Os 10 maiores tumultos protagonizados por rainhas, ao longo da história

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Escândalos privados, ostentação com o dinheiro público, despotismo, traições, conspirações e intrigas foram algumas das causas que levaram os regimes absolutistas a serem derrubados ao redor do mundo. Algumas histórias, entretanto, se mantiveram bastante acesas no imaginário popular e são continuamente atualizadas, diminuídas ou exageradas, conforme as intenções do narrador e do tempo presente. Muitos desses casos, inclusive, foram temas para romances, filmes e peças de teatro, quase sempre protagonizados pelo elemento feminino. Nesse caso, as rainhas. Produções como “La Reine Margot” (1994), “Marie Antoinette” (2006) e “The Other Boleyn Girl” (2008), renderam muito dinheiro para os cofres de Hollywood, ao explorar a tumultuosa vida de algumas soberanas de forma bastante estereotipada e algo depreciativa. A propaganda de cunho sexual e pornográfico também agiu para destruir as imagens dessas mulheres e minar a credibilidade da instituição monárquica. Aqui, a misoginia e a xenofobia agiram como fatores determinantes para transforma-las em bodes expiatórios para os atos arbitrários dos governos de seus maridos e/ou filhos, reservando-lhes o peso de uma culpa que era, muitas vezes, imerecida. Abaixo, listamos as 10 maiores querelas envolvendo o nome de algumas das rainhas mais famosas da história.

1. IRENE DE ATENAS, IMPERATRIZ DE BIZÂNCIO, TERIA ARRANCADO OS OLHOS DO PRÓPRIO FILHO PARA ASSUMIR O TRONO

Irene de Atenas foi a consorte de Leão IV, o Cazar, soberano do Império Bizantino entre os anos de 775 e 780. Após a morte do marido, Irene assumiu o governo na qualidade de regente, durante a minoridade de seu filho. Tendo se aferrado bastante ao poder, Irene se recusou a passar a coroa para Constantino VI, que tentou organizar um golpe contra a própria mãe. A despeito das divergências, houve uma breve reconciliação entre eles, que culminou com um governo conjunto e o reconhecimento do título de imperatriz para Irene por parte de Constantino. A situação se agravou novamente quando, em 786, o imperador se divorciou da esposa, Maria de Âmnia, com quem não tivera filhos, para se casar com sua amante, Teódota. A opinião popular julgou negativamente a atitude do monarca e sua mãe tentou afasta-lo do governo, resultando disso uma revolta militar. Tendo sido derrotado ao final, Constantino foi aprisionado por Irene, que teria ordenado o vazamento dos olhos do próprio filho como punição por seus atos. De acordo com os registros, Constantino VI teria morrido dias depois, em decorrência dos ferimentos. Irene de Atenas governou o Império Bizantino até sua morte, em 803.

2. RAINHA ISABELA DA INGLATERRA, A LOBA DA FRANÇA

Isabela governou a Inglaterra de 1308 a 1327, primeiro ao lado de seu marido, o rei Eduardo II, e depois com seu novo amante. Durante o governo de Eduardo, ela foi bastante negligenciada pelo marido, em detrimento dos favoritos do rei,especialmente Hugh Despenser, a quem Isabela odiava. Então, quando foi enviada à França para negociar a paz, ela deu um ultimato ao marido: ou ele se livrava de Despenser, ou ela permaneceria no continente. Eduardo, porém, se recusou a exilá-lo. Isabela então ficou na França, onde assumiu um relacionamento com Roger Mortimer. Mortimer e Isabela inventaram com sucesso um plano para derrubar Eduardo e ele foi forçado a abdicar. Dizem que o rei foi morto no castelo de Berkley, após a introdução de um ferro em brasa no seu anos, por causa das acusações de sodomia que pairavam contra o soberano, Isabela e seu amante governaram a Inglaterra até a maioridade de seu filho com Eduardo, Eduardo III.

