Ageísmo: a rainha Elizabeth II e o preconceito contra uma pessoa que envelhece!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 21 de abril de 2020, a rainha Elizabeth II comemorou seu 94° aniversário. Vivendo em reclusão com seu marido no castelo de Windsor desde que estourou a pandemia de COVID-19, a monarca depois comemorou mais este natalício com a divulgação de uma bela foto na qual aparece montada a cavalo, em pleno vigor e aparentando ótima saúde. Por outro lado, datas como essa sempre são motivo para a difusão de uma vasta quantidade de memes e imagens de cunho satírico pela internet, onde a idade da soberana é razão de riso para muitos internautas, em vez de admiração. As montagens, por sua vez, são um triste testemunho da forma imatura e desrespeitosa como nossa sociedade encara a velhice, mais precisamente quando esta se manifesta no corpo de uma mulher. Não só Elizabeth II, como também outras figuras de liderança feminina no contexto atual costumam sofrer ataques mal intencionados, comumente dirigidos a uma pessoa que atravessa a faixa dos 60.

Na busca por uma palavra que melhor classificasse essa situação, encontrei o termo “ageísmo”. Criado em 1969, o conceito foi definido pelo médico psiquiatra e gerontologista Robert Neil Butler como o preconceito dirigido às pessoas mais velhas, podendo se manifestar em diversos comportamentos do dia a dia. Ao se considerar a pessoa idosa como improdutiva ou incapaz, ou mesmo infantiliza-la, pode ser uma forma de ageísmo. Muitas vezes praticado até de forma inconsciente, essa discriminação está tão arraigada na nossa cultura, que poucos param para refletir nas suas causas e consequências, principalmente no psicológico daqueles que são seu alvo direto. A sociedade contemporânea, vivendo constantemente sob o signo do novo e da mudança, relegou a manutenção tradição como uma coisa secundária e com ela os seus principais portadores. É como se colocassem um prazo de validade na vida humana. Uma vez vencido, tratam-na como algo descartável.

Um dos muitos exemplos de memes que satirizam a idade da rainha Elizabeth II.

Em se tratando de Elizabeth II, todos os anos ressuscitam o boato de que ela pretende abdicar ao trono em favor do príncipe de Gales, devido à sua idade avançada. Basta seu reinado acumular mais um novo algarismo, que novas imagens satíricas passam a circular nas redes, achincalhando a figura da soberana. Que muitos não concordam com o modelo de governo que ela representa, isso é um fato. Mais verdade ainda é que a rainha conseguiu chegar em idade tão privilegiada graças à sua condição social, que lhe garantiu acesso aos melhores médicos e a uma qualidade de vida muito acima da maioria da população mundial. Contudo, por que a circunstância do envelhecimento de Elizabeth aparece sempre como objeto de destaque para a formulação das teorias mais escabrosas e de comentários tão ácidos? Me parece então que temos um caso nítido de ageísmo aqui!

No dia 10 de junho de 2020, o príncipe Philip completou 99 anos com uma belíssima fotografia ao lado da esposa. A despeito dos muitos comentários de infidelidade que sempre rendem assunto para tabloides de fofoca, o casal permanece junto há sete décadas. Porém, parece que só agora as pessoas se deram conta de que o marido da rainha é mais velho do que ela. Aqui fica claro também uma questão de gênero. Pouco se comenta a idade do príncipe Charles, por exemplo, exceto quando a colocam em comparação com de sua mãe, para fazer piadas do tipo “ela vai acabar enterrando ele”. A finitude da vida aparece nesse tipo de pensamento intimamente ligada aos estágios de uma idade longeva. Não raro, especulações acerca de quanto tempo a rainha Elizabeth ainda vai sobreviver são feitas em publicações assim. O fato dela se manter lúcida e sorridente no cumprimento de suas funções, montando cavalo e dirigindo seu próprio carro parece causar espanto para muitas pessoas, que costumam associar a velhice à perda das funções cognitivas. Segundo Ashton Applewhite:

