Muito além de um trono: a ligação entre Catarina de Médici e Maria Antonieta

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 5 de janeiro de 1589, a Europa perdia uma das mentes políticas mais brilhantes do século XVI. Catarina de Médici, regente e rainha da França, morria aos 69 anos, deixando atrás de si um filho despreparado para reinar sem o seu auxílio, bem como uma filha exilada. Esposa e mãe de três reis, ela sobreviveu a uma das fases mais calamitosas da história francesa, sacudida pelas oito guerras religiosas que ceifaram a vida de milhares de súditos, e lutou com incansável vigor para manter a legalidade da coroa em meio àqueles tempos de crise. Morreu antes de ver sua linhagem se extinguir, dando lugar a uma nova dinastia de reis, os Bourbon, que governariam pelos próximos séculos. O que talvez a rainha florentina da França não imaginasse, contudo, é que 185 após dar o último suspiro, uma arquiduquesa Habsburgo, com sangue Valois e Médici correndo nas veias, subiria os degraus do trono na qualidade de consorte do monarca reinante. Poucos consideram esse detalhe, mas Maria Antonieta, esposa de Luís XVI, era uma descendente direta de Catarina e Henrique II.

Embora a descendência masculina legítima dos reis Valois tenha oficialmente terminado com Henrique III, a descendência feminina, por outro lado, floresceu. Das três filhas de Catarina, apenas Claúdia, duquesa consorte de Lorena, deu à sua mãe o gosto de ser avó de uma grande quantidade de netos e netas, que com o passar dos anos se casaram com algumas das famílias mais importantes da Europa. Entre elas, os Habsburgo austríacos. A linhagem passou da seguinte forma:

Henrique II da França (1519 – 1559) – Catarina de Médici (1519 – 1589)

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Cláudia de Valois (1547 – 1575) – Carlos III, duque da Lorena e de Bar (1543 – 1608)

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Francisco II, duque da Lorena e de Bar (1572 – 1632) – Cristina de Salm (1575 – 1627)

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Nicolau II, duque da Lorena e de Bar (1609 – 1670) – Cláudia de Lorena (1612 – 1648)

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Carlos V, duque da Lorena e de Bar (1643 – 1690) – Leonor da Áustria (1653 – 1697)

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Leopoldo, duque da Lorena e de Bar (1679 – 1729) – Isabel Carlota de Orléans (1676 – 1744)

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Francisco I do Sacro Império Romano-Germânico (1708 – 1765) – Maria Teresa da Áustria (1717 – 1780)

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Maria Antonieta da Áustria (1755 – 1793) – Luís XVI da França (1754 – 1793)

Maria Antonieta era descendente de Catarina de Médici através da filha desta, Cláudia de Valois.

Os Habsburgo austríacos, famosos pelo seu lema: “Que os outros façam a guerra. Tu, feliz Áustria, se case”, acabaram se misturando com quase todas as casas reais europeias, por meio de sua política matrimonial, da qual o casamento entre Maria Antonieta e Luís XVI representou o maior triunfo, uma vez que tinha por objetivo acabar com uma rivalidade que existia entre as famílias que governavam os dois grande reinos. Assim, como parte do acordo de paz arquitetado pela imperatriz Maria Teresa e o rei Luís XV, a jovem arquiduquesa foi enviada para a França, onde viria a se tornar rainha. Se por um lado Antonieta descendia dos Valois, conforme demonstramos logo acima nessa árvore genealógica simplificada, por outro ela também carregava nas veias uma forte dose de sangue Bourbon, uma vez que era neta de Isabel Carlota de Orléans, filha de Felipe I, duque de Orléans, e sobrinha do rei Luís XIV. Dessa forma, as duas últimas dinastias reais da França, inimigas durante tanto tempo, se reuniam nessa princesa que levava consigo a promessa de um futuro glorioso.

É curioso, senão irônico, constatar que as duas rainhas mais famosas da história da França possuíam um grau de parentesco. Não obstante, muitos paralelos podem ser traçados entre a história de ambas. Assim como ocorrera com Catarina de Médici, Maria Antonieta, assim que chegou à corte francesa, foi alvo de ataques misóginos e xenofóbicos por parte da nobreza e tratada com desdém pelos cortesãos mais antigos. As duas também viveram em épocas de grandes agitações políticas e, periodicamente, foram responsabilizadas pelos males que grassavam pelo país. Enquanto recai sobre Catarina a culpa pelo massacre da Noite de São Bartolomeu, ocorrido em 24 de agosto de 1572, Maria Antonieta é escrachada por gastar somos vultosas de dinheiro para bancar seu gostos excêntricos, numa época em que a população do país passava fome e estava exaurida pela cobrança de tantos impostos. A xenofobia fez delas o perfeito bode expiatório para as políticas incompetentes dos reis e dos ministros da coroa, sendo satirizadas em panfletos e charges de conteúdo pornográfico.

Não obstante, as duas rainhas eram mães extremamente zelosas e fizeram tudo o que estava ao seu alcance para proteger seus filhos dos entraves políticos interpostos no seu caminho. Mas as semelhanças acabam aí. Enquanto Catarina de Médici soube tirar partido de sua posição para governar em nome dos filhos, Maria Antonieta teve pouca ou quase nenhuma influência no reinado de Luís XVI, embora tenha sido creditada a ela uma participação bem maior do que aquela que realmente exerceu. Catarina entrou para a história como matadora de protestantes, ao passo que sua descendente no século XVIII ficou conhecida como uma mulher frívola e indiferente aos problemas sociais. Felizmente, novos estudos e biografias têm lançado maiores esclarecimentos sobre as vidas destas duas soberanas, ressaltando traços de suas respectivas personalidades bem distintos daqueles que acreditávamos conhecer.

Dicas de livros:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

FRIEDA, Leonie. Catarina de Médici: poder, estratégia, traições e conflitos – A rainha que mudou a França. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.

Um comentário sobre “Muito além de um trono: a ligação entre Catarina de Médici e Maria Antonieta

  1. O clube de leitura Appia, de Porto Alegre está, este mês, fazendo a leitura do excelente livro CATARINA DE MEDICI de Leonie Frieda.Um mergulho na história, uma biografia muito interessante.

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