As Aventuras de Alice Laselles: conheça o livro infantil escrito pela rainha Vitória aos 10 anos!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Aos 10 anos de idade, a princesa Alexandrina Vitória de Kent era considerada uma menina de comportamento insolente e com pavio curto. Sem contato com outras crianças que não os filhos mais velhos de sua mãe, a pequena se demonstrava muito impaciente: não gostava de tomar remédios e tampouco de receber ordens. Dizem que, quando seu professor de piano lhe orientou a praticar mais com o instrumento, como faziam as outras pessoas, Vitória se irritou, bateu a tampa do objeto com tudo e bradou: “Aí é que está! Não há nenhum dever nisso”. Por outro lado, ela também tinha um ótimo senso de humor e um talento nato para imitações e respostas rápidas. Brincando pelos jardins do Palácio de Kensington, a princesa imaginava situações, criava personagens e contava histórias para entreter seus acompanhantes. Alguns desses contos eram passados para o papel durante suas lições de redação e então arquivados pela sua governanta, a baronesa Lehzen. O mais famoso deles ganhou uma edição lindíssima pela Royal Collection Trust: “As Aventuras de Alice Laselles”.

As aventuras de Alice Laselles

Capa do livros “As Aventuras de Alice Laselles”, publicado pela Royal Collection Trust e assinado com o nome de nascimento da rainha: Alexandrina Vitória.

A história, escrita pela princesa quando ela tinha quase 11 anos, conta as peripécias de uma garotinha de cachinhos loiros chamada Alice Laselles, matriculada na escola para garotas de Miss Duncombe. Composta originalmente em um caderninho de forro vermelho, a narrativa gira em torno do mistério sobre quem teria colocado um gato na cozinha da dona do internato. A edição publicada pela Royal Collection Trust vem acompanhada ainda de belíssimas ilustrações, feitas e/ou coloridas pela própria Vitória, retratado algumas das cenas do livro. Numa delas, podemos ver a pequena Alice agarrada ao braço de seu pai, rogando para que ele não a deixasse sozinha na hora de dormir: “Querida Alice”, ele a consola, “é necessário que você vá meu amor, então vá para a cama, minha querida, e esteja pronta para mim amanhã de manhã”. Alice não queria ir para a escola de Miss Duncombe, para a qual ela tinha sido recomendada devido à sua “grande respeitabilidade, amabilidade e doçura de temperamento”.

A narrativa de Alice Laselles, por sua vez, nos permite entrar um pouco na psiquê de sua autora, na época submetida a um rigoroso programa de educação criado por sua mãe, a duquesa viúva de Kent, juntamente com seu secretário, Sir John Conroy. Conhecido como sistema Kensington, nas palavras de biógrafa Julia Baird:

Desde os cinco anos, Vitória não podia ficar sozinha, só era permitida descer as escadas pela mão de um adulto e brincava com outras crianças apenas na presença de um tutor. Grande parte desse método era bem intencionada, como forma de criar uma rainha adequada. […] Mas o método Kensington não visava exclusivamente, ou nem sequer basicamente, ao benefício de Vitória. Seu meio-irmão Charles de Leiningen definiu os objetivos da seguinte maneira: 1) granjear popularidade para Vitória, isolando-a dos maus costumes e da má política da corte real; 2) obter a regência (devido à necessidade de “assegurar um futuro honroso e agradável também para a duquesa de Kent”); 3) nomear Conroy como secretário particular. O monitoramento para chegar a esses objetivos, escreveu ele, era exaustivo, incluindo “o mais ínfimo e insignificante detalhe” (BAIRD, 2018, p. 71).

A pressão e o isolamento provocados pelo sistema Kensington fez Vitória escrever, anos mais tarde, que “tive uma infância muito infeliz quando era criança; não podia exprimir meus fortíssimos sentimentos de afeição, já que não tinha irmãos nem irmãs para conviver. Nunca tive pai. Em minhas infelizes circunstâncias não mantinha uma relação boa nem minimamente próxima ou íntima com minha mãe… e não sabia o que era uma vida doméstica feliz” (BAIRD, 2018, p. 60).

Manuscrito de “As Aventuras de Alice Laselles”.

Sendo assim, fantasiar situações e criar narrativas, como a de Alice Laselles, era uma forma que a princesa encontrou para atenuar uma infância permeada por privações sentimentais. Não é à toa que ela veio a desenvolver um comportamento impetuoso e, muitas vezes, explosivo, um traço de seu temperamento que ela manteve consigo até a idade adulta. Em 1830, a baronesa Lehzen fazia a princesa registrar suas birras nos chamados “livros de condutas”. Às vezes, ela contava três acessos em um mesmo dia: “muito mal comportada e impertinente com Lehzen”, escreveu. No dia 21 de agosto de 1832, ela anotou que foi “muito, muito, muito tremendamente MALCRIADA”, e em 24 de setembro disse que esteve “MUITO MUITO MUITO MEDONHAMENTE MALCRIADA!!!!”.As palavras em letras de forma foram grafadas pela própria princesa, para expressar a gravidade de seu comportamento. Nas suas redações, ela escrevia sobre meninas mimadas, que precisavam ser corrigidas.

Esse tipo de documentação, por sua vez, demonstra como a princesa Vitória lutava contra a sua incapacidade de se comportar, ao mesmo tempo em que ansiava para que suas vontade fossem plenamente atendidas. Aos sete anos, ela compôs um texto sobre uma menina malcriada chamada An, contendo erros de ortografia próprios de uma criança que ainda estava sendo alfabetizada:

A pequena An era muito malcriada gulosa e desobediente. Ninguém gosta de ficar perto dela, pois era muito desagradável.

Um dia o pai dela deu uma festa e veio muita gente fina; e a pequena [A]n teve permissão de entrar na sala. Quando alguém falava com ela virava as costas e não respondia. Como seu querido pai queria agradá-la, então ela teve permissão de jantar com seu papai; sua mamãe (que era a favorita dela) dava tudo o que ela pedia e dava seus doces em provusão [sic]; Ane sentou entre a Lady D – e sua mamãe; An incomodou tanto a pobre da velha Lady D – que ela disse para sua mamãe: “Madame, sua filha é muito malcriada e impertinente”. A sra. G – que era a mãe de An ficou vermelha de raiva. Na verdade madame peço sua licença para ir com minha queridinha Ane querida. Ela vai e sair da sala com An e um prato cheio de doces na mão (apud BAIRD, 2018, p. 59).

Um aspecto muito interessante, que chama a atenção nos textos da princesa Vitória, tanto no livro “As Aventuras de Alice Laselles”, como na redação sobre An, é a figura presente do pai, o que denota a falta que a jovem escritora sentia de alguém que preenchesse o espaço deixado pelo finado duque de Kent, que morreu quando ela ainda era um bebê, em 1819. Na época em que Vitória ditava essas linhas, futuras celebridades literárias davam seus primeiros passos no mundo da escrita: George Eliot (na época Mary Ann Evans), compunha textos impecáveis no internato de Nuneaton, enquanto John Ruskin, famoso crítico de arte, era educado em casa pelos pais. Peculiar e charmoso, além de meticulosamente desenhado (à semelhança de Wes Anderson), o livro da princesa Alexandrina Vitória contém ilustrações de página inteira, com roupas ornamentadas da época da infância da rainha, e oferece também insights curiosos sobre a psiquê de uma jovem da realeza britânica na primeira metade do século XIX.

Fontes:

EXPRESS e HUFFPOST – Acesso em 21 de maio de 2020

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

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