A rainha florentina da França: a construção da imagem pública de Catarina de Médicis

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Catarina de Médicis, rainha da França, permanece como uma das personagens mais vilipendiadas da história ocidental, especialmente por seu suposto envolvimento (não comprovado, diga-se de passagem), no massacre de São Bartolomeu, chacina que ceifou a vida de milhares de protestantes huguenotes no dia 24 de agosto de 1572. A partir de então, a lenda sombria da rainha florentina, descendente de uma família que lançava mão dos meios mais sórdidos para se livrar de seus rivais, começou a ser cuidadosamente construída, primeiro pelos protestantes da França, depois por pensadores e literatos de décadas e séculos a posteriori. Aos huguenotes, era acusada de ser uma católica assassina. Aos papistas, uma reformista. Diante de desses fatos, percebemos quão longe estamos de desvelar uma face mais humanizada daquela que foi uma das mulheres mais poderosas de sua época e que deixou um imenso legado cultural para a França. A imagem de uma mulher culta e pragmática é praticamente ensombrada pela da rainha má, que foi capaz de usar as bodas da própria filha como cenário para um doa maiores massacres da história. Imagem essa que foi criada para ataca-la e responsabiliza-la por tudo de ruim que acontecia no país.

Catarina de Médicis, por François Clouet.

Em toda da História da França, a lenda obscura de Catarina de Médicis só encontra paralelo com a de Maria Antonieta, que reinou duzentos anos depois da morte da rainha florentina, mas que foi igualmente vilipendiada pela população: primeiro por ser uma estrangeira, e, portanto, acusada de ser uma espiã; segundo, pela adoção de certas medidas políticas, visando a manutenção do trono, quando o país se encontrava em momentos de crise. A principal diferença entre as duas, porém, estava na linhagem. Para uma nobreza extremamente estamentária como era a da França no século XVI, era quase inaceitável, senão repugnante, a ideia de ter ao lado de um rei Valois, uma rainha florentina, descendente de uma família de banqueiros que acumulou poder e prestígio ao longo dos anos. Catarina de Médicis era assim uma outside, uma intrusa no seio da primeira monarquia cristã da Europa.  A ausência de filhos do casal, por um período de 10 anos, só fez contribuir a crença de que o delfim, mais tarde rei Henrique II, deveria repudiar sua esposa estéril e contrair segundas núpcias. Quando em 1544 nasceu o primeiro filho do casal, e outros 9 se seguiram a ele, comprovou-se então que ela era capaz de gerar herdeiros para o trono. Mas seu sucesso nas gestações não se repetia nos sentimentos de Henrique II.

Até a morte do rei, em 1558, Catarina de Médicis tolerou o império da amante deste, Diana de Poitiers, e depois o do clã dos Guise, tios da nova rainha da França, Mary Stuart. Se quisermos datar a participação direta de Catarina na vida política, o ano seria o de 1561, quando ela assumiu a regência da França durante a minoridade de seu filho Carlos IX. Biógrafos como Jean-François Solnon (2004) e Leonie Frieda (2006), apontam que as atitudes da rainha mãe enquanto governante sempre tiveram um caráter conciliatório. Ela não desprezava o crescente número de protestantes no país, e tentou, de várias formas, atender às exigências desse grupo, chefiados pelo almirante de Coligny, causando assim o desagrado da facção católica, liderada pelo duque de Guise. Disposta como estava a proteger a herança de seus filhos, ela ora oscilava para um partido, ora para outro. Mas a bandeira que levantava sempre fora a da coroa. Porém, haviam interesses demais envolvidos na questão religiosa, que logo se transformou em política. Logo, os esforços da rainha mãe para manter a paz no reino se mostraram quase infrutíferos. As oito guerras de religião que assolaram a França entre janeiro de 1560 e 1598 não foram responsabilidade de Catarina e sim fruto de interesses políticos antagônicos, de facções que queriam poder e influência sobre a coroa. Entre homens poderosos como Felipe II da Espanha, o duque de Guise e o cardeal de Lorena, a esfera de ação da rainha era bastante limitada.

