“Diga a ela que a deixo com pesar”: como Maria Antonieta reagiu à morte de Luís XVI

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Às 10h22 da manhã do dia 21 de janeiro de 1793, um evento de proporções quase inéditas ocorria na França: um monarca absolutista era decapitado em praça pública, diante de uma enorme plateia. Ele deixaria para trás um legado bastante controverso, além de uma família desolada, feita prisioneira juntamente consigo. As semanas que precederam a execução de Luís XVI, vulgo Luís Capeto, foram bastante tensas para sua esposa, Maria Antonieta, sua irmã, Madame Elisabete, e seus filhos, Maria Teresa e Luís Carlos. Desde o dia 21 de setembro do ano anterior, quando a monarquia foi formalmente derrubada, que os títulos de rei e rainha lher haviam sido tomados. O que se acreditava ser o golpe final nas esperanças do casal real acabou se mostrando em mais um degrau rumo ao trágico desfecho que os aguardava. Luís, indiferente ao ocorrido, permaneceu concentrado em sua leitura, enquanto Antonieta, consternada, decidiu se deitar. Naquele mesmo dia de setembro, porém, o exército aliado da Prússia havia sofrido uma derrota vexatória em Valmy, piorando ainda mais a situação dos prisioneiros. A possibilidade de negociar sua liberdade era, assim, um sonho cada vez mais remoto. Como símbolos do regime deposto, Luís XVI e Maria Antonieta eram uma ameaça para a recém-nascida República Francesa. Enquanto permanecessem vivos, seus algozes nunca estariam seguros no poder.

Último retrato para o qual Maria Antonieta posou, executado por Alexandre Kucharski (1791).

Com efeito, as condições de encarceramento da família real pioraram drasticamente a partir do dia 29 de setembro, quando lhes foram retirados papel, caneta e lápis. Utensílios esses que poderiam ser utilizados para manter alguma correspondência clandestina com os partidários do antigo regime (como a monarquia absolutista passaria a ser conhecida após a Revolução). Momentos depois, o rei foi separado dos outros membros da sua família e levado para a torre maior no Palácio do Templo, onde se encontravam detidos desde o dia 13 de agosto. Apesar dos protestos da rainha em querer permanecer junto ao marido, levaram-no sozinho. No dia seguinte, ela fez uma petição aos carcereiros, nas expectativa de que pelo menos autorizassem a reunião da família nas horas de refeição, o que lhe foi atendido no princípio de outubro. Separando o rei da rainha, os revolucionários acreditavam com isso estar dificultando possíveis planos de fuga e resgate, organizados por eles com o auxílio de partidários infiltrados na prisão. O que não impediu, todavia, que o valet que ainda estava a serviço do rei, Cléry, levasse e trouxesse notícias entre os diferentes cômodos. No final do mês, Maria Antonieta, Madame Elisabete e os príncipes foram igualmente transferidos para a torre mais alta, acomodados num apartamento acima dos do rei.

Segundo Evelyne Lever, todas as precauções estavam sendo tomadas para tornar a fuga da família real em um plano impossível: “uma nova parede fora construída em volta da masmorra, com duas portas gradeadas e grandes cadeados” (2004, p. 319). A autora faz uma descrição detalhada de como eram as acomodações dos presos a essa altura:

Os apartamentos ficavam em dois pisos, cada qual dividido em quatro quartos modestamente mobiliados. O papel pintado que cobria a parede da entrada representava o interior de uma prisão. Pelas janelas não entrava a luz, pois eram cobertas com enormes barras e grandes ferrolhos. Apesar do aquecedor, fazia frio. Em pouco tempo, o rei adoeceu e ficou de cama; em seguida, foi a vez do dauphin. A rainha cuidou do marido e do filho. A vigilância sobre os prisioneiros ficou cada vez mais severa. No início de dezembro, as facas, tesouras, canivetes e todos os demais objetos pontiagudos foram retirados (LEVER, 2004, p. 319).

