Elizabeth Bathory e sua insaciável busca pela juventude eterna – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Introdução:

“Venham a mim nuvens
Ergam-se em tormenta maligna,
Feita para dilacerá-los
Que o manto da noite seja testemunha
da destruição daqueles que resistem
E que não me causem mal
Que o sangue de muitos venha me limpar
Preservando minha beleza eternamente

Amém”

(oração à condessa, proferida pelos jogadores do filme Stay Alive – Jogo Mortal)

“Que o sangue de muitos venha me limpar, preservando minha beleza eternamente”. Com toda certeza, esta é a melhor frase para iniciar a brutal história que pretendo relatar para vós, meus leitores, a de uma mulher que ficou famosa por ser obcecada pela juventude e temerosa da velhice; conhecida mais por seus crimes do que qualquer outra já foi e causadora dos males de tantas moças, que a posteridade (in) devidamente lhe atribuiu a nomenclatura de vampira e sanguinária. Entretanto, como não poderia deixar de serem, muitos fatores contribuíram para seu comportamento, o que, por sua vez, torna seus atos compreensíveis, porém não aceitáveis. Acompanhem-me nesta turbulenta viajem ao Reino Húngaro do século XVI para desvendarem uma infância maculada e as implicações causadas nesta personalidade que até hoje desperta a curiosidade de psicólogos e psiquiatras em mais uma tentativa de explicar os desvios da conduta humana.

Parte I – A criação do mal

Elizabeth Bathory

Elizabeth Bathory

Nascida em Nyírbátor (hoje parte da República eslovaca) a sete de Agosto de 1560, Elizabeth Bathory pertencia a uma renomada família de nobres protestantes da qual também descendia Stephen Bathory, rei da Polônia, alguns membros da Igreja, entre outros notórios heróis de guerra. Quando criança, recebera uma educação esmerada, distinguindo-se assim de seus contemporâneos (em suma analfabetos), sendo fluente em sua língua natal, no latim e no alemão. Entretanto, não tivera uma infância feliz, graças à sua fragilizada saúde, além de ter crescido num período ao qual a Hungria sediava guerras entre austríacos e turcos. De acordo com os registros, quando tinha cerca de nove anos de idade, resistiu há uma invasão das tropas inimigas ao castelo de Ecsed, residência de sua família, e provavelmente presenciara a morte de suas irmãs mais velhas, que primeiro foram estupradas e depois assassinadas (uma cena que, talvez, perturbaria seus pensamentos pelos longos anos que ainda viriam).

Não obstante, seu pai, George Bathory, se tornara famoso por aplicar castigos severos àqueles que infligiam suas leis, sendo possível que algumas deles fossem assistidas pela jovem, com certo nível de entusiasmo (como quando um cigano, acusado de seqüestrar crianças, foi aprisionado dentro da barriga de um cavalo morto, apenas com sua cabeça deixada para fora). Em 1571, Elizabeth ficara noiva de Ferenc Nadasdy, graças às tramóias políticas da mãe do mesmo, que ambicionava elevar o status social de sua família, uma vez que, apesar de serem tão ricos quanto os Bathory, não possuíam o mesmo prestígio que eles. Dessa forma, não surpreende o fato de Elizabeth, após seu casamento em 1575, ter optado por manter seu sobrenome, em vez de adotar o de seu marido. Essa união seria de fundamental importância na formação da desenvoltura sanguinária pela qual a Condessa ficara marcada. General temido pelas tropas inimigas por sua crueldade, Ferenc ensinou variados métodos de tortura à sua mulher, para que esta as aplicasse nos criados mais indisciplinados, enquanto ele estava em campanha militar. Porém, o que não sabia, era como Elizabeth as empregava em sua ausência.

Stephen Bathory, rei da Polônia.

Stephen Bathory, rei da Polônia.