3. ANA BOLENA E O CISMA DA IGREJA NA INGLATERRA

Sem dúvidas, Ana Bolena poderia ganhar o primeiro lugar no posto de rainha mais controversa da história inglesa, equiparável a Maria Antonieta na França. Nenhuma personalidade reúne, como ela, tanto mistério e um numero gritante de informações equivocadas. A falácia mais popular é a de que teira sido o pivô da anulação do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão e da separação entre a igreja da Inglaterra e o Vaticano. Nascida possivelmente em 1501, Ana teve uma educação bastante refinada nas cortes de Bruxelas e da França e chamava muito a atenção dos seus conterrâneo pelos seus modos coquetes e aparência exótica. Em 1527, tornou-se público o envolvimento de Henrique com ela e o seguinte interesse do rei em anular seu primeiro matrimônio, decido a ausência de herdeiros varões. O processo culminou com a fundação de uma nova unidade religiosa e a apreensão das terras e bens da Igreja Católica no país. Com isso, Henrique VIII se tornou um dos reis mais poderosos de seu tempo. Mas, a ausência de um herdeiro do sexo masculino para o trono fez com que ele repudiasse seu segundo casamento, uma vez que Ana, assim como Catarina, havia tido apenas uma filha, a futura rainha Elizabeth I. A fim de se livrar de sua esposa, o rei moveu um inquérito contra ela. Ana Bolena foi jugada culpada por crimes como traição, adultério e incesto, tendo sido decapitada em 19 de maio de 1536.

4. CATARINA HOWARD, QUINTA ESPOSA DE HENRIQUE VIII, FOI EXECUTADA POR ADULTÉRIO

Prima de Ana Bolena, Catarina Howard possivelmente tinha 18 anos quando se tornou a quinta esposa de Henrique VIII. Na época do casamento, ele tinha 49 anos. A historiografia inglesa dispõe de poucos detalhes sobre sua vida, pois a maioria dos dados foram retirados do processo movido contra ela em 1541, por traição e adultério. De acordo com eles, a jovem crescera na casa de sua avó, a duquesa viúva de Norfolk, ao lado de outras garotas e num clima de pouco rigor educacional. Possuímos poucos registros de próprio punho da rainha, de modo que não se pode fazer um julgamento mais preciso acerca de suas faculdades mentais. Com seu casamento, o clã dos Norfolk ganhou novamente muito poder e prestígio na corte. Não demorou muito e alguns indícios de que a rainha mantinha um caso com o pajem do rei, Thomas Culpeper, chegaram aos ouvidos de Henrique. Um inquérito fora instaurado e outro nome implicado no processo, Francis Dereham, com quem Catarina mantivera alguma afinidade durante os tempos em que viveu na casa da duquesa. Julgada culpada, juntamente com Cupeper e Dereham, Catarina Howard foi decapitada em 13 de fevereiro de 1542, dezoito meses após se tornar rainha da Inglaterra.

5. MARY I STUART E O ASSASSINATO DE HENRY STEWART, LORD DARNLEY

Em 29 de julho de 1565, Mary Stuart, rainha da Escócia, se casou com o primo, Henry, Lorde Darnley, numa cerimônia simples, realizada no palácio de Holyrood. A união com um católico, porém, desagradou a muitos dos súditos. Com o passar dos meses, Lorde Darnley logo se mostrou um homem indigno de sua esposa, recusando-se a assumir suas obrigações de rei consorte, insultando-a publicamente e se entregando à bebedeira. O pai do futuro James VI da Escócia e I da Inglaterra foi encontrado morto, embaixo de um pomar, após uma explosão na casa onde estava residindo, em Kirk o’Field (Edimburgo), em 10 de fevereiro de 1567. O casamento real estava sob tensão desde o ano de 1765 e pouco tempo depois da morte do rei, Mary contraíra terceiras núpcias com aquele que era considerado o suposto assassino de Darnley, Jame Hepburn, IV conde de Bothwell. A atitude da rainha, corroborada por uma série de cartas amorosas endereçadas a Bothwell, deu margem para que as pessoas acreditassem que ela estava envolvida numa espécie de complô para tirar seu marido da jogada, sem comprometer o direito de sucessão do próprio filho, e se casar com outro. Porém, uma professora de história da Glasgow Caledonian University, Karly Kehoe, defende a teoria de que o rei consorte foi assassinado pelos seus próprio compatriotas, enraivecidos com a traição do rei no complô para matar o secretário italiano de Mary, David Rizzio.