Não obstante, seus filhos, uma vez atingida a maioridade, logo demonstraram interesse em se livrar da tutela materna, para desespero de Catarina. A fatídica noite de São Bartolomeu foi, assim, ocasionada por uma ordem mal interpretada de Carlos IX às suas tropas, que levou ao assassínio de milhares de protestantes em Paris. A opinião pública, julgando que Catarina ainda exercia alguma influência sobre as decisões do filho, não tardou em culpa-la por isso. O ataque mais virulento veio de um panfleto de 1574, intitulado Discurso maravilhoso da vida, ações e conduta de Catarina de Médicis, no qual era zombeteiramente chamada de “santa Catarina”:

O autor anônimo acusava a rainha de todos os pecados. A intriga, a duplicidade, a traição eram os seus métodos de governo. Mãe desnaturada, não hesitara em corromper seus filhos, recusando-lhes uma boa educação, encorajando sua perversidade, para quebrar a sua energia e governar em vez deles. Teria privado Carlos IX criança dos seus preceptores para o encorajar a “brincar com o pião e fazer (por um sinistro presságio) combater galos uns contra os outros”. Depois tê-lo-ia rodeado de “professores de ofensas e blasfêmias”, de “escarnecedores de todas as religiões”, fazendo-o “ser atraído por rufiões”, que ela [post]ava (como sentinelas) à sua volta” e servia-lhe mesmo “prostitutas (…) para fazer esquecer qualquer desejo de conhecer assuntos do reino, encobrindo-o com todo tipo de volúpia” (SOLNON, 2004, p. 224).

Em toda da História da França, a lenda obscura de Catarina de Médicis só encontra paralelo com a de Maria Antonieta, que reinou duzentos anos depois da morte da rainha florentina, mas que foi igualmente vilipendiada pela população. (tela de Adolf Ulrich Wertmüller).

Para uma autêntica princesa da renascença, versada em mais de um idioma, extremamente cumpridora de seu deveres religiosos e morais, além de motivada por um profundo respeito pela etiqueta, fica difícil acreditar em qualquer umas das palavras do autor do dito panfleto, ainda mais se analisarmos sua correspondência aos filhos, onde a figura de mãe zelosa e preocupada com a saúde e decisões dos mesmos aparece em tons quase de exagero.

Publicações como o Discurso Maravilhoso eram facilmente consumidas pela população, especialmente entre aqueles desgostosos do governo de seus soberanos. Basta lembrar, 200 anos depois, dos pasquins que descreviam Maria Antonieta como lésbica e ninfomaníaca. Em se tratando de mulheres, sua sexualidade era o primeiro alvo de caricaturistas. O poder que a propaganda teve na vida dessas duas rainhas foi tão poderoso, que até hoje, há quem repita que Catarina de Médicis foi a mandante do São Bartolomeu e que Antonieta, num momento de deboche, teria mandado a população faminta da França comer brioche. O Discurso Maravilhoso ainda apresentava a tese funesta de que a rainha planejava aniquilar a nobreza do reino e substitui-la por uma corte de perdulários italianos. Como resposta a esse tipo de ataque, Catarina de esforçava em manter a família real unida, conforme demonstra Nancy Goldstone em The Rival Queens (2015), apesar dos muitos desentendimentos que existiam entre dois de seus filhos, Henrique III e Margarida de Valois. Se no plano político sua situação não encontrava remédio, o pessoal e familiar também estava um caos. Dividia entre a prole, ela sempre tomou o partido de Henrique, a quem se acredita que fosse o filho predileto.

O imaginário coletivo, alimentado pela literatura oitocentista, só fez contribuir para endossar a imagem da rainha sórdida e maquiavélica. No seu Analyse raisonnée de l’histoire de France, publicado em 1866, Chateaubriand disse que:

Catarina de Médicis, sem ser regente do reino durante a minoridade de Carlos IX, gozou de uma autoridade que se prolongou durante todo o reinado deste príncipe e do de Henrique III. Pintou-se tantas vezes o caráter desta mulher, que já se constitui um lugar-comum gasto; resta fazer uma única observação: Catarina era italiana, filha de uma família comerciante elevada ao principado numa república; estava habituada a tempestades populares. Às facções, às intrigas, aos envenenamentos, aos golpes de punhal. (…) Era incrédula e supersticiosa tal qual os italianos do seu tempo; na sua qualidade de incrédula não tinha nenhuma aversão pelos protestantes; fê-los massacrar por política. Enfim, se a seguirmos em todas as suas diligências, apercebem-nos que não viu nunca no vasto reino de que era soberana senão uma Florença ampliada… (apud SOLNON, 2004, p. 332)

Chateaubriand reproduz assim uma visão extremamente preconceituosa de Catarina, da qual não cansa de fazer referências à sua linhagem italiana e ao meio no qual cresceu, como justificativa para as barbaridades das quais injustamente lhe culpa. Versão bem diferente e mais ponderada apresentou Balzac, no seu Études philosophiques. Sur Catherine de Médicis, de 1837:

Catarina de Médicis salvou a coroa de França; manteve a autoridade real em circunstâncias no meio das quais mais do que um grande príncipe teria sucumbido. Tendo à sua frente facciosos e ambições como as de Guise e da casa de Bourbon, homens como o cardeal de Lorena e como os dois Golpeados, os dois príncipes de Condé, a rainha Joana de Albret, Henrique IV, o condestável de Montmorency, Calvino, os Coligny, Teodoro de Béze, foi-lhe necessário ostentar as qualidades mais raras, os dons mais preciosos do homem de Estado, sob o fogo da chacota da imprensa calvinista. (…) Por isso, quem aprofunda a história do século XVI em França, a figura de Catarina de Médicis aparece como a de um grande rei. Uma vez dissipadas as calúnias pelos fatos penosamente descobertos através das contradições dos panfletos e das falsas historietas, tudo se explica para a glória de uma mulher extraordinária… (apud SOLNON, 2004, p. 333).

Ilustração do artista protestante François Dubois, retratando o Massacre de São Bartolomeu. No canto superior esquerdo da imagem, é possível ver Catarina de Médicis, trajada de preto, contemplando a carnificina., numa clara intensão do artista em associa-la ao evento.

Sem dúvida, as palavras de Balzac poderiam ser consideradas um epitáfio perfeito para aquela que tanto lutou para manter a autoridade na coroa, em meio a facções dissidentes, que ameaçavam derrubar a família real e levar o país ao caos. Em toda a sua carreira política, Catarina sempre adotou a conciliação como a melhor solução para os problemas, lançando mãos de medidas hoje consideradas arbitrárias para manter a paz. Cabe aqui ainda citar o depoimento de um historiador contemporâneo, Henri-Cathelin Davila (1576-1631), que em seu Histoire des guerres civiles de France, disse que à prudência de Catarina não faltavam atitudes para remediar o que ele chama de “reveses súbitos da fortuna”, ou muito menos “desviar os golpes e práticas perigosas da malícia dos homens”. A essas qualidades, Davila acrescenta que:

A paciência, a destreza, a tolerância e a moderação, meios pelos quais no meio das desconfianças que o filho criara dela, depois de tantas provas que tivera de sua virtude, soube conservar-se sempre na autoridade do governo tão bem que, sem o seu conselho e sem a sua aprovação, o Rei não ousava fazer as coisas mesmo aquelas em que a considerava suspeita, foram a mais alta prova e por assim dizer o último esforço da grandeza da sua alma. […] Notou-se nela um espírito culto, uma magnificência real, um temperamento afável, uma forma poderosa de falar e uma inclinação extraordinária para as grandes coisas (apud. SOLNON, 2004, p. 335).

Retrato de Catarina de Médicis como viúva, pintado por François Clouet.

Como então uma mulher, com tantas qualidades e pragmatismo político, foi ofuscada pela imagem da megera assassina, eternamente vestida de negro e que se comprazia em ver o sangue humano derramado? A historiografia moderna tem sido muito mais gentil com a figura de Catarina de Médicis. Sarah Gristwood, no seu Game of Queen (2016), por exemplo, acrescenta que Catarina foi uma das jogadoras mais habilidosas no palco da política europeia no século XVI, em pé de igualdade a mulheres como Isabel I de Castela e Elizabeth I da Inglaterra. Catarina demonstrava uma energia extraordinária para os assuntos do Estado, conseguindo preservar o patrimônio de seus filhos e, apesar dos muitos obstáculos que apareceram no seu caminho, defendeu arduamente a autoridade da coroa. Até a sua morte, em 5 de janeiro de 1589, anos 69 anos, trabalhou constantemente para manter a unidade do reino e a união entre os franceses. Não digo com isso que era uma mulher isenta de qualquer erro. Afinal, muitos dos caminhos por ela trilhados para conservar o poder da coroa nem sempre poderiam ser considerados honestos. Mas, se fossemos fazer aqui um balanço de sua vida, conforme me propus nesse texto, penso que a melhor frase para ilustrar a vida dessa personalidade extraordinária é que ela “foi tanto mulher quanto rei!”

Bibliografia:

FRIEDA, Lonie. Catarina de Médicis. Tradução de Isabel Alves. Porto: Civilização, 2006.

GOLDSTONE, Nancy. The Rival Queens. Nova Iorque: Back Bay Books, 2015.

GRISTWOOD, Sarha. Game of Queens: the women who made sixteenth-century Europe. Nova Iorque: Back Books, 2016.

SOLNON, Jean-François. Catarina de Médicis (1519-1580). Tradução de Inês Castro. Lisboa: Bertrand, 2004.

 

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