O jogo das rainhas: as derradeiras conspirações envolvendo Mary Stuart contra Elizabeth I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma das maiores sombras sobre o trágico desfecho de Mary Stuart consiste na sua participação (ou não) numa série de atentados que tinham por objetivo ceifar a vida de sua prima, Elizabeth I. Desde que chegou à Inglaterra na condição de refugiada, em 1568, o seu nome foi periodicamente utilizado como bandeira de protesto contra a autoridade vigente. Por 19 anos, nobres, plebeus e estrangeiros defenderam a causa da decaída rainha da Escócia, que trazia consigo uma esperança de restauração do catolicismo naquela ilha governada por uma soberana protestante. A mais famosa delas, e também a última, culminou na morte de seus participantes, incluindo a própria Mary. Encontrando-se numa situação difícil, ela tentou de diversas formas escapar de seu cativeiro para reivindicar seu direito de nascença. Não sendo uma mulher habituada a se conformar com a situação e esperar até que a sorte se mostrasse mais favorável, Mary depositou suas expectativas no primeiro cavaleiro que se dispôs a liberta-la, não enxergando de todo as consequências que tal confiança poderia trazer para si. Mal sabia que os agentes de sua prima estavam apenas aguardando um mínimo deslize de sua parte para se livrar de sua real pessoa. Enquanto uma das rainhas vivesse, acreditava-se, a outra jamais estaria segura.

Mary Stuart, por volta de 1560, segundo esboço de François Clouet.

Muitos ministros de Elizabeth I temiam que uma guerra civil, como a que ocorrera no século anterior, pudesse atingir o reino enquanto Mary fosse mantida cativa em solo inglês. Como o assassinato, especialmente de uma monarca ungida por Deus, causava aversão à rainha da Inglaterra, tão defensora da inviolabilidade dos reis, o conselho sabia que, para destruir a ex-soberana da Escócia, precisariam de provas irrefutáveis aos olhos de Elizabeth. A situação se agravou quando, em 1570, uma bula papal exortava os católicos ingleses a se livrarem de sua “rainha herege”, sendo postumamente recompensados pelos céus. A partir de então, o Parlamento aprovou uma lei que considerava alta traição qualquer tentativa de conversão de súditos ingleses ao catolicismo. Até o final do reinando de Elizabeth, muitos padres seriam condenados e executados sob esse decreto. Muitos deles eram súditos exilados que entravam clandestinamente no país para reanimar a fé católica na Inglaterra, sendo alguns formados às pressas no seminário de Douai, nos Países Baixos. Em 1580, por exemplo, o jesuíta Edmund Campion, ex-acadêmico de Oxford, fora aprisionado por conspirar contra Elizabeth para por Mary no trono. Torturado, ele negou que seus motivos fossem outros além dos espirituais. A bula papal emitida 10 anos antes, porém, transformava em político o espiritual.

Em decorrência desse episódio, o Parlamento de 1581 aprovou uma lei que submetia padres e ingleses conversos ao catolicismo à acusação de alta traição. Aqueles que se recusassem a frequentar a igreja protestante e aceitar seus sacramentos seriam taxados com uma multa de 20 libras esterlinas por mês. Apesar disso, esse radicalismo, em vez de minar as expectativas de Mary, deu-lhe novo ânimo. Segundo Jane Dunn:

Por temperamento dada ao otimismo e jamais privada de confiança em seus poderes de atração, ela acreditava na existência de um importante corpo de católicos ingleses prontos para tomar as armas por sua causa. Mary enviou ao embaixador espanhol uma admirável mensagem para Felipe II: “Não pretendia ser deixada onde estava, a não ser como Rainha da Inglaterra (…) seus adeptos e os católicos eram tão numerosos no país que, se se insurgissem, seria fácil mesmo sem assistência, mas com a ajuda de Sua Majestade, logo estaria acabado sem a menor dúvida” (DUNN, 2004, p. 423).

