A face encoberta: o que os retratos ocultos de Ana Bolena e Mary Stuart nos dizem sobre seu desfecho!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No século XVI, a Inglaterra assistiu à execução de três rainhas, sendo que uma delas chegara a governar em seu próprio nome. Ana Bolena, morta em 1536 e sua prima, Catarina Howard, decapitada em 1542, foram ambas acusadas de traição e adultério e condenadas, respectivamente, por ordens do seu marido, o rei Henrique VIII. No caso de Mary Stuart, seu julgamento representou um dos processos mais famosos da história. Uma vez que não era súdita da Coroa inglesa, então como poderia ser condenada pelas leis de um país estrangeiro?  O fato é que em 8 de fevereiro de 1587, ela também entregou sua cabeça para o machado do carrasco, provando assim que o sangue dos reis era tão vermelho quanto o dos mais singelo dos mortais. Imediatamente após a morte de cada uma dessas soberanas, seus objetos e demais pertences foram divididos, ou, em alguns casos, destruídos, num esforço empreendido pelos seus algozes para apagar da memória coletiva qualquer lembrança material de sua existência. Poucos desses vestígios sobreviveram aos nossos dias. Mas, mesmo um simples terço de orações, um livro de música contendo palavras rabiscadas, ou um retrato em miniatura, podem contar uma história fascinante e oferecer detalhes importantes sobre a vida e a morte de cada uma dessas soberanas.

O retrato exposto em Nidd Hall e a medalha de 1534.

No caso de Catarina Howard, não restou qualquer retrato autêntico que nos dê uma noção concreta de sua aparência. Assim como acontecera com Ana Bolena, Henrique VIII havia dado ordens para que todos as telas que representassem a sua quinta esposa fossem destruídas. Existe, contudo, uma miniatura pintada por Hans Holbein (o Jovem), de uma mulher usando as joias da rainha Jane Seymour, que se acredita ser Catarina Howard. Contudo, a evidência não é conclusiva. No caso de Ana Bolena, a despeito dos muitos retratos póstumos pintados durante o período elisabetano, supostamente baseados em um modelo original atualmente perdido, a única e indisputável imagem que sobreviveu ao assolamento de sua memória provém de uma medalha de 1534, onde se pode ler a sigla A.R., de Anna Regina, e o seu lema “The Most Happy” (a mais feliz). Além desta, todas as outras representações da soberana não foram feitas no seu tempo de vida e, portanto, devem ser tomadas com cautela, uma vez que as cópias tendem a se distanciar cada vez mais do modelo original. Baseado nisso, em 2016 um software de reconhecimento facial foi aplicado no retrato da medalha, para reconhecer quais das muitas cópias pintadas ao longo do século XVI e início do XVII mais se aproximariam da verdadeira face de Ana Bolena.

O trabalho foi feito por pesquisadores da Califórnia, que identificaram o retrato exposto na propriedade privada de Nidd Hall, pintado no final do século XVI, como o que mais se aproximaria da imagem da rainha inglesa. É bem possível que a própria medalha de 1534 tenha sido utilizada pelo artista como fonte para compor a sua tela, uma vez que em ambas as representações Ana aparece utilizando um capelo inglês e um corpete ricamente adornado com pedrarias. O rosto oval, a largura do nariz e a distância entre os olhos são algumas das outras características que facilitaram essa indicação. Porém, alguns estudiosos da arte discordam que o retrato em Nidd Hall represente Ana Bolena, e sim Jane Seymour, terceira esposa de Henrique VIII, embora a modelo na tela utilize no seu corpete um broche com a sigla A.B. Confusões como essa eram muito comuns na produção de retratos durante o século XVI, principalmente numa fase em que a arte inglesa estava começando a dar os seus primeiros passos. O mesmo software que fez a identificação entre o retrato da medalha e a cópia de Nidd Hall, por sua vez, não conseguiu encontrar correspondência com dois dos retratos mais famosos atribuídos a Ana: os que se encontram expostos no castelo de Hever e na National Portrait Gallery de Londres, respectivamente.

Ana Bolena como Senhora da Jarreteira.