6. MARGARIDA DE VALOIS FOI EXILADA DA CORTE E DEPOIS SE OPÔS PUBLICAMENTE AO MARIDO

Margarida de Valois, a eterna rainha Margot, é uma das personalidades mais controversas e, ao mesmo tempo, apaixonantes, da história da França. A “noiva de São Bartolomeu” teve sua vida marcada pelo desastre desde o seu casamento com o príncipe Henrique de Navarra, mais tarde Henrique IV. Suas bodas se transformaram num massacre de huguenotes na noite de 23 para 24 de agosto de 1572. Desde então, Margarida foi usada como peão para atrair seu marido para o lado da família real francesa, algo que não aconteceu. Após ser rejeitada por Henrique e abandonar a casa paterna, Margot teve uma série de amantes que se tornaram famosos, como Joseph La Môle, cujo relacionamento com a rainha de Navarra foi tema do romance de Alexandre Dumas, “La Reine Margot”. Com a ascensão de Henrique de Navarra ao trono da França, Margarida foi convencida a reconhecer a anulação de seu casamento, uma vez que sua reputação fora maculada pelos casos extraconjugais, algo que colocaria em risco a legitimidade da sucessão da coroa. Magot conservou, porém, o título de rainha da França e terminou seus dias gozando de uma liberdade sexual e de pensamentos pouco comuns para as demais mulheres da época.

7. CAROLINA MATILDE E AS POLÍTICAS DA PAIXÃO

O caso da rainha dinamarquesa Carolina Matilde e seu amante, Johann Friedrich Struensee, constitui-se em um dos maiores escândalos da história dinamarquesa, pois acredita-se que a princesa Louise Augusta, era sua filha ilegítima. Para muitos na alta sociedade dinamarquesa e no tribunal, o rei Cristiano VII, marido de Carolina, era considerado mentalmente perturbado. Dizia-se que ele era “psicologicamente instável e sofria de ataques de ansiedade, explosões de raiva, paranoia, automutilação e alucinações”, segundo o médico do próprio rei. Rapidamente, Struensee e a rainha, que compartilhavam opiniões políticas semelhantes, começaram um caso e convenceram Cristiano a dar poder absoluto a Struensee. Durante dez meses, a Dinamarca foi governada pela rainha e pelo seu amante. Porém, Cristiano VII foi convencido por seus inimigos de que os dois estavam conspirando para matá-l. Struensee foi executado e Carolina Matilde exilada da corte e aprisionada.

8. MARIA ANTONIETA ERA ODIADA PELO POVO POR SEU AMOR PELA OPULÊNCIA E PELO GLAMOUR

“Que comam brioches”. Muitos são aqueles que, ao ouvir ou ler essa frase, a associam diretamente à figura de Maria Antonieta, última rainha da França, que, num gesto de descaso para com o sofrimento do povo pela falta de pão, teria dito para se saciarem com bolo. Alguns historiadores e biógrafos da esposa de Luís XVI, entre os quais Stefan Zweig e Antonia Fraser, levantam argumentos consistentes sobre a verdadeira autoria da frase, que já era atribuída a princesas estrangeiras pelo menos 100 anos antes de Maria Antonieta pisar na França. Porém, como jargão político, casou perfeitamente com a imagem de extravagância, frivolidade e indiferença, que foi criada para a rainha. De fato, durante os seus primeiros anos no país, ela despendeu somas exorbitantes na aquisição de roupas e joias, bem como na compra e reforma de propriedades, o que lhe rendeu o apelido de “Madame Déficit”. Muito embora os gastos de Antonieta não equivalessem a 1/6 das despesas do Estado, ela se tornou um símbolo da ganância e da decadência do antigo regime. Sua reputação ficou irremediavelmente manchada em 1785, quando um escândalo envolvendo uma condessa, uma prostituta, um cardeal e o mais magnífico colar de diamantes da Europa passou a circular pelas ruas de Paris. Popularizado pelos folhetins de Alexandre Dumas, “a intriga do colar da rainha” se tornou uma peça chave contra a credibilidade da instituição monárquica na França e de sua soberana.