Na crença popular, as punições mais leves infligidas pela condessa consistiam em enfiar agulhas entre as unhas de seus servos, atacá-los (as) com mordidas e/ou dilacerar a carne (dizem que em certa ocasião aconteceu de abrir a mandíbula de uma de suas empregadas até que o canto da boca se rasgasse). Numa época à qual era costume entre os nobres castigarem sua criadagem, Elizabeth Bathory ganhou fama de ser a mais severa, chegando até mesmo a procurar (e em certo grau inventar) motivos para exercer tais correções. Diz-se que suas sentenças variavam ainda de acordo com as estações do ano: no inverno, ela ordenava que os desobedientes fossem despidos e jogados na neve para receberem banhos de água fria e morrerem congelados; no verão, ela os amarrava em árvores com o corpo coberto de mel para que os insetos devorassem-nos ainda vivos.

Todavia, seria um equívoco não afirmar que, além de uma infância perturbada, ela também tivera a influência de alguns membros de sua família, não tão ilustres quanto os que foram citados anteriormente: é caso de seu irmão, Stephan, que era alcoólatra e dotado de um comportamento libertino; de seu tio acusado de adesão às práticas de magia negra e do culto ao demônio; e de sua tia, Klara Bathory (uma bissexual conhecida por “divertir-se” das formas mais vis com seus empregados). Esta última, por sua vez, estaria intimamente ligada à sua sobrinha, não somente pelo parentesco, mas também por um relacionamento incestuoso (alguns historiadores dão ênfase à hipótese de que Elizabeth e sua tia Klara mantinham um romance lésbico). Quem via a figura da Condessa, jamais afirmaria que por trás daquela belíssima mulher, habitava alguém tão perverso e libertino, pois, de acordo com relatos da época, quando dera à luz em 1585 uma menina batizada Anna, ela era uma boa mãe (Elizabeth e Ferenc teriam mais duas filhas, Ursula e Katherina, e em 1598 um menino chamado Paul).

Ferenc Nadasdy.

Ferenc Nadasdy.

Caso não fosse a ajuda de seus cúmplices, que encobriam todos os seus atos, provavelmente ela teria sido desmascarada antes do que pudesse imaginar. Ao seu lado estava um serviçal conhecido apenas pelo nome de Fczkco; Helena Jo; a ama de leite de seus filhos, apelidada de Dorka; e uma lavadeira conhecida como Katarina Beneczky completava o quinteto de assassinos. Em 1604, o conde Nadasdy morrera e depois de quatro semanas de intenso luto, Elizabeth Bathory decidira que era hora de continuar sua vida nada singela na bem-aventurada corte de Viena, onde conheceu Anna Darvulia, que lhe ensinou novas táticas de tortura e que, de acordo com alguns pesquisadores, era sua amante (até hoje, a suposta homossexualidade de Elizabeth Bathory constitui-se num caminho irresistível para alimentar a pitoresca lenda da Condessa de Sangue). Entretanto, tantos anos de perseguição a pobres moças e práticas cruéis acabaram por esgotar a jovialidade da Condessa. Para o seu enfado, ela estava envelhecendo!

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4 comentários sobre “Elizabeth Bathory e sua insaciável busca pela juventude eterna – Parte I

  1. Eu ia te mandar uma mensagem no teu facebook perguntando se você já tinha escrevido algo sobre ela. Estes seus artigos foi o que eu li de mais sério sobre ela. Os que eu li achei muito levado pela vibe gótica/black metal. Você sabe me dizer se tem alguma biografia histórica dela, escrita seriamente, sem balelas da cultura gótica, que se preocupa mais a cultuar o lado sanguinário dela do que a história em si. Abraços!

    PS: Tem aquele filme, “Condessa de Sangue”, você assistiu? O que achou?

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    • Muitíssimo obrigado Ana! Tentei com esse texto despor Elizabeth Bathory da imagem de vampira que a Era Vitoriana criou, e aproximá-la mais da mulher de carne e osso que fora. No Brasil dispomos de pouquíssimo material publicado sobre ela: há o romance histórico “A Condessa Sangrenta”, escrito por Alejandra Pizarnik e também a biografia de autoria de Valentine Penrose, “Erzsébet Báthory a Condessa Sanguinária”. Acredito que este último seja o tipo de livro que você esteja procurando. Utilizei-o inclusive para compor essa série de posts. Quanto ao filme, já assisti sim e futuramente pretendo fazer uma resenha do mesmo para postar aqui no blog, objetivando desfazer os estereótipos que ele aborda do personagem central. Abraços!

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