“Que comam brioches”: cinco Fake News que destruíram a reputação de Maria Antonieta!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Não é de hoje que notícias falsas circulam pelos meios de comunicação, trazendo para a população informações equivocadas e, muitas vezes, mal intencionadas. Desde o surgimento da imprensa tipográfica que as chamadas Fake News escandalizavam os leitores com seus panfletos de conteúdo debochado e carregados de críticas ao governo, bem como aos seus representantes. Na França pré e pós Revolução, esse material era produzido em larga escala, com o objetivo de minar a imagem da monarquia através de um ataque virulento à vida privada da família real. O alvo predileto dos satiristas, porém, era ninguém menos que Maria Antonieta, cuja imagem era explorada de modo a responsabiliza-la por toda a situação de miséria que os franceses viviam naqueles anos difíceis, marcados por escassez de alimentos e altos impostos. Embora tenha tentado ignorar esse tipo de propaganda, a reputação da esposa de Luís XVI foi quase completamente destruída, comprometendo assim a imagem do próprio rei e do regime monárquico. Panfletos intitulados como “A escandalosa vida de Maria Antonieta”, onde ela era apontada como adúltera, lésbica, traidora e gastadeira, certamente venderam muito mais do que brioches, provocando o riso e a ira de um público de leitores cansados de tanta exploração. A seguir, selecionamos cinco Fake News que arruinaram a imagem da última rainha da França.

1) “A outra cadela”

Ilustração de cunho satírico onde Maria Antonieta aparece como a “avestruz austríaca”.

Ao chegar à Versalhes, em 1770, a então Madame La Dauphine foi alvo de intenso preconceito, gerado por conta de sua nacionalidade germânica. Há muito que a França e o Sacro-Império eram rivais, inimizade essa que se acentuou depois da guerra de sucessão espanhola (1701 a 1714). Uma reviravolta na diplomacia europeia, contudo, colocou esses dois reinos como aliados contra a Inglaterra. Para selar essa união, organizou-se o matrimônio entre a arquiduquesa Maria Antônia e o delfim Luís Augusto. Os preceptores do príncipe, porém, não viam com bons olhos aquele casamento e trataram de infundir no jovem uma série de receios para com sua futura esposa. As tias dele, Madame Adelaide e Madame Sofia, por sua vez, espalharam para toda a corte boatos de que a filha da imperatriz Maria Tereza era na verdade uma espiã, cuja principal missão seria enviar para a Áustria os segredos políticos da França. Dessa forma, a xenofobia fez da nova delfina o assunto preferido entre os círculos de fofocas e intrigas. Chamavam-na pejorativamente de “a austríaca”, do francês l’autrichienne. O título funcionava como um jogo ortográfico que poderia ter mais de um sentido: se dividirmos a palavra, l’autre chienne pode ser traduzido como “a outra cadela”, como também “avestruz” (l’autruche). Assim foi criado o primeiro dos muitos rótulos que marcariam a vida de Maria Antonieta na França, bem como a crença equivocada de que ela era uma agente trabalhando a serviço do imperador.

2) Madame Déficit

Vivendo isolada numa corte estrangeira, com um marido indiferente e cercada de fofoqueiros, Maria Antonieta encontrou no consumo uma fuga para todos os seus problemas, especialmente a não-consumação do casamento real. Ao lado do cabeleireiro Lèonard e da modista Rose Bertin, ela criou um verdadeiro “ministério da moda”, responsável por lançar as últimas tendências em matéria de trajes e adereços. Enquanto a maioria da população sofria com um rigoroso inverno, diz-se que o guarda-roupas da rainha ocupava três quartos do palácio de Versalhes. Além disso, ela dispensou somas altíssimas na aquisição de novas propriedades, como Saint-Cloude, e na reforma do Petit Trianon, que passou a incluir uma vila campestre, cuja fachada exterior imitava a arquitetura singela das habitações camponesas. Luís XVI estimulava tais extravagâncias da esposa, na expectativa de que suas atenções se mantivessem distantes da política. Conforme os impostos iam subindo e as dívidas do país também, o estilo de vida dispendioso da rainha zombava das dificuldades que o terceiro estado passava para manter a nobreza palaciana. Foi desse jeito que nasceu outro dos rótulos aplicados à imagem da soberana: Madame Déficit. Mas seriam os gatos de Maria Antonieta tão elevados assim? Conforme os registros de contabilidade nos mostram, as despesas da rainha não representavam nem sequer 1/6 das rendas do Estado, que foram quase todas consumidas em conflitos bélicos, como a guerra dos 7 anos e a guerra de independência dos Estados Unidos.

3) “Que Comam Brioches”

Após se tornar mãe, em 1778, Maria Antonieta amadureceu e, aos poucos, foi abandonado as festas e os gastos desnecessários, passando a se vestir de forma mais sóbria e menos ostensiva. A imagem de uma rainha indiferente aos sofrimentos dos pobres, que esbanjava o dinheiro público em detrimento de uma população carente, porém, já havia se tornado um símbolo da decadência da monarquia Bourbon. A imprensa viu nisso uma oportunidade perfeita para inventar uma série de situações constrangedoras, envolvendo a rainha e outros membros da nobreza como protagonistas de orgias regadas a vinho tinto e champanhe. A mais famosa delas diz respeito a uma frase que Antonieta teria proferido após saber que a população não tinha pão para saciar a fome: “pois, que comam brioche”. Entretanto, o bordão já era empregado a princesas estrangeiras pelos menos cem anos antes de Maria Antonieta chegar na França. Primeiro com Maria Teresa, esposa de Luís XIV, apareceu novamente nos lábios de uma das irmãs do delfim Luís de Bourbon. Por fim, foi incluída no livro “Confissões”, de Jean-Jacques Rousseau, publicado pela primeira vez em 1782. Além disso, é consenso entre os historiadores que a soberana jamais disse essas palavras. Na opinião de Antonia Fraser, “seria muito mais provável que a filantrópica Maria Antonieta, fora dos padrões da época, jogasse impulsivamente seu próprio brioche ao povo faminto à sua frente (2009, p. 14). Porém, como clichê jornalístico, grudou na figura da rainha de tal forma, que até hoje muitos acreditam ser ela a autora de tamanha infâmia.

4) O Caso do Colar de Diamantes

A mais famosa de todas as Fake News divulgadas contra Maria Antonieta foi também a responsável pela ruína de sua reputação como rainha e “mãe da França”, que ela vinha cuidadosamente trabalhando para construir desde o nascimento de Maria Tereza Carlota. O “caso do colar de diamantes”, como assim ficou conhecido, foi uma trama envolvendo um membro da nobreza, a condessa de Jeanne La Motte, um membro do alto clero, o cardeal de Rohan, e uma das joias mais magnificas já criadas naquele tempo. Sugestivamente batizado com o nome de “o colar do escravo”, a peça era composta de 647 diamantes e pesava 2.800 quilates. Foi primeiro oferecida a Madame Du Barry, amante de Luís XV, e depois à rainha, que declinou da oferta em mais de uma ocasião. Em 1785, o colar foi novamente motivo de assunto, uma vez que Rohan afirmava tê-lo comprado em nome de “Maria Antonieta da França”. Na verdade, o cardeal havia sido alvo de uma trapaça arquitetada pela condessa, que se fez passar por amiga íntima da rainha para conseguir a confiança de Rohan e induzi-lo a ser o fiador da compra do colar. Após tomar posse dos diamantes, Jeanne de La Motte vendeu as pedras separadamente na Inglaterra e em outros países. Enfurecida, a rainha exigiu um julgamento público do caso. O parlamento inocentou Rohan, mas condenou a condessa a ser chicoteada e marcada com ferro em brasa. A opinião popular, porém, responsabilizou Maria Antonieta pela situação, afirmando que tanto o cardeal quanto Jeanne foram vítimas de suas artimanhas.

5) “A Escandalosa Vida de Maria Antonieta”

Panfleto intitulado “A vida de Maria Antonieta da Áustria, rainha da França”, que apresentava os escândalos sexuais supostamente protagonizados pela esposa de Luís XVI.

Enquanto a condessa e o cardeal eram julgados, nas ruas de Paris um panfleto circulava em larga escala pelas mãos dos transeuntes. Intitulado “A Escandalosa Vida de Maria Antonieta”, apresentava a rainha como uma mulher adúltera, cujos instintos lascivos precisavam ser aplacados com homens e mulheres. O texto apontava os príncipes de Condé e Conty como amantes da rainha, assim como seu cunhado, o conde de Artois. A princesa de Lamballe e a duquesa de Polignac também eram apontadas como parceiras de cama da soberana. Esse documento foi extremamente prejudicial para a imagem da monarquia, pois questionava a legitimidade dos herdeiros do trono e lançava dúvidas quanto à virilidade do rei. A situação piorou quando Jeanne de La Motte publicou suas Memórias, acusando Maria Antonieta como responsável pela compra do colar de diamantes e dizendo que havia um relacionamento lésbico entre as duas. O ataque à sexualidade da rainha continuou através de uma série de ilustrações pornográficas, nas quais ela aparecia como líder de diversas orgias ocorridas no Palácio de Versalhes. Sua reputação enquanto mulher, mãe e rainha foi, assim, irremediavelmente destruída, trazendo consigo desastres políticos para o governo de Luís XVI, que culminaram com a Revolução de 1789.

Bibliografia:

CAMPAN, Madame. A Camareira de Maria Antonieta: Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2008.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

PRICE, Munro. A queda da monarquia francesa. Rio de Janeiro: Record, 2007.

TOURZEL, Duquesa de. Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2014.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

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3 comentários sobre ““Que comam brioches”: cinco Fake News que destruíram a reputação de Maria Antonieta!

  1. Atenção, Maria Antonieta não era de nacionalidade germânica e sim austrìaca, lembra? ela era filha caçula de Maria Theresia, a Grande Imperatriz do poderoso Império da Austria. rsrsrs

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    • Ela era filha de Francisco I do Sacro Império Romano-Germânico, e da imperatriz Maria Teresa da Áustria, então sim, ela era Germânica e Austríaca. Quando avô dela o Imperador Carlos VI do Sacro Império Romano-Germânico faleceu, a mãe dela não pode ascender como Imperadora, então foi dado ao pai dela um simples Duque de Lorena o título de imperador e a mãe como Consorte, mas devido algumas disputas politicas ela conseguiu elevar o Arquiducado da Áustria a Império e ela se tornando Imperatriz.

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