Não é um conto de fadas: a condição das princesas no antigo regime monárquico

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ao longo da Idade Moderna, o casamento entre príncipes e princesas era a principal estratégia entre as casas dinásticas da Europa, para firmar importantes alianças políticas. Nesse negócio, a preparação das mulheres era de suma importância, uma vez que o sucesso da aliança dependia de sua capacidade de gerar herdeiros e traduzir uma boa imagem para a monarquia. Educadas desde pequenas para representar seu país de origem numa corte distinta, poucas foram as princesas que tiveram a sorte (ou azar) de se casar com um homem de sua escolha. Uma vez rainhas, deveriam zelar pela reputação do governo através de atos que engrandeciam a imagem dos reis, como a caridade e o patrocínio a instituições. A figura bíblica de Maria, que era virgem e mãe ao mesmo tempo, deveria ser, portanto, o ideal máximo de uma soberana. Sua principal tarefa, contudo, era gerar uma prole de herdeiros saudáveis para o trono, assegurando assim a continuidade da dinastia. Se falhasse nesse quesito, estaria colocando sua posição em grande perigo. Não obstante, uma conduta recatada e virtuosa era essencial para dissipar qualquer dúvida quanto à legitimidade da prole, pois a mancha do adultério poderia ser suficiente para condenar uma rainha à morte.

Esse modelo de retidão feminina foi seguido à risca por muitas rainhas consortes ao longo da história, como Isabel de York, esposa do rei Henrique VII da Inglaterra. Porém, com a passagem para a Idade Moderna, período ao qual este livro pretende abarcar, uma alteração no comportamento das soberanas começou a ser observada. A virgem continuava a ser o ideal inalcançável, embora uma nova postura, mais liberal, começasse a ser adotada por algumas delas. Vivendo em diferentes épocas, mulheres como Ana Bolena, Margarida de Valois, Maria Antonieta e Carlota Joaquina romperam com os padrões de submissão feminina e aproveitaram sua posição para lutar por aquilo que queriam. As consequências de seus atos transgressores deixaram marcas na história que transformaram essas rainhas em personalidades irresistíveis do imaginário popular. A mistura de poder e tragédia que costura a vida destas soberanas oferece ao leitor uma combinação perigosa e ao mesmo tempo apaixonante. No século XXI, elas se transformaram em exemplos de força e coragem para muitas pessoas, apesar dos estereótipos ligados às suas personalidades, construídos através dos anos por uma tradição conservadora, que via a mulher pública como um objeto de escárnio para a sociedade.

Isabel de York, Ana Bolena, Margarida de Valois e Maria Antonieta

O lugar das mulheres no espaço público é um assunto bastante problemático, principalmente no mundo ocidental. Contudo, a recente pesquisa feminista tem contribuído muito para uma reavaliação do poder feminino através dos anos. Vistas durante muito tempo como incapazes, mulheres que pretendessem seguir uma vida pública eram, na maioria das vezes, alvo de vergonha para a sociedade. Na Grécia antiga, o próprio Pitágoras dizia que “uma mulher em público está sempre deslocada”. Essa visão foi legitimada ao longo dos séculos tendo como base a história de personalidades femininas que se intrometeram em assuntos que, a priori, não diziam respeito a elas, como, por exemplo, na política. Nesse caso, o discurso antagonista buscou no passado personagens consideradas como péssimas governantes, tais como Catarina de Médicis, Maria I da Inglaterra, entre outras, no intuito de embasar a crença de que esfera pública e sexo feminino eram dois domínios que não combinavam. Para Michelle Perrot “essas representações, esses medos atravessaram a espessura do tempo e se enraizaram num pensamento simbólico da diferença entre os sexos”.

Com efeito, na primeira Epístola a Timóteo (2, 12-14), estava escrito que “a mulher conserve o silêncio, diz o apóstolo Paulo. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, caiu em regressão”. Aquelas que quebrassem a ordem natural das coisas, portanto, eram uma espécie de abominação para os países cristãos, dando assim margem a todo tipo de acusação, inclusive de bruxaria, como foi o caso de Ana Bolena, que por muitos anos permaneceu como um mau exemplo a ser seguido. Sua morte brutal serviu de lição para aquelas que ambicionavam algo maior do que lhes era permitido, como mais tarde provaram sua prima, Catarina Howard, Mary Stuart, rainha da Escócia e, quase três séculos mais tarde, Maria Antonieta, rainha da França. Todas essas mulheres pagaram com a própria vida por crimes que supostamente haviam cometido em decorrência de uma conduta duvidosa. Desse modo, a herança de Ana Bolena viria para assombrar aquelas que transgredissem as normas sociais de suas respectivas épocas. Só partir da década de 1960, quando a mulher emergiu como objeto de estudo para as ciências humanas, foi que as rainhas tiveram seus papeis na história reinterpretados, dando início a um processo de desconstrução de imagens que, por sua vez, ainda não terminou.

Maria I da Inglaterra, Mary Stuart e Catarina de Médicis

Nem santas, nem demônios, as princesas passaram a ser vistas como mulheres dotadas de virtudes e defeitos, estando mais próximas de nós do que talvez possamos imaginar. Apesar de estarem no topo da pirâmide social, possuíam menos liberdade do que as mulheres do povo. Sua vida nãos lhes pertencia, mas ao Estado. Dessa forma, elas tiveram que aprender a usar os elementos de que dispunham para obter maior representatividade, seja através do uso da moda, como Maria Antonieta, ou através do controle dos filhos, como Catarina de Médicis. Nas palavras de David Loades, “a rainha que era mãe de um herdeiro varão era duplamente afortunada. Não tinha só cumprido seu dever mais elevado – tinha também aumentado a autoridade do marido a um nível incalculável e demonstrado que Deus via favoravelmente o seu governo”. Por esse motivo é que vemos Henrique VIII brigar tanto por um filho homem, tomando para isso medidas desesperadas, como romper com a igreja, casando-se sucessivas vezes.

Sendo assim, o papel primordial de uma rainha consorte era gerar sucessores para o trono do marido e estar submissa à vontade deste. Não obstante, também tinha obrigações para com o reino e os súditos. Uma soberana era considerada generosa quando patrocinava instituições de caridade, movimentos artísticos e estudos científicos, uma vez que tais ações traziam maior visibilidade para o governo. Ela deveria desempenhar estas tarefas com elevado grau de seriedade, pois sua reputação também estava em jogo e um escândalo poderia desencadear sérias crises para o regime monárquico. Se fosse bem-sucedida, ganhava ainda mais respeito e confiança por parte do rei. Em alguns casos, ela poderia inclusive exercer funções de conselheira, sendo por isso respeitada pela sabedoria que demonstrasse. A erudição em uma rainha consorte poderia lhe valer muitos privilégios, inclusive administrativos. Poderiam até mesmo governar de forma conjunta com o rei, ou na ausência destes, na qualidade de regentes. Embora tendo um papel político limitado, as princesas conseguiriam agir através de outros meios para atingir um determinado fim, provando que a imagem de passividade que lhe imputavam não era tão plena como se tem sugerido até então.

Referência:

TAPIOCA Neto, Renato Drummond. Rainhas Trágicas: quinze mulheres que moldaram o destino da Europa. Amadora, Portugal: Vogais, 2016.

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