Na opinião de Lever, essas constantes humilhações eram uma prenúncio do que a assembleia recém-eleita, chamada de Convenção, estava preparando para o rei. Depois de uma calorosa discussão, decidiram que chegara o momento de levar Luís XVI a julgamento. A descoberta de documentos escondidos no Palácio das Tulheiras comprovavam suas negociações com as potências estrangeiras e com os príncipes emigrados.

“O adeus da família real”, por Jean-Jacques Hauer (1794)

Na manhã do dia 11 de dezembro, o rei foi convocado a comparecer à Convenção. Ao rufar dos tambores do lado de fora, ele e Maria Antonieta compreendiam perfeitamente o que aquele gesto significava. Luís seria novamente retirado do convívio da família. Em vão sua esposa esperou que regressasse naquela noite. Enquanto o julgamento durasse, qualquer aproximação seria veementemente negada, exceto no caso do delfim, Luís Carlos. Se fosse da vontade do seu pai, o garoto seria levado até ele, com a condição de não retornar para o apartamento da mãe, o que o rei não concordou. “Luís XVI não seria cruel a ponto de separar a rainha do dauphin” (LEVER, 2004, P. 319). Em constante estado de angústia, na expectativa de receber informações sobre o marido, Maria Antonieta quase não se alimentava ou se comunicava com os outros, se entregando a crises de choro que duravam horas. Nem no natal foi permitido que a família real se reunisse. Luís então aproveitou a ocasião para ditar seu testamento, o que demonstra que ele não tinha ilusões quanto ao seu destino. O rei preenchia boa parte do seu tempo em oração, assistido por um padre não jurado. A licença para a escolha do sacerdote lhe fora concedida pela Convenção, assim como seus próprios advogados.

Por intermédio do valet Cléry, a família trocou votos de “feliz ano novo” no dia 1 de janeiro de 1793. Em algum momento daquele mês, a rainha sabia que a sentença do rei era apenas uma questão de tempo. Às sete horas da noite de domingo, dia 20, finalmente recebeu permissão para vê-lo. Há seis semanas que não se viam. Em face da fisionomia bastante mudada de Luís, Maria Antonieta se preparou para o pior. Apenas quatro dias antes, a pena de morte foi aprovada numa votação bastante apertada. A família ouviu dos lábios do próprio monarca que havia sido condenado a uma execução pública pela guilhotina, na antiga Praça Luís XV, rebatizada de Praça da Revolução. Segundo Cléry, ao verem as lágrimas escorrerem pelo rosto do condenado, “todos abraçaram o rei; durante vários minutos houve um silêncio sombrio, quebrado somente por soluços” (apud LEVER, 2004, p. 320). Pouco depois, sentaram-se muito próximos, conversando em voz baixa, por um período de aproximadamente duas horas, para que os guardas estacionados do lado de fora não pudessem escutar o que falavam. Essa foi a última vez que pai, mãe e filhos permaneceram juntos. Por volta das 22h15, a família fora novamente separada, com a promessa se verem ainda uma última vez, antes da partida do rei no dia seguinte.

Apesar dos muitos protestos por parte de Maria Antonieta, de permanecer na companhia do marido durante a noite, Luís se recusou. Queria passar o resto do tempo de que dispunha em orações. Cléry conta-nos como foi o último adeus:

A rainha aninhou-se junto ao rei, segurando Luís Carlos. O menininho agarrou com força a mão de ambos os pais, beijando-os e chorando. [Elisabete] também abraçou o irmão. Maria Teresa chorava alto. […] No final Luís só convenceu a família a partir, prometendo vê-los de novo na manhã seguinte para a última despedida.

– Não estou dizendo adeus – afirmou ele. – Estejam certos de que vos verei de novo às oito horas, amanhã de manhã.

– Por que não às sete? – tentou a rainha.

– Sete horas, então.

– Prometes? – gritou a rainha.

– Prometo – respondeu o rei. Ele se soltou e foi para o seu quarto. Os soluços das crianças que partiam chegaram a Cléry através da parede (apud FRASER, 2009, p. 440).

Talvez por não conseguir, ou por não obter permissão, o rei não foi capaz de cumprir a sua palavra. O abade Edgeworth, que assistiu o rei nos momentos finais, desaconselhou mais esse último encontro, temendo o efeito que poderia causar na coragem dele. Enquanto isso, no andar de cima, as três mulheres ficaram sem dormir, na expectativa de que fossem introduzidas novamente no quarto de Luís.