Numa época em que a Europa estava sendo sacudida pelas guerras de religião, a rainha da Escócia apostava num jogo perigoso. Incentivar uma intervenção estrangeira na Inglaterra para fomentar uma guerra civil era não só incorrer em alta traição, como também colocar a vida dos ingleses em risco e arruinar as defesas do reino pela sua causa. Talvez por ingenuidade e/ou excesso de confiança, ela acabaria dando apoio a qualquer conspiração que surgisse em seu caminho, chegando ao ponto de colocar seu nome em algumas cartas que mais tarde seriam utilizadas para a incriminar.

Elizabeth I, escola inglesa, século XVI.

Com efeito, Francis Walsingham, mestre de espionagem de Elizabeth I, estava ciente de quase todos os movimentos da rainha da Escócia, sempre à espera de um passo em falso. Em finais de 1583 fora descoberta mais uma intriga, que ficou conhecida como a Conspiração Throckmorton, da qual faziam parte o duque de Guise, primo de Mary, e o rei da Espanha, e cujo objetivo era invadir a Inglaterra, libertar a soberana cativa e assassinar Elizabeth. O mensageiro, Francis Throckmorton, foi preso e torturado, confessando assim todo o plano. De sua parte, Mary negou qualquer participação no esquema. Há alguns meses vinha mantendo uma correspondência franca e direta com a prima, afirmando estar “muitíssimo preocupada (…) com seu longo cativeiro” e que possuía “a saúde muito debilitada”, desejando, por isso, nada além do “bom favor de Sua Majestade” (apud DUNN, 2004, p. 424). A maioria dos historiadores e biógrafos concordam que Mary estava fazendo um jogo duplo: por um lado, procurava insuflar a compaixão de sua prima, bem como a de seus ministros, mas por outro tentava despista-los de suas verdadeiras intenções. Assim, ela lançava sobre a mesa todas as cartas que estavam ao seu alcance, embora com efeito desconcertante. Na opinião de Stefan Zweig, Mary parecia estar “fatigada dessa vida vã e pesada; pouco a pouco, o desejo desenfreado do poder transforma-se numa nostalgia doce, mística, da morte” (1969, p. 317).

De acordo com Zweig (1969, p. 333), três passos eram essenciais para que os agentes da rainha Elizabeth conseguissem capturar a soberana cativa da Escócia num ato incriminatório: em primeiro, os conspiradores deveriam ser levados a preparar um atentado contra Elizabeth, algo que no momento da confissão lhes fosse impossível negar; em segundo, fazer com que a prisioneira tomasse ciência dos planos para liberta-la; em terceiro, e o passo mais difícil, fazer com que Mary aprovasse por escrito o assassinato. Ela certamente havia escrito cartas ao embaixador espanhol, dando seu apoio à Conspiração Throckmorton, que foram interceptadas e decodificadas por Walsingham. Pouco depois, outra possível conspiração para assassinar Elizabeth, envolvendo um dos membros de seu próprio Parlamento, William Parry, foi descoberta. Sob esse clima de tensão e suspeita, William Cecil, Lorde Tesoureiro e principal conselheiro da rainha da Inglaterra, apresentou em outubro de 1584 uma declaração na qual os signatários juravam defender a soberana e perseguir qualquer um que colocasse a vida dela em risco. As cláusulas também excluíam da sucessão do trono qualquer pretendente cujo nome estivesse envolvido em algum atentado contra a rainha – uma referência indireta a Mary Stuart. O Pacto de Associação, como o documento ficou conhecido, foi assinado por milhares de súditos do país, causando comoção em Elizabeth.