9. CATARINA DA RÚSSIA E O GOLPE DE ESTADO QUE A FEZ IMPERATRIZ

Entre tantas garotas europeias nascidas em berço esplêndido, indicadas para se casar com o futuro czar Pedro III da Rússia, a escolha recaiu sobre  Sofia Frederica Augusta de Anhalt-Zerbst, um principado alemão de menor importância. Após se converter à fé ortodoxa ela recebeu o nome de Catarina. A história, porém, se lembraria dela coma “a Grande”. Apos a morte da imperatriz Isabel, em 5 de janeiro de 1762, o governo país caiu nas mãos desse jovem extremamente arrogante e despreparado. O reinado do czar Pedro III, porém, estava destinado a ter vida curta. Não era um monarca querido, nem pelo corpo diplomático de ministros, nem pelo povo, que nunca fez questão de conquistar. Suas políticas teriam levado a Rússia a tornar-se um estado satélite da Prússia, não fosse a realização de outro golpe de estado, protagonizado por ninguém menos que sua esposa, Catarina. Ela não era uma Romanov de sangue, mais possuía toda o carisma e inteligência que faltavam a seu marido. Tendo consumido vorazmente as obras de escritores iluministas, o que lhe valeu o posteriormente o título de “déspota esclarecida”, e observado de perto a postura de Isabel I como monarca, Catarina, apoiada pela Guarda Preobrazhensky e pelos irmãos Orlof, tomou a coroa das mãos de seu marido. Em detrimento do seu filho com Pedro, Paulo, foi proclamada Imperatriz de Todas as Rússias. Pedro III foi assassinado em 17 de julho de 1762, sob as mãos dos irmãos Orlof.

10. CARLOTA JOAQUINA E OS SONHOS DE UMA RAINHA FRUSTRADA

Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon segue como uma das rainhas mais controversas tanto da história de Portugal, quanto da história do Brasil. Esposa do rei D. João VI e mãe do imperador D. Pedro I, a imagem que a posteridade guarda de Carlota é a de uma mulher amargurada, lasciva e mestra na intriga, que acima de tudo desejava a coroa para si, a despeito de seu marido. Entretanto, contrariando essa perspectiva pra lá de reducionista. filha do rei Carlos IV da Espanha e de Maria Luiza de Parma, Carlota Joaquina recebeu uma excelente educação, que, por sua vez, qualificavam-na como uma regente em potencial, não fosse às conspirações em que se envolvera para assumir o trono. Não obstante, devido ao fato de ser adepta do regime absolutista, em um universo cada vez mais liberal, a crônica da época não poupou palavras ao descrevê-la como a mulher maquiavélica que conhecemos hoje. Com as notícias da prisão de sua família por Napoleão Bonaparte, uma ideia perpassou pela cabeça, dando-lhe ânimo para seguir em frente: a de se tornar responsável pelas colônias espanholas na América. A possibilidade de ela vir a administrar as possessões dos Bourbon se afigurava como uma forma de se emancipar da tutela do príncipe e se fixar como rainha de seu próprio reino.  A perspectiva, porém, assustava tanto ao príncipe regente, quanto a Inglaterra, especialmente por causa do gênio imperioso da princesa e os sonhos de uma união ibérica, sob o comando de dona Carlota, foram abortados.

FONTE: THE INSIDER Acesso em 05 de fevereiro de 2019

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