A primeira rainha reinante de Portugal: biografia aborda a trajetória de D. Maria I, a soberana rotulada como “a louca”!

DEL PRIORE, Mary. D. Maria I: as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”. São Paulo: Benvirá, 2019.

Das soberanas mais icônicas da história da Europa, Dona Maria I de Bragança merece sem dúvidas um lugar de destaque. Não apenas por ter sido a primeira rainha reinante de Portugal, como também pelas marcas profundas que deixou na administração do vasto império luso. Infelizmente, a história se lembraria dela principalmente como “a louca”, epíteto esse que foi reforçado pela literatura e pela ficção, maculando assim a imagem de uma mulher que deixou traços indeléveis na monarquia daquele país. Filha do rei D. José I, Maria ascendeu ao trono numa época marcada pelos avanços das ideias iluministas, que criticavam o poder absoluto dos reis e eram consumidas por uma burguesia ávida por maior participação política. Mas, se por um lado o iluminismo insuflou as chamas da maior revolução da história, por outro alguns de seus pensadores, entre eles Rousseau, não estavam plenamente de acordo com o possibilidade de uma mulher conseguir governar um país sem a tutela de um homem. Maria nasceu nesse universo marcado pelo embate entre razão e religião, pecado e salvação, sacudido pelos ventos da reforma política que partiam dos quatro cantos do continente. Essa gama de contrastes, por sua vez, empresta o tom para a construção narrativa da mais nova biografia da soberana, escrita pela historiadora Mary Del Priore.

Mary Del Priore

Autora de mais de 50 livros sobre história do Brasil, história das mulheres, estudos de gênero e sexualidade, e vencedora de diversos prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Jabuti, Mary Del Priore possui na sua bagagem extensa bibliografia de alguns dos mais célebres personagens que marcaram o período imperial. Numa de suas biografias mais famosas, ela conta a vida de Luísa Margarida Portugal e Barros, a famosa condessa de Barral (Objetiva, 2008), governanta das princesas Isabel e Leopoldina e possível amante do último imperador do Brasil, D. Pedro II. Entre outras obras, podemos destacar também “A Carne e o Sangue” (Rocco, 2012), livro que aborda um dos triângulos amorosos mais famosos da história do Brasil, protagonizado pela imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro e Domitila de Castro, a marquesa de Santos. Seu hall de biografias inclui também “O Príncipe Maldito” (Objetiva, 2007), “O Castelo de Papel” (Rocco, 2013) e, mais recentemente, “As vidas de José Bonifácio” (Estação Brasil, 2019), sobre o patriarca da nossa independência. Aliando pesquisa documental com um estilo de escrita bastante literário, Del Priore constrói assim uma narrativa fluida e gostosa de se ler, acessível a públicos diversificados, interessados em consumir uma boa história. É o caso, por exemplo, de “D. Maria I: as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história de Portugal como ‘a louca’”, publicada neste ano pela editora Benvirá.

Com mais de 200 páginas, distribuídas em 9 capítulos, a nova biografia da primeira rainha portuguesa apresenta pontos de vista bastante desviantes da visão tradicional que temos sobre D. Maria, lançando luz e entendimento sobre as circunstâncias que a fizeram ficar conhecida como “louca”. A edição da Benvirá está com uma ótima diagramação, deixando a experiência de leitura mais confortável. Na capa, a reprodução do clássico retrato da soberana, pintado por Giuseppe Troni, quando ela já estava na casa dos 40. A modelo apresenta um porte altivo e expressão de austeridade no rosto, bem diferente da figura da monarca insana que ainda povoa o imaginário popular. Contrariando essa visão tradicional, Mary Del Priore enfatiza o pragmatismo da rainha em tempos de profundas transformações, ao procurar um ponto de equilíbrio entre as mudanças introduzidas pelo marquês de Pombal e o ideal absolutista. A autora acrescenta que “Portugal precisava de uma transição entre o reformismo pombalino e a monarquia absolutista, um compromisso entre o poder régio e a comunidade. Maria representaria a mão que se estenderia entre um e outro” (2019, p. 73). Tendo sido a 26ª monarca da Lusitância, Del Priore enfatiza que o começo do seu reinado foi marcado pela brandura e atenção aos mais desfavorecidos.

Para escrever sobre a vida de D. Maria I, a autora fez uma extensa pesquisa em fontes bibliográficas e no que de mais recente havia sido publicado sobre a soberana, para compor um painel da vida cotidiana em Portugal, no meado do século XVIII. Festas religiosas, devoção, apego a relíquias e imagens sagradas são alguns dos tons que matizam o cenário em meio ao qual a soberana nasceu. Um mundo de contrastes que buscava a redenção pela expiação dos pecados, mas que não renegava os prazeres da carne. Apesar de lhe faltar a opulência de Versalhes, a corte portuguesa personificava como poucas o espírito do barroco. Em meio a procissões, nas quais andava descalça junto ao povo, a rainha compartilhava com seus súditos a devoção religiosa, criando para com eles um elo que nem mesmo a distância entre dois continentes foi capaz de romper. É nesse aspecto que, a meu ver, reside a maior qualidade da obra: a vida da soberana é apenas o ponto de partida para construção de um esboço bem mais amplo da história social da Portugal setecentista. Como as pessoas se vestiam, o que comiam, quais músicas escutavam ou quais os livros costumavam ler são apenas alguns dos detalhes observados pela autora afim de transmitir para o leitor um gostinho daquele período, de sua gente, deixando assim o contato com o passado mais saboroso e menos cansativo.

Dona Maria I, rainha de Portugal, por José Leandro de Carvalho (Museu Histórico Nacional, 1808).

Para além desses detalhes, sobressia-se a maneira delicada com que Mary Del Priore descreve a sua biografada e a análise cuidadosa das circunstância que contribuiriam para o quadro de desequilíbrio mental apresentado por ela quando em idade mais avançada. D. Maria ascendeu ao trono de Portugal numa época em que o governo feminino já não era algo inédito no contexto europeu, muito embora alguns filósofos do iluminismo defendessem que a educação doméstica era a mais adequada para as mulheres. No século XVIII, soberanas como Maria Teresa da Áustria e Catarina II da Rússia eram a prova viva de que seu sexo não era incompatível com a política. Não obstante, a história portuguesa já havia tido bons exemplos de soberanas que reinaram na qualidade de regentes, como D. Catarina da Áustra e que foram tão, ou mesmo mais competentes do que muitos reis. Contudo, uma mulher governando em seu próprio nome ainda era novidade para o país. No caso de D. Maria, contou ao seu favor o fato de ser casada com o tio, D. Pedro III, de modo que a administração do reino seria partilhada entre o casal, apesar das tentativas do marquês de Pombal para alterar as leis de sucessão e passar a coroa diretamente para o filho da presuntiva herdeira, D. José, após a morte do rei.

Sendo assim, não espanta que uma das primeiras atitudes de Maria enquanto rainha reinante de Portugal tenha sido acatar a demissão do ministro de seu pai. Mary Del Priore esclarece que esse período, denominado Viradeira, foi uma reação às políticas pombalinas, que beneficiou muitos setores da antiga aristocracia prejudicada no reinado anterior, como foi o caso dos Távora, cujos principais representantes foram brutalmente assassinados por ordens da coroa em decorrência do relacionamento extraconjugal entre o rei D. José e uma de seus membros. Segundo Del Priore:

Maria teve que construir uma figura de rainha e mulher. Ficara para trás a consorte real que era apenas esposa do rei, sem poder e agindo através de terceiros. Ela era a senhora com as rédeas do reino. Apoiou-se na imagem de esposa e mãe piedosa, retrato da fé cristã e provedora de caridade infinita. Como detentora do poder que “Deus lhe atribuiu”, uniu sua imagem à de outra Maria: a da Mãe amantíssima de Jesus. Na administração do Estado, fé e caridade se conjugariam com razão (2019, p. 74).

Embora não tenha desfrutado do mesmo status que uma Maria Teresa da Áustria ou uma Catarina II da Rússia, D. Maria I de Portugal foi bastante querida pelos seus súditos e empregou ao máximo a boa educação que recebeu na condução dos negócios de Estado, até que uma sucessão de perdas familiares, aliado aos abalos da Revolução Francesa, colaborou para desestruturar sua vida pessoal e política.

Para se entender o que aconteceu com a rainha portuguesa entre o final da década de 1780 e o início da seguinte é preciso levar em consideração, primeiramente, as mortes que D. Maria pranteou em um prazo muito curto: primeiro a de seu marido, o rei D. Pedro III, em 1786, depois a de seu filho herdeiro, D. José, em 1788 e a da filha D. Mariana Vitória no mesmo ano. Em seguida, estourou na França, no dia 14 de julho de 1789, uma revolução liberal cujas chamas se arrastariam pelos quatro cantos do mundo, ameaçando a autoridade dos reis, que até então se julgavam divinos. A rainha começou então a comer e a falar de menos, a participar cada vez mais de procissões religiosas, acreditando nas palavras de seu confessor de que tudo aquilo estava lhe acontecendo por castigo de Deus. A tristeza então logo tomou conta de seu semblante, afastando-a da política e fazendo com que ficasse mais e mais retida num mundo do qual apenas os padres tinham a chave de acesso. Para Mary Del Priore, o que foi tratado no período como loucura, seria hoje facilmente classificado como depressão. Mas os médicos da época, acreditando ver na soberana indícios de loucura, aplicaram-lhe tratamentos tão violentos que certamente contribuíram para agravar sua situação. A ignorância e crença na debilidade fisiológica da mulher também fizeram a sua parte para que a bem-amada ficasse irremediavelmente conhecida como “a louca”.

Capa de “D. Maria I”, publicado em 2019 pela editora Benvirá.

As últimas páginas da obra de Mary Del Priore são dedicadas à vida da rainha na América. Um detalhe que muitos desconhecem é que D. Maria foi a primeira soberana europeia a pisar em solo americano. Del Priore estabelece então um quadro comparativo entre a sociedade do Rio de Janeiro no início do século XIX, com aquela que a família real deixava para trás, ao abandonar Lisboa à mercê das tropas de Napoleão, para realçar as cores e a vivacidade da corte estabelecida abaixo dos trópicos. A jornada, tão bem narrada pela historiadora no seu melhor estilo literário, termina então na corte carioca no dia 20 de março de 1816, quando o dobre dos sinos anunciou a morte da rainha aos 81 anos, três meses e três dias de vida. Sendo assim, “D. Maria I: as perdas e as glórias da rinha que entrou para a história como ‘a louca’” é um livro interessantíssimo, não apenas por contar com clareza e bom humor os principais eventos que sacudiram o velho e o novo mundo no último quartel do século XVIII, mas, principalmente, por apresentar para nós, leitores, uma soberana bastante diversa da versão tradicional com a qual estamos mais acostumados. Através das páginas da obra de Del Priore, conhecemos a Maria mulher, personagem de carne e osso, mãe zelosa e esposa apaixonada, e não a caricatura insana que os séculos fariam de sua imagem.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História –UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

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