Um dos signatários do documento, porém, foi a própria Mary, que escreveu a Cecil do castelo de Tutbury em janeiro de 1585, afirmando “perante Deus e a sua honra”, que não era “uma pessoa que desejasse tentar, apoiar ou favorecer um ato tão perverso como uma tentativa contra sua pessoa ou seu reino”, e, portanto, se oferecia para assinar o Pacto. A partir de então, ela se submetia formalmente às leis inglesas, dando margem para que as mesmas futuramente fossem utilizadas contra ela. Na opinião de Antonia Fraser:

Sua patética oferta não podia encobrir o fato de que a promulgação do Pacto com a lei inglesa equivalia à elaboração de sua própria sentença de morte: era bastante difícil crer que muitos anos se passariam até que uma conspiração ou outra a favor de Mary, em detrimento de Elizabeth, seria trazida até Walsingham: uma vez que tal acusação fosse provada, passava a ser legal na Inglaterra o julgamento e execução da rainha da Escócia (FASER, 2001, p. 473).

Segundo Fraser, ninguém era mais consciente dos perigos que o Pacto de Associação traziam para Mary Stuart do que a própria Elizabeth, que, apesar de tudo, não via com bons olhos o julgamento de uma rainha coroada. Sendo assim, ela preferiu encarar o Pacto como uma ação espontânea de lealdade por parte do seu povo. Quando o Parlamento o transformou em lei, a rainha ressaltou que os descendentes daqueles beneficiados com a morte da soberana reinante não deveriam ser atingidos. Assim, ela garantia a sucessão de seu afilhado, James VI da Escócia, caso sua mãe, Mary, estivesse implicada em alguma conspiração.

Sir Francis Walsingham, atribuído a John De Critz, o Velho.

Naquele ano, a rainha da Escócia fora transferida para Chartley, um grande solar rodeado com fossos, e mantida sob a estrita vigilância do puritano Amyas Paulet, que não fazia questão de esconder sua antipatia por Mary ou seu séquito. Muitas das regalias que ela tinha enquanto estava sob custódia de George Talbot, conde de Shrewsbury, foram-lhe negadas. É de se espantar que, nesse contexto, um canal de correspondência clandestina tenha sido novamente aberto para ela, a menos que seus carcereiros soubessem exatamente o que ela pretendia fazer. Logo, cartas codificadas começaram a ser emitidas para Mary dentro de barris de cerveja. Sem conseguir resistir, ela escreveu ao embaixador francês, pedindo para que desse seguimento aos planos secretos de uma invasão estrangeira. O que ela não sabia, contudo, era que Walsingham estava lendo cada uma de suas palavras. Na opinião de Jane Dunn, “grande parte da fascinação de Mary por mensagens codificadas, segredos, conspirações e mentiras era uma expressão da necessidade de excitação de uma amante dos riscos, quando o confinamento e as restrições haviam vetado aventuras convencionais” (2004, p. 433). Em dezembro de 1585, o mestre de espionagem de Elizabeth convencera um padre católico, chamado Gilbert Gifford, a se juntar à causa da rainha inglesa como agente duplo e convencer a rainha da Escócia a se envolver numa trama para liberta-la e assassinar sua prima.

Para tanto, Giffort contou com a ajuda de um jovem cavaleiro católico, chamado Anthony Babington, defensor entusiástico de Mary Stuart desde a adolescência, que foi enganado pelo prelado e, junto com outros jovens, aceitou participar do falso complô para libertar a rainha cativa. “Jovem, imprudente e extremamente suscetível – como muitos católicos – à imagem de uma princesa inocente aprisionada por ordens de uma rainha má, Babington não tinha a mais elementar discrição”, ressalta Anka Muhlstein, autora de Elizabeth I and Mary Stuart (2007, p. 263). Usando o mesmo canal de correspondência clandestina, ele comunicou à rainha cativa, em 12 de julho de 1586, em que consistia seu esquema:

