoar a vida, ponho a mão no coração; teu retrato está aí, eu olho para ele, e o amor me traz uma felicidade perfeita, e tudo está se esgotando, exceto o tempo que devo passar longe de minha amante. Com que arte tu cativaste todas as minhas instalações e concentraste todo o meu ser em tu? É um doce amigo, que só morre quando eu morrer. Viver para Joséphine, essa é a história da minha vida que anseio. Eu tento chegar perto de ti. Idiota! Não percebo que estou indo mais longe. Quantos países nos separam! Quanto tempo antes de ler estas palavras, esta expressão débil de uma alma cativa onde você é rainha? Oh, minha adorável esposa! Não sei o que o destino me reserva, mas se isso me afastar de ti, será insuportável! Minha coragem não é suficiente para isso. Era uma vez orgulhoso de minha coragem e, às vezes, pensava no destino dos males que poderia me trazer e considerar os horrores mais terríveis sem piscar ou me sentir abalado. Hoje, porém, o pensamento de que minha Josefina pode estar com problemas, de estar doente, acima do cruel, o terrível pensamento de que pode me amar menos atrapalha minha alma, acalma meu sangue e me deixa triste e deprimido, sem nem a coragem da raiva e do desespero. Costumava dizer que os homens não podem prejudicar quem morre sem arrependimento; mas agora, morrer não amado por ti, morrer sem saber, seria o tormento do inferno, a imagem viva da desolação absoluta. Sinto que estou sufocando. Minha única companheira, tu, a quem o destino se destinou a percorrer a triste estrada da vida ao meu lado, o dia em que eu perder teu coração será o dia em que a natureza perderá calor e vida para mim. Eu paro, doce amiga; minha alma está triste, meu corpo está cansado, meu espírito oprimido. Os homens me entediaram. Eu deveria odiá-los: eles me tiram do coração. Estou em Port Maurice, perto de Ognelia; amanhã chego a Albenga. Os dois exércitos estão se movendo, tentando enganar um ao outro. Vitória para o mais esperto. Estou satisfeito com Beaulieu; ele maneja bem e é mais forte que seu antecessor. Vou vencê-lo profundamente, espero. Não se assuste. Ame-me como teus olhos; mas isso não basta: como ti, mais que ti, que teus pensamentos, tua vida, todos teus. Perdoe-me, querido amor, estou delirando; A natureza é frágil quando se sente profundamente, quando se é amado por ti.

Bonaparte

Tchau Tchau! Eu vou para a cama sem ti, vou dormir sem ti. Deixe-me dormir, eu imploro. Por várias noites eu senti tu em meus braços; um sonho feliz, mas não é tu.

Napoleão dava vazão a todas as suas capacidades literárias até então inexploradas para expressar seu desejo por Josephine. Ficava feliz quando ela lhe escrevia cartas longas e triste quando recebia apenas respostas curtas: “se me amasses, escrever-me-ia duas vezes por dia. Mas tens de conversar com os cavalheiros que te visitam às dez da manhã e depois ouvir o falatório vazio e os disparates sem sentido de centenas de janotas até uma hora da manhã” (apud WILLIAMS, 2014, p. 128). De fato, o general sentia ciúmes de sua esposa e logo este ciúme acabaria por corromper o relacionamento entre eles. Apesar de permanecerem juntos pelos próximos 14 anos, Napoleão passou a procurar consolo nos braços de outras amantes, como Marie Walewska, embora nunca tenha deixado de prestar homenagens ao seu primeiro amor. Os dois se separaram em 1809, devido à necessidade que o imperador tinha de produzir um herdeiro masculino para os múltiplos territórios que havia conquistado em suas guerras pela Europa. A partir de então, a antiga imperatriz foi viver uma temporada na Itália, retornando para a França pouco antes de morrer, em 1814. Dizem que uma das últimas palavras proferidas pelo imperador dos Franceses, quando faleceu em 5 de maio de 1821 no seu exílio forçado em Santa Helena, foi: “Josephine”!

Referências Bibliográficas:

ANDREWS, Stefan. The Love Letters Napoleon Sent Josephine got Pretty Hot and Steamy. 2018. – Acesso em 12 de junho de 2020.

Love Letters of Napoleon. – Acesso em 12 de junho de 2020.

WILLIAMS, Kate. Josefina: desejo, ambição, Napoleão. Tradução de Luís Santos. São Paulo: LeYa, 2014.

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