As mulheres sofrem o duplo golpe do preconceito de idade e do machismo. Passamos pelo envelhecimento de modo diferente. Há um duplo critério aqui, uma surpresa: a ideia de que o envelhecimento realça os homens e desvaloriza as mulheres. As mulheres reforçam esse duplo critério quando competimos para permanecer jovem, outra proposta difícil e derrotada. Alguma mulher neste auditório realmente acredita que é uma versão inferior, menos interessante, menos divertida na cama, menos valiosa, do que a mulher que já foi um dia? Esta discriminação afeta nossa saúde, nosso bem-estar e nossa renda, e os efeitos aumentam ao longo do tempo. Além disso, são agravados pela etnia e pela classe e, por isso, em todo o mundo, as pessoas mais pobres são as mulheres idosas negras (2017).

Por usar a coroa e estar constantemente sob a luz dos holofotes, toda a atenção logicamente vai para a soberana. Mas, como isso a afeta desde 1952, quando se tornou rainha após a morte do pai, poucos pararam para se perguntar. No ano passado, outra figura de destaque no cenário mundial, Madonna, lançou o clipe da música “Medellin”, no qual aparece em cenas provocantes com o cantor colombiano, Maluma. A popstar foi então alvo de várias críticas, principalmente por continuar expressando sua sexualidade, como ela aliás sempre fez ao longo de toda a sua carreira. Não só Madonna, como Cher também passa por esse tipo de escrutínio de caráter misógino e conservador. Parece que as mulheres, quando entram na casa dos 60, são forçadas pelo discurso moralista a abrir mão daquilo que lhes deixa confortável com seus corpos para assumirem o papel da senhora de xale sentada no banco da praça. Enquanto Madonna e Cher continuam quebrando tabus de gênero e idade na nossa cultura, especialmente no que se refere à composição de sua aparência, Elizabeth II resolveu trilhar outro caminho.

Elizabeth e Philip estão juntos há sete décadas, mas parece que só agora as pessoas notaram que ele é mais velho que ela!

A partir da década de 1980, as fotos da soberana mostram o gradual embranquecimento dos seus fios de cabelo e o aparecimento das primeiras rugas. Diferentemente de sua homônima no século XVI, que não permitia ser retratada como uma mulher idosa, a atual monarca sempre pareceu bem confortável com o avançar dos anos e não fez qualquer esforço para escondê-lo, seja em retratos, selos ou nas efígies de moedas. Seu pescoço encurtou, a cabeleira ficou completamente prateada, a coluna se encurvou e as pernas adquiriram um ligeiro entortar. Mesmo com todos os recursos financeiros de que dispõe, Elizabeth não se rendeu à multimilionária indústria dos cosméticos, na intenção de atenuar os sinais do tempo. Em vez disso, ela assumiu a velhice como uma missão, com direito até mesmo ao xale da vovó e fotografias em que aparece sentada em bancos, cercada pelos netos e bisnetos. Se a rainha se sentiu confortável para assumir a imagem da matriarca, por que não podemos aceitar que outras mulheres possam se expressar corporalmente da forma como melhor entendem, independentemente da idade em que estejam? A ditadura dos padrões de beleza é tão poderosa, que muitas passaram a ter medo de envelhecer. Felizmente, isso começou a ser desconstruído principalmente pela atitude das mulheres negras, das lésbicas, trans e daquelas consideradas “acima do peso”, entre outras, que fizeram de seu corpo um elemento da expressão de sua identidade.

Com efeito, em culturas muito mais antigas que a nossa, como as de matriz indígena, africana e oriental, envelhecer é sinônimo de respeito e sabedoria. Ao longo de sua vida, Elizabeth conheceu algumas das maiores lideranças políticas do século XX, esteve em todos os cantos do mundo e adquiriu um vasto conhecimento que serve de guia para Premiês mais jovens que ela. Quando se tornou a monarca mais longeva da história britânica, em 9 de setembro de 2015, ela disse que muitos “observaram um significado diferente para este dia, embora não seja um que eu tenha aspirado. Inevitavelmente uma vida longa envolve muitas etapas, a minha não é exceção”. No Brasil, porém, essa longevidade se torna motivo de riso. Um triste reflexo de como encaramos nossos próprios idosos e toda a importante bagagem histórica que eles trazem para o presente. Segundo pesquisas recentes do Ipea, cerca de 83.870 deles vivem em asilos, quando não em estado de completo abandono. Número esse que, infelizmente, só tende a aumentar com o passar dos anos. Como disse Applewhite, “o estranho sobre o preconceito de idade é que esse outro somos nós. O preconceito alimenta-se da negação, da relutância em reconhecer que nos tornaremos essa pessoa mais velha. É constrangedor ser chamado de mais velho até deixarmos de ter vergonha disso, e não é saudável passar a vida temendo nosso futuro” (2017).

A despeito da instituição que representa, ver a rainha Elizabeth saudável e feliz ainda no exercício de suas funções reais, bem como o carinho que seus súditos nutrem por ela, deveria servir de exemplo e admiração para todos. Que uma mulher idosa possa ter a representatividade que ela tem, mais ainda. Como disse certa vez a cantoria Rita Lee, “envelhecer é uma loucura, não é para bananas!”. Devido a essa imposição de padrões ao corpo feminino, é preciso ter muita desenvoltura para assumir as marcas do tempo e carregar nas belas costas encurvadas o peso da sabedoria advinda com o seu passar. Por fim, sei que esse texto pode ser mal interpretado por algumas pessoas, principalmente por trabalhar em cima de uma figura que gera muita controvérsia em qualquer lugar que seja mencionada. Mas, em se tratando do envelhecimento, principalmente o das mulheres, nossa sociedade ainda tem muito o que aprender (inclusive esse autor que vos escreve). Que as várias Elizabetes, Donas Marias, Canôs, Madonnas, Ritas e Mães Menininhas estejam cada vez mais presentes em nosso cotidiano, seja no plano físico ou no da lembrança, para nos ensinar essa importante lição!

Referências:

APPLEWHITE, Ashton. Vamos acabar com o preconceito contra a velhice. 2017. – Acesso em 11 de junho de 2020.

EGYDIO, Lucila. Mulher e Envelhecimento. 2017. – Acesso em 11 de junho de 2020.

KAIRALLA, Maisa. Já ouviu falar em ageismo? A Madonna ajuda a entender. 2019. – Acesso em 11 de junho de 2020.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista do papel de uma monarca em pleno século XXI. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

Por que a sociedade “proíbe” as mulheres de envelhecer e exige que aparentem 20 anos aos 35?. – Acesso em 11 de junho de 2020.

Você sabe o que é ageísmo? – Acesso em 11 de junho de 2020.

3 comentários sobre “Ageísmo: a rainha Elizabeth II e o preconceito contra uma pessoa que envelhece!

  1. Belíssimo texto! Uma excelente reflexão não só sobre esta figura ícone da História, mas também uma ampla análise do comportamento social frente à importantes questões do nosso viver. Parabéns! Sempre muito lúcido e esclarecedor em sua narrativa.

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  2. Muito interessante, rendo homenagens às pessoas idosas, muito viveram, muito fizeram pela própria vida e de outros, pra mim são merecedores de elogios! Quanto a rainha, que ela viva muitos mais anos e que sua sabedoria faça bem pra quem pensa que uma pessoa da idade dela é incapaz!!

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  3. Parabéns pelo belo texto. Infelizmente, principalmente no Brasil, a velhice é tida como um peso para a sociedade, inclusive para a família. Sou idosa e tenho sofrido esse preconceito na pele. Vai desde o modo como a sociedade nos trata até a perda de nossos direitos previdenciários. Pura covardia com quem ajudou a formar as famílias, os valores e contribuiu com seu trabalho pra o desenvolvimento do país.

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