Minha excelente e grande soberana e senhora, a quem devo toda fidelidade e obediência, tenha por bem a Vossa Majestade perdoar meu longo silêncio (…). Ballard me informou do projeto preparado pelos príncipes cristãos amigos de Vossa Majestade, para libertar o nosso país do estado miserável em que se encontra (…). Se trata de organizar uma invasão, em portos de desembarque organizados com antecipação, de onde uma poderosa tropa esperará os invasores para ajuda-los. Vossa Majestade será libertada e a usurpadora será despachada, ato para o qual Vossa Majestade pode confiar em mim. Juro por Deus Todo Poderoso, que tem milagrosamente protegido Vossa Real Pessoa para o bem de todos, que o que digo será executado, ou perderemos nossa alegria e nossa vida nessa empresa (…). Por ser o menor atraso extremamente perigoso, eu suplico à sabedoria de Vossa Majestade que nos aconselhe a levar adiante essa operação (…). Eu mesmo, com dez gentis-homens e cem companheiros, me ocuparei da libertação de Vossa Real Pessoa de seus inimigos. Para despachar a usurpadora, a respeito de quem a excomunhão nos liberou de toda obediência, seis nobres gentis-homens dentre os meus amigos se ocuparão da execução, pelo céu e pela a causa do catolicismo e de Vossa Majestade. Desejo que, em mérito de seu ato heroico, sejam recompensados honradamente caso sobrevivam, ou em outro caso seus filhos. O muito fiel e devotado servidor de Vossa Majestade, Anthony Babington (apud DUCHEIN, 1991, p. 345).

Para o paciente Walsingham, essa carta foi uma verdadeira dádiva. Afim de que sua trama lograsse êxito, apenas mais um passo tinha que ser levado adiante: Mary precisava se incriminar por meio de uma resposta escrita. E esta não tardou em aparecer. Numa longa carta, ela aceitava todos os termo no plano, assegurando “tudo que se exigirá de minha parte para toda a realização de suas boas intenções” (apud DUNN, 2004, p. 437). Caso o esquema malograsse e ela fosse levada à Torre, ela ressaltou, pediria então a Deus para que Babington perseverasse na sua missão. Finalmente, Walsingham havia dado o xeque-mate na rainha.

Possível retrato de Anthony Babington, por artista desconhecido.

Assim que tomou conhecimento do envolvimento de sua prima nesta trama, Elizabeth I ordenou que todos os conspiradores fossem presos imediatamente. Sinos repicaram por toda Londres, agradecendo pela vida da rainha, enquanto fogueiras comemorativas eram acesas. De sua parte, Mary permanecia ignorante de toda essa situação. Confiante de que logo seria liberta e instalada no trono de Inglaterra, ela aceitou o convite de Paulet para cavalgar pelos bosques de Chartley, comemorando silenciosamente seus últimos dias de cativeiro. Foi quando avistou de longe um grupo de estranhos cavalgando na sua direção. Poderiam ser Babington e seus companheiros? Em vez disso, ela foi cercada pelos emissários de Elizabeth, com uma ordem de prisão por crime de alta traição. Levada para o solar vizinho de Tixall, todos os seus objetos em Chartley foram confiscados e ali se descobriu várias cartas incriminatórias, “cerca de 60 Índices ou Tabelas de Cifras e Caracteres privados”, incluindo algumas cartas de nobres ingleses jurando lealdade à rainha da Escócia. Sem dúvidas, os dias de cativeiro de Mary Stuart estavam finalmente prestes a terminar. Porém, não da forma como ela havia desejado. Agora, um tumultuado processo estava prestes a ser conduzido na Inglaterra, no qual o destino de uma monarca de direito divino seria decidido.

Referências Bibliográficas:

DUCHEIN, Michel. Maria Estuardo. Traducción de César Aira. Buenos Aires, Argentina: Emecé Editores, 1991.

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FRASER, Antonia. Mary queen of Scots. New York: Delta, 2001.

HAHN, Emily. Mary queen of Scots. New York: Random House, 1953.

HENRY-BORDEAUX, Paule. Maria Estuardo. Traducción de Ramon Lamoneda Izquierdo. México, D.F.: Biografias Gandesa, 1957.

MHLSTEIN, Anka. Elizabeth I and Mary Stuart: the perils of marriage. Translated by John Brownjohn. Great Britain: Haus Publishing, 2007.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. Tradução de Alice Ogando. 12ª ed. Porto, Portugal: Livraria Civilização Editora, 1969.

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