Por outro lado, em 2017, uma nova evidência veio a se juntar ao que já se sabia sobre a aparência de Ana Bolena. Na capela de St. George, no castelo de Windsor, encontra-se o famoso Black Book of the Garter, que contém a história, os regulamentos e os nomes de todos os membros da Ordem da Jarreteira, fundada pelo rei Eduardo III em 1348. Criado em 1534 a mando do rei Henrique VIII, o livro possivelmente foi ilustrado pelo miniaturista Lucas Horenbout, que trabalhou para o rei inglês de 1520 a 1540. Na vigésima página da obra, é possível ver a ilustração de uma dama em trajes tipicamente ingleses, entronizada, com coroa na cabeça e cetro nas mãos. Ela aparece cercada por damas de companhia e outros cortesãos. A inscrição em latim a identifica como a rainha consorte que preside os torneios nos quais os cavaleiros da jarreteira participam. Uma inspeção mais detalhada da ilustração, por sua vez, aponta para um grande pingente em formato circular, usado pela soberana, onde se pode ler as letras A. R., de Anna Regina, gravadas em ouro. Ana usa um capelo no estilo inglês; o rosto oval é harmonizado por um queiro fino, enquanto sua expressão demonstra austeridade, bastante semelhante também com os retratos da soberana pintados no período elisabetano. Curiosamente, a arte é datada do mesmo ano que a medalha analisada nos parágrafos anteriores.

Na ilustração, Ana Bolena aparece de forma bastante idealizada, representando Philippa de Hainault, a esposa do rei Eduardo III. Uma leve protuberância da região do ventre, contudo, indica que ela estava grávida quando serviu de modelo para Horenbout, razão pela qual certamente a medalha de 1534 também foi cunhada. Infelizmente, a rainha sofreu um aborto naquele ano, algo que contribuiu para desgastar sua relação com Henrique III, culminando na sua morte dois anos depois. Ana Bolena se tornara uma espécie de não-ser após a sua decapitação. Todos os vestígios de sua existência foram sumariamente apagados, desde cartas com a sua assinatura (pouquíssimas sobreviveram), brasões de armas gravados nas paredes dos palácios, vestidos, joias e, conforme mencionado anteriormente, seus retratos. Apenas as duas figuras estudadas acima conseguiram sobreviver à ação de obliteração ordenada pelo rei. Passada uma geração e, vejam só, ela era a mãe da monarca reinante. Apesar de Elizabeth ter feito muito pouco para reabilitar a memória de Ana Bolena, alguns súditos consideravam um sinal de lealdade expor um retrato da mãe da soberana nas suas galerias. É por isso que existem tantas cópias dessas espalhadas, muitas das quais com características faciais bastante discordantes.

Ao longo de seu reinado, Elizabeth deu suporte a muitos artistas ingleses, posando inclusive para vários deles. Como poucos monarcas de sua geração, ela sabia do poder que arte tinha como veículo de propaganda e se apropriou desse meio para criar uma imagem de si de forma a representar a soberania de seu governo. Num retrato pintado entre 1580 e 1590, por exemplo, a rainha aparece usando uma medalha da Ordem da Jarreteira, presa ao seu pescoço por uma fita. Existem várias cópias dessa tela, mas essa versão é particularmente interessante pelos detalhes que a pesquisa feita com raios infravermelhos revelou. A radiação infravermelha aplicada sob as camadas da tinta mostrou alguns detalhes encobertos, como uma serpente que a soberana segurava originalmente numa das mãos, transformada na versão final num ramo de flores. A princípio, a serpente era considerada como um símbolo de sabedoria e prudência. Porém, na tradição cristã, esse símbolo foi ressignificado, passando a representar a tentação do diabo, que levou ao pecado original. Certamente foi por esse motivo que o artista resolveu transformar o réptil em um ramo de flores. Atualmente, devido ao estado de degradação da pintura, o esboço da serpente ainda é possível ser visto a olho nu.

Possível retrato de Ana Bolena escondido sob um tela de Elizabeth I.

Todavia, o aspecto mais interessante nesse retrato é que a tela, na verdade, se trata de uma reciclagem. Os dados apresentados pelo reflectograma infravermelho revelaram a face de outra mulher por baixo do rosto da rainha. A cabeça feminina aparece pintada numa posição mais elevada em relação ao rosto de Elizabeth, com perfil em direção oposta. Sua identidade permanece desconhecida, porém, os detalhes denotam uma técnica de pintura de melhor qualidade. A modelo possui um rosto oval, com lábios grossos e olhos grandes e expressivos. Os cabelos são repuxado para trás por um capelo francês, revelando uma testa inteligente, com sobrancelhas arqueadas e maçãs salientes. O conjunto dessas características nos remete diretamente à mãe da rainha, uma vez que o esboço por trás da dela possui semelhanças significativas com os retratos expostos no Castelo de Hever e na National Portrait Gallery. Como a análise dendrocronológica demonstrou que o painel da pintura data de 1572-1580, então é possível que o quadro se tratasse originalmente de outra cópia idealizada da face de Ana Bolena, embora nos reste apenas conjecturar os motivos pelos quais a rainha teria permitido que o retrato de sua mãe fosse encoberto. Devido às circunstâncias da morte de Ana, Elizabeth sempre procurou se identificar mais com a imagem de seu pai, de cuja linhagem provinha o seu direito de governar, do que com a da mulher que morreu sob acusações de traição, adultério e incesto. Apenas no período vitoriano, em meados do século XIX, que os restos mortais de Ana Bolena encontrariam repouso digno na Capela de St. Peter ad Vincula, e seu título de rainha fora devidamente restaurado.

Um caso análogo ao da mãe da rainha Elizabeth I é o de Mary Stuart, que foi contemporânea da rainha Tudor e sua rival na disputa pelo trono da Inglaterra. A maioria dos retratos pintados de Mary datam do período em que ela viveu na França, sendo o mais famoso deles a miniatura executada por François Clouet, que serviu de base para quase todos os outros retratos da soberana. Além destes, existe uma miniatura pintada por Nicholas Hilliard, comissionada por Elizabeth I, enquanto Mary já se encontrava cativa em solo inglês. Por outro lado, assim como ocorreu com o retrato de Elizabeth analisado no parágrafo anterior, existe uma pintura feita na segunda metade do século XVI, representando o chanceler da Escócia Sir John Maitland, atribuída ao artista holandês Adrian Vanson, que também esconde um segredo. A pesquisa com raios-x, comissionada pela National Galleries of Scotland e pelo Courtauld Institute of Art, revelou que, por baixo da tela em questão, existia originalmente um esboço não concluído da rainha escocesa. A face oculta da soberana foi desvelada graças a uma técnica envolvendo radiografias, que, por sua vez, penetrou nas camadas da tinta, revelando a presença de chumbo branco na mistura dos pigmentos da pintura, algo que dificultou uma definição mais clara do rosto de Mary. Porém, seu véu a adornos na cabeça são distinguíveis, revelando assim uma figura bastante parecida com a da miniatura pintada por Nicholas Hilliard.

Esboço de Mary Stuart escondido embaixo do retrato de Sir John Maitland.

Conforme analisamos até aqui, os retratos encobertos de Ana Bolena e Mary Stuart podem denotar um esforço empreendido por parte dos respectivos artistas, possivelmente sob ordens de seus patronos, para apagar a imagem de duas soberanas caídas em desgraça. Dependendo da época e/ou do reinado em que as telas foram originalmente produzidas, a associação com qualquer uma destas rainhas seria bastante prejudicial. A opinião pública que condenou a atitude de Henrique VIII ao decapitar duas de suas esposas, também execrou a postura de Elizabeth I, ao ordenar a decapitação de uma rainha ungida por Deus. Os vestígios matérias de sua existência foram sendo consumidos pelo tempo, de modo que sabemos muito pouco sobre as verdadeiras circunstâncias que levaram ao seu trágico desfecho, principalmente no caso de Ana Bolena e Catarina Howard. Muitas vezes, é como se olhássemos para elas através de um vidro fosco, onde apenas um perfil embaçado é possível ser distinguido. Os anos e os séculos se passaram, mas o fascínio por estas soberanas cresceu sobremaneira, a ponto dezenas de livros, filmes e séries de televisão lhe serem dedicados. Suas faces misteriosas, olhando direto para nós através das paredes de uma galeria, é apenas um dos muitos mistérios que a historiografia luta por desvendar.

Referências Bibliográficas:

BORDO, Susan. The creation of Anne Boleyn: a new look at England’s most notorious queen. New York: Houghton Mifflin Harcourt, 2013.

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FRASER, Antonia. Mary queen of Scots. New York: Delta, 2001.

IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010.

Sites:

National Portrait Gallery – Acesso em 11 de fevereiro de 2020

Realm of History – Acesso em 11 de fevereiro de 2020

The Guardian – Acesso em 11 de fevereiro de 2020

Tudor Faces – Acesso em 11 de fevereiro de 2020

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