A Favorita: filme aborda as disputas sexuais pelo poder, no reinado de Ana da Grã-Bretanha

No Antigo Regime, cortesãs e favoritas eram algumas das figuras mais interessantes e controversas entre todas. Assim como reis e rainhas, elas brilharam no palco político do período, caminhando elegantemente por salões e galerias e articulando golpes contra seus inimigos. Algumas exerceram um papel tão proeminente, que, até mesmo, ofuscaram aqueles de cujo corpo emanava toda a fonte de seu poder: o soberano. Sem dúvidas, Sarah Churchill, duquesa de Marlborough, que viveu entre os anos de 1660 e 1774 e esteve no centro de alguns dos acontecimentos mais marcantes da história inglesa, foi uma dessas personalidades notáveis. Perto dela, sua amiga, a rainha Ana da Grã-Bretanha, permanecia uma figura pouco atraente e sempre ofuscada pelo brilho da favorita. O relacionamento entre as duas foi tema do recente filme dirigido por Yorgos Lanthimos, que traz na bagagem estrelas de peso, como Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone. Com duas horas de duração, o longa retrata de forma caricata o círculo vicioso que se instaurou no palácio real após a Revolução Gloriosa, tendo a última monarca da dinastia Stuart e sua amiga de infância protagonizando um triângulo amoroso lésbico que, certamente, chocou os mais fieis admiradores da realeza.

Rachel Weisz como Sarah Churchill, duquesa de Marlborough.

Lançado no dia 26 de dezembro de 2018, “A Favorita” logo se tornou um sucesso de crítica, tendo acumulando nada menos que dez indicações ao Oscar 2019, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos, Melhor Atriz para Olivia Colman e Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz e Emma Stone. Poucos dramas históricos conseguiram um desempenho tão bom em tão poucos dias de lançamento. Nem mesmo o aguardado “Mary Queen of Scots” conseguiu supera-lo. Com roteiro original assinado por Deborah Davis, o longa-metragem funciona como uma espécie de alegoria do reinado de Ana da Grã-Bretanha, semelhante ao que a brasileira Carla Camurati fizera em 1995, com “Carlota Joaquina”. Apesar dos muitos erros de imprecisão históricas, dos quais o relacionamento lésbico entre a rainha e Sarah Churchill é o mais singular, o filme cumpre bem o seu papel ao apresentar o círculo vicioso que se afixou na corte dos Stuart após a restauração. Jogos de azar, sadismo, decadência e uma nobreza parasitária são alguns dos elementos que compõe o cenário da trama. No centro, uma rainha psicologicamente perturbada pela perda de 17 filhos e emocionalmente dependente da companhia feminina. Na periferia, duas mulheres disputando pela atenção e o afeto da soberana e pelo controle do reino da Inglaterra.

“A Favorita” apresenta uma narrativa truncada, em cujas partes observamos o jogo de interesses envolvendo o parlamento, representado por Edward Harley e Sidney Godolphin (Nicholas Hoult e James Smith, respectivamente) e a governanta da casa da rainha, Sarah Churchill, duquesa de Marlborough. A atuação de Rachel Weisz no papel de Sarah é simplesmente impecável. Em todas as cenas em que aparece, sua personagem domina o ambiente com gestos imperiosos e réplicas tão ferinas quanto seu caráter. Seja quando está cavalgando ou praticando tiro ao alvo, ela é a dona da situação e parece perfeitamente confortável nisso. É quase como se ela fosse a rainha de fato. O abuso do preto no figurino da atriz reforça ainda mais a sua áurea de sobriedade e autoridade. Sarah é a mão direita de Ana. O cetro com o qual ela governa a Inglaterra e, ao mesmo tempo, se deixa governar. Ninguém chega à rainha sem antes passar pelo crivo da duquesa, que a mantém afastada dos políticos e de sua corte o máximo que consegue. Enquanto isso, é a própria lady Marlborough quem se reúne com embaixadores e ministros, quem controla os gastos da casa real e lida com a criadagem. Foi como criada que se apresentou sua prima recém-chegada do interior, Abigail, interpretada pela vencedora do Oscar, Emma Stone.

Do momento em que chega ao palácio, Abigail estuda meticulosamente o comportamento de Sarah, cada um dos seus gestos e falas. Secretamente, ambiciona não só o papel de favorita, como também tudo o que pertence à prima rica e bem relacionada.