A execução de Luís XVI (1793)

“Diga à rainha, a meus queridos filhos e a minha irmã que eu havia prometido estar com eles esta manhã, mas quero poupar-lhes a dor de uma separação tão cruel; sinto-me muito triste por morrer sem receber os últimos abraços deles” (apud LEVER, 2004, p. 321), foi essa a mensagem confiada a Cléry por Luís XVI, para que fosse transmitida à sua família. Entregou ao valete seu selo real, destinado ao delfim, e a aliança de casamento para a esposa. “Diga a ela que a deixo com pesar”, foram suas últimas palavras à mulher com quem compartilhou 23 anos de sua vida. Em seguida, tirou uma mecha de seus cabelos, para que também fosse entregue a Maria Antonieta. Pouco depois das nove horas, o rei partiu para o cadafalso. O rufar dos tambores informou à rainha que ela não veria o marido com vida outra vez. Nenhum dos presos conseguiu tomar o dejejum naquele dia. Instantes depois, a retomada do barulho dos tambores e os tiros de canhão anunciaram a morte de Luís XVI. Enquanto a multidão gritava de alegria diante da visão da cabeça ensanguentada do rei nas mãos do carrasco, a rainha cativa se rendeu ao desespero, incapaz de pronunciar qualquer palavra. Sua cunhada, porém, não escondeu sua raiva diante daquele situação: “Os monstros! Estão satisfeitos agora”, foram suas palavras.

Maria Antonieta em trajes de viúva, segundo obra de Alexandre Kucharski.

Depois da execução do rei, Maria Antonieta ficaria pejorativamente conhecida como “Viúva Capeto”. Sua primeira atitude foi saldar o filho, Luís Carlos, como Luís XVII. Solicitou vários vestidos de cor negra e passou a se alimentar cada vez menos ou a sair ao ar livre. Vez ou outra, era acometida por ataques de convulsão, que a deixavam bastante exausta. Aos 37 anos, a rainha estava quase irreconhecível. Mais parecia uma mulher idosa. Pouco lembrava a elegante soberana, que caminhava tão orgulhosamente pela sala dos espelhos no Palácio de Versalhes. Mas os revolucionários não haviam se esquecido dela. Após a execução do rei, o julgamento da rainha era apenas uma questão de tempo. No dia 3 de julho, vários guardas municipais penetraram nos seus aposentos, para informa-la que Luís Carlos seria retirado dos seus cuidados. Encontrando as forças que lhe faltaram nos dias precedentes, a rainha se agarrou com fúria ao garoto, recusando-se a entrega-lo. Quando a ameaçaram com o uso da violência, ela não teve alternativa a não ser se separar do filho. Não queriam que a mãe incutisse na cabeça da criança qualquer tipo de percepção de sua posição social. Um mês depois, Maria Antonieta era escoltada para uma nova prisão, a Conciergerie, conhecida também como “antecâmara da morte”. Lugar de onde sairia apenas para enfrentar sua morte, como fizera seu marido em 21 de janeiro daquele ano.

Referências Bibliográficas:

CAMPAN, Madame. Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2008.

CARLYLE, Thomas. História da Revolução Francesa. Tradução e prefácio de Antônio Ruas. 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, [196-].

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

MICHELET, Jules. História da Revolução Francesa: da queda da Bastilha à Festa da Federação. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras/Círculo Do Livro, 1989.

MORIN, Tania Machado. Virtuosas e perigosas: as mulheres na Revolução Francesa. São Paulo: Alameda, 2013.

PRICE, Munro. A queda da monarquia francesa: Luís XVI, Maria Antonieta e o barão de Breteuil. Tradução de Julio Castañon. Rio de Janeiro: Record, 2007.

TOURZEL, Duquesa de. Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2014.

VINCENT, Bernard. Luís XVI. Tradução de Julia da Rosa Simões. Porto Alegre: L&PM Editores, 2007.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta: retrato de uma mulher. Tradução de Irene Aron. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

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