Nandi ka Bhebhe: a vida e os desafios da mãe solteira que se tornou rainha do povo Zulu!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Entre os séculos XVI e XVIII, as estruturas sociais, políticas e econômicas do continente africano passaram por intensa transformação, principalmente após a chegada dos primeiros europeus e as subsequentes tentativas de colonização. Esse processo, intensificado após o início da campanha imperialista levada ao cabo por países como Inglaterra, França, Bélgica, entre outros, deixou sequelas indeléveis na geografia do território, tanto de ordem demográfica quanto ecológica. Muito sobre a história da liderança negra nesse contexto foi deturpada pela visão do colonizador, quando não completamente apagada. As marcas dessa ação podem ser melhor sentidas quando pesquisamos um pouco mais sobre as vidas de rainhas africanas, que enfrentaram as estruturas patriarcais de nações ou reinos e se firmaram como figuras de destaque entre os seus conterrâneos. Recentemente, muito se tem escrito sobre Jinga de Angola, a poderosa soberana que por quatro décadas usou a guerra e a diplomacia para impedir o progresso dos portugueses nos seus domínios. Por outro lado, poucos ouviram falar sobre Nandi ka Bhebhe, mãe do rei Shaka de Zulu, que criou seus filhos sozinha, convicta na crença de que era possível construir uma unidade entre os povos vizinhos.

Enquanto na França os ventos da Revolução, insuflados pelo pensamento iluminista, começavam a se formar, e na América do Norte as Treze Colônias Inglesas ameaçavam romper coma a metrópole, em Melmoth, na África do Sul, nascia Nandi, filha de Bhebhe, um dos chefes do povo Elangeni (Mhlongo). Pouco se sabe sobre sua infância, especialmente o ano exato de seu nascimento, embora possamos especular com base em alguma evidência que este tenha ocorrido entre os anos de 1760 e 1767. À medida em que ela ia se desenvolvendo, sua beleza e caráter irreverente começaram a chamar a atenção daqueles viviam ao redor. As circunstâncias de seu envolvimento com o filho do rei de Zulu, Senzangakhona ka Jama, são ainda mais misteriosas. Quando a notícia de que Nandi havia engravidado chegou aos ouvidos do povo de Mhlongo, isso gerou bastante revolta. A própria jovem exigiu um pagamento de 55 rebanhos de gado como pagamento pelos danos que lhe haviam sido causados, o que sugere que o envolvimento dela com Senzangakhona pode não ter sido resultado de um ato consensual. Na expectativa de evitar um conflito, as exigências de Nandi foram atendidas e em 1787 ela deu à luz ao seu filho, a quem deu o nome de Shaka.

Com o tempo, aquela criança concebida fora do casamento se tornaria um dos maiores líderes do povo Zulu. Porém, a polêmica gerada em torno de seu nascimento é mais complexa do que se pode supor. Na época em que foi anunciada a gravidez de Nandi, Senzangakhona refutou a paternidade da criança e disse que a jovem na verdade sofria de uma doença estomacal, provocada por um besouro conhecido como iShaka, cujos sintomas era inchaço na região do ventre e irregularidades menstruais nas mulheres. Quando o filho nasceu, Nandi ironicamente o nomeou em referência ao inseto que os Zulu diziam ter supostamente provocado sua “enfermidade”. Pouco depois, ela passou algum tempo vivendo no kraal (séquito) de Senzangakhona, mas as humilhações que lhe foram infligidas obrigaram-na a abandonar o local. Baladas obscenas, entoadas por cantores e poetas denegriam sua sexualidade e conduta, conforme podemos entender a partir da leitura desses versos: “USontanti, Omathanga kahlangani, ahlangani ngokubona umyeni” (flutuador, cujas coxas nunca são pressionadas juntas, exceto à vista de um homem). Nandi era acusada pelas pessoas do kraal de ter seduzido o filho do rei para gerar uma criança, cujo nascimento a colocaria de alguma forma próxima do trono.

Fronteiras originais do reino de Zulu, localizado na África do Sul.

Desprezada e vilipendiada, a jovem mãe decidiu abandonar tudo e cuidar de seu filho sozinha, a despeito das dificuldades que ela encontraria no caminho. Ela nunca perdeu a esperança e passou a encontrar coragem para seguir em frente nos olhos do pequeno Shaka. À medida em que crescia, o garoto era educado para se tornar um líder de destaque, ou quem sabe o próximo rei dos Zulu. Nesse processo, Nandi ka Bhebhe concebeu outra criança, uma menina, a quem deu o nome de Nomcoba. Mãe solteira e com dois filhos, tendo que enfrentar as barreiras impostas pelo patriarcado, ela ainda teve que passar por momentos de grande provação, como a grande escassez de alimentos de 1802, que ficou conhecida como “Madlathule” (coma e fique calado). Muitas pessoas morreram de fome e poucos foram aqueles capazes de oferecer ajuda, especialmente para uma mulher de quase quarenta anos que ainda por cima trazia consigo duas bocas a mais para alimentar. Sem deixar se abater, Nandi percorreu longas distâncias, de vilarejo a vilarejo, pedindo abrigo e comida. A solidariedade que ela encontrou em algumas casas, entretanto, foi o que lhe permitiu terminar a criação de Shaka e Nomcoba.

Não obstante, Nandi ka Bhebhe  precisou proteger seu primogênito de tentativas de assassinato, enquanto vivia novamente entre seus conterrâneos, o povo Mhlongo de Elangeni. Os parcos registros sobre sua história indicam que ela teria se casado após abandonar o Senzangakhona com um homem chamado Gendeyana, natural do povo Qwabe. Consta que ela teve mais um filho com o novo parceiro, a quem deu o nome de Ngwadi. Dificuldades de convivência, porém, forçaram-na a deixar seu lugar entre os Qwabe e se fixar entre o povo Mthethwa, liderado pelo chefe Dingiswayo. Ali, Nandi recebeu uma acolhida bastante calorosa, assim como seus filhos. O jovem Shaka foi introduzido entre os soldados locais e aprendeu com eles táticas de guerra, completando assim sua formação. Quando Senzangakhona morreu em 1816, Shaka derrubou seu meio-irmão Sigujana do trono e assumiu o comando dos  Zulu. Com sua ascensão ao poder, Nandi ka Bhebhe se tornou rainha-mãe e passou a exercer uma posição de destaque junto ao filho. Assim como outras mulheres que gozaram de influência no reinado de Shaka, Nandi foi encarregada de administrar os kraals militares e chegou a ser nomeada regente, enquanto o soberano estava fora em campanha militar. Sempre contrária à violência, a rainha-mãe defendia o uso da diplomacia para apaziguar as desavenças existentes entre os povos vizinhos.

Litogravura representando o rei Shaka de Zulu.

Com efeito, durante seu reinado conjunto com Nandi ka Bhebhe, Shaka conseguiu agregar novos territórios aos seus domínios e se tornou uma liderança relevante entre os Zulu, exatamente como sua mãe havia previsto quando ele era apenas um garotinho. Em 10 de outubro de 1827, porém, Nandi morreu em decorrência de complicações intestinais, com aproximadamente 60 anos de idade. O rei sentiu com pesar a perda da mulher que havia lhe ensinado o respeito ao seu gênero e enfrentado tantos percalços para lhe dar uma criação apropriada. Ao longo de sua vida, Shaka demonstraria mais valor às mulheres do que os antigos reis de Zulu que o precederam, fato que pode ser comprovado pela grande consideração que ele tinha pela sua mãe e tias, as princesas Mkabayi, Mmama e Nomawa, bem como pelo testemunho de sua conduta comedida durante o período que ficou conhecido como “Isililo SikaNandi”, ou o “luto pela morte da rainha Nandi”. Ela foi sepultada nos arredores de Eshowe, na antiga estrada de Empangeni. Em 2011, o Comitê Mhlongo se reuniu para reinaugurar seu túmulo, que ainda pode ser visto com a identificação de Nidi. Para o povo Zulu, ela entraria para a história como um testemunho da força e da resiliência materna, inspirando assim diversas mulheres ao longo das futuras gerações na luta contra as imposições do patriarcado.

Referências:

DOMINGUES, Joelza Ester. Mulheres africanas: rainhas, guerreiras e líderes espirituais. 2018. – Acesso em 08 de junho de 2020.

Meet Nandi ka Bhebhe: Queen Mother of South. – Acesso em 08 de junho de 2020.

MTHEMBU, Soka. Queen Nandi: A remarkable woman. 2014. – Acesso em 08 de junho de 2020.

Nandi Mother Of Shaka Zulu. – Acesso em 08 de junho de 2020.

SILVÉRIO, Valter Roberto (Org.). Historia geral da África: século XVI ao século XX. Brasília: UNESCO, 2013.

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