Numa primeira análise, Abigail parece ser a personagem principal, uma vez que o filme apresenta sua trajetória desde as raízes humildes como empregada de cozinha até substituir lady Sarah no afeto da rainha e no cargo de mulher mais influente na corte. Descrevendo-a nesses termos, poderíamos dizer que se trata de uma cinderela do início do século XVIII, não fosse sua índole ambiciosa e trapaceira. Do momento em que chega ao palácio, Abigail estuda meticulosamente o comportamento de Sarah, cada um dos seus gestos e falas. Secretamente, ambiciona não só o papel de favorita, como também tudo o que pertence à prima rica e bem relacionada. A descoberta de um segredo, porém, coloca a ascensão social ao alcance de Abigail: a duquesa mantém sua ascensão sob a soberana mediante a concessão de favores sexuais. Não demorou muito e a própria Abigail substituiu a duquesa na cama da rainha. Assim como Rachel Weisz, Emma Stone desempenhou o papel da prima pobre e interesseira de forma excepcional. É notável também o contraste que existe na apresentação das personagens: uma morena, a outra loira; enquanto Sarah abusa do preto, Abigail, antes uma extensão da aparência da duquesa, uma vez no poder, passa a usar o branco. A primeira coloca os interesses da Inglaterra na frente dos seus, ao passo que a segunda só pensa em si.

Com efeito, no meio da disputa entre essas duas mulheres, encontra-se uma soberana triste e com um profundo vazio existencial. Olivia Colman interpreta com maestria uma rainha atrapalhada e bastante desconfortável no exercício da realeza. Em alguns momentos, chega a ser bastante cômica, não fosse o peso da tragédia que a personagem carrega a todo momento. Ana vive uma existência carente, sem amigos de verdade ou família a quem se amparar. A pessoa mais próxima de si é Sarah, que abusa de sua confiança e a trata como se fosse uma criança. Em algumas cenas, Ana chega a se comportar exatamente como uma, exigindo a atenção da favorita e o seu carinho. Da coroa, ela quer apenas a parte divertida, deixando a difícil tarefa de governar, involuntariamente, nas mãos da duquesa. Em seu íntimo, porém, ela sofre constantemente a perda de seus 17 filhos, transferindo o desejo da maternidade para os coelhos de estimação que mantém consigo. Sua perna gotosa a impede de dançar, uma atividade à qual ela se entregara com fervor na juventude, restando-lhe apenas o consolo (ou o tormento?) de ver os seus cortesãos se divertindo ao som da música. Colman conseguiu de forma sublime transparecer para o expectador toda a agonia da soberana, seu desespero por habitar um corpo doente e, acima de tudo, a necessidade de ser amada por quem é e não pelo que tem.

A duquesa é uma mulher bonita e atraente, enquanto a rainha se maquia com exagero para disfarçar os sinais da idade e da doença. Ana não pode cavalgar sem o auxílio de uma vestimenta especial, enquanto para Sarah as patas do cavalo são como uma extensão de seu próprio corpo.

Na outra mão, temos Sarah, que também é objeto da inveja e do ciúme da rainha. A duquesa é uma mulher bonita e atraente, enquanto a rainha se maquia com exagero para disfarçar os sinais da idade e da doença. A favorita dança com a graça de uma corça, enquanto sua amante é obrigada a assisti-la sentada numa cadeira de rodas. Ana não pode cavalgar sem o auxílio de uma vestimenta especial, enquanto para Sarah as patas do cavalo são como uma extensão de seu próprio corpo. Mais importante: a duquesa possuí pragmatismo político e governa a todos como se fosse a própria soberana, enquanto a rainha de fato não possuí a menor inclinação para os assuntos de Estado. O ponto de virada na trama se dá justamente quando Abigail convence Ana de que a figura de Lady Marlborough não é tão indispensável como até então ela achava que fosse. Aos poucos, a monarca começa a se emancipar da tutela da favorita e a reclamar nas próprias mãos as rédeas do poder, tomando decisões sem consultar Sarah e afastando-a paulatinamente da sua companhia. A estrela da duquesa decai na mesma proporção em que os status de Abigail se eleva. Antes uma simples empregada, ela se casa dentro da nobreza e se torna a nova favorita, eliminando definitivamente a prima do jogo político e de seu lugar junto à rainha.

O desfecho de “A Favorita” levanta margens para muitas interpretações. Teria Abigail vencido a disputa com Sarah, ou sido derrotada por sua própria ambição? Pois enquanto a duquesa era admirada por sua classe e detestada por seu autoritarismo, Abigail não possuí metade da capacidade da prima para controlar a casa real, esbanjando dinheiro em orgias palacianas regadas a muita bebida alcoólica. Fazendo uma análise bem superficial, o filme parece não avançar muito além da mera briguinha de amigas e rivais por poder e prestigio. O que contradiz essa interpretação é o fato de observarmos ali todo o drama de uma mulher que cresceu afastada da coroa e que, por um acaso do destino, foi parar no centro da disputa política da Inglaterra pós-restauração. Com uma fotografia esplêndida e um figurino arrebatador, “A Favorita” se constitui em um prato cheio para os olhos, do início ao término. No final, fica evidente que tanto Sarah quanto Abigail não passavam de meros instrumentos que a rainha usava para se distrair, tais como seus coelhos na gaiola dourada. Quando um morre, ela o substitui por outro, e assim a roda das afetividades da soberana segue seu percurso, até o dia em que um de seus raios se partir e a roda parar de girar.

Confira abaixo o trailer de “A Favorita” (2